A língua francesa conhece o adjetivo
“ambiant” desde o século XVI, designando a qualidade espacial e física do ar (meio envolvente), sem ressonância afetiva.
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O milieu ambiant é desprovido de ambiance; os corpos nele estão simplesmente incluídos, sem experimentá-lo afetivamente.
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A análise filológica deve ser completada por uma “semântica histórica” (como propõe Leo Spitzer), que reinscreve as palavras na história das ideias e em suas relações com noções vizinhas (meio, ar, aura, ambiente).
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A semântica histórica de Spitzer revela:
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Na pensamento grega, periékhon designa o que nos rodeia e exerce influência.
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Em latim, o verbo ambire (rodear, abraçar) é um equivalente conceitual. O termo ambiens associado ao ar ambiente (aria ambiens) carregava uma significação afetiva: expressava não apenas o que cerca, mas uma unidade harmoniosa e simpática com o entorno.
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Com a Revolução Científica moderna, o ambiens perdeu esta nuance calorosa, foi objetivado e despido de conotações afetivas.
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A ambiance dos simbolistas recupera séculos depois esta dimensão vibrante, o Urgefühl (sentimento originário) da cordialidade de um entorno protetor. Ela é a “antítese do milieu (ambiental) determinista”.
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O sentido próprio da ambiência não é redutível ao de “ambiente” ou “meio”.
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Ela traz uma nuance nova: o que nos rodeia não é neutro (como “meio” ou “circunstâncias”), mas possui uma valor protetor e caloroso, uma dimensão sentimental.
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A raiz indo-europeia amb- (que está dos dois lados, que envolve e abraça por todos os lados) já continha este núcleo.
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Propõe-se uma distinção terminológica:
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“Ambiant” (ambiental): reservado à qualidade espacial e objetiva de um meio.
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“Ambianciel” (ambiencial): para designar a experiência tonal que une o indivíduo ao seu entorno imediato, quando este manifesta uma tonalidade afetiva e um relevo expressivo (que atrai ou repele).
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Toda ambiance é ambiante (pois nos envolve), mas nem todo meio ambiant é necessariamente ambianciel.