A partir de 1942, como professor de filosofia no liceu de Grenoble, começa a ler Heidegger, encontrando na biblioteca da Faculdade Sein und Zeit e provavelmente
Kant e o problema da metafísica, intensificando o estudo a partir de outubro de 1942 em Lyon graças à biblioteca local e à presença do amigo Joseph Rovan, que publicara na revista Arbalète páginas traduzidas de Sein und Zeit
A primeira impressão de compreensão ocorre na manhã histórica de 6 de junho de 1944, dia do desembarque na Normandia, quando, diante de um trecho aberto de Sein und Zeit, sente pela primeira vez começar a entender Heidegger, reprovando-se por não sentir com intensidade suficiente o entusiasmo devido ao anúncio do desembarque
Interrogado se hoje tem a impressão de ter realmente compreendido Heidegger, responde que ainda hoje diz a um amigo “acabo de compreender Heidegger”, repetição que já durava trinta anos, remontando a 1947, quando, no último número da revista Fontaine, publicara o artigo “Heidegger et le problème de la vérité”, primeira tentativa de compreensão que hoje lhe parece um tanto irrisória
Questionado se a dificuldade vem da língua ou dos problemas de Heidegger, responde que os problemas enfrentados são problemas inaparentes, cuja problemática real não se revela facilmente na leitura, pois Heidegger é obrigado a usar a língua da filosofia, o que desvia a atenção do leitor daquilo em relação a que ele marca uma ultrapassagem
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Menciona ter finalmente compreendido, na própria manhã da entrevista, o sentido de uma frase de Sein und Zeit segundo a qual até os pré-socráticos, mais precisamente
Parmênides, haviam saltado por cima do problema do mundo
Questionado sobre como sentiu, enquanto aluno de Léon Brunschvicg e estudioso de
Descartes por tantos anos, o retorno do olhar operado por Heidegger, responde que teve a impressão de se tratar de algo inteiramente diferente
Interrogado sobre as circunstâncias do primeiro encontro com Heidegger, atribui ao interlocutor o mérito de ter, um ano antes, em Friburgo, entregado a Heidegger números da revista Confluences contendo seus estudos intitulados “Qu'est-ce que l'existentialisme?”
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Sabendo por essa via que Heidegger estava vivo e residia em Friburgo, consegue enviar-lhe uma carta por intermédio de um alsaciano chamado Palmer, encontrado por acaso em Paris, que viaja a Friburgo e, dez dias depois, traz de volta a Paris uma carta de Heidegger e um exemplar de L'essence de la vérité, publicado em 1943
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O encontro pessoal ocorre em setembro de 1946, por volta do dia 10, em Todtnauberg, ao longo de uma breve visita e, posteriormente, de duas jornadas adicionais durante uma viagem à Áustria
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A primeira luz de compreensão vem de uma frase de Heidegger explicando que, em Qu'est-ce que la métaphysique?, para dizer que o ser não era um ente, este acabara escrevendo que o ser era um “nada”, das Nichts, significando simplesmente “nada de ente”, à maneira de um prato sobre uma mesa ou de uma porta que se abre ou fecha
Questionado sobre como o encontro pessoal permitiu situar melhor o caminho de pensamento de Heidegger, relata que, ao encontrá-lo, buscava o autor de Sein und Zeit de 1927, mas que as conversas não versavam sobre o “tempo”, e sim sobre o ente, participe presente do verbo ser, opondo-se então “ser” a “étant” e não “ser” a “tempo”
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O termo étant não fazia parte do francês corrente da época, sendo frequentemente traduzido por “existant”, uso que
Beaufret manteve até 1952 em suas anotações
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A dificuldade fundamental residia em situar o pensamento de Heidegger no entremeio de um infinitivo, ser, e de um particípio, étant, restando saber onde estaria, então, o “tempo”
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Era extremamente difícil fazer Heidegger falar sobre essa questão, pois todo o seu movimento consistia em ultrapassar a própria obra pioneira, Sein und Zeit
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Um texto trazido da Alemanha, reproduzindo a conferência de 1929 acompanhada de um posfácio, continha a frase segundo a qual pertence à verdade do ser que jamais o ser desdobre seu vigor sem o ente, nem jamais o ente seja possível sem o ser
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Uma vez que o ser não é nada de ente, e por isso era dito o “nada” na conferência Qu'est-ce que la métaphysique?, permanece o enigma de como a questão do ser constitui a ligação entre o étant — um cinzeiro, um par de óculos, uma porta, uma janela — e algo que não é nada de étant
A novidade radical desse questionamento aparece na revelação de que, desde
Platão, tudo já estava dito na palavra essencial de “participação”, entendida por Heidegger como participação do ser no ente e do ente no ser, esclarecimento que, paradoxalmente, torna as coisas cada vez mais nebulosas
Interrogado sobre o sentido da frase heideggeriana “o ser é ameaçado pelo ente”, situa-a na conferência de 1936 em Roma,
Hölderlin und das Wesen der Dichtung, onde se lê que o perigo é a ameaça do ser pelo ente
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Levanta o paradoxo de como o ser pode ser ameaçado pelo ente se, por um lado, jamais o ser desdobra seu vigor sem o ente e, por outro, jamais o ente é possível sem o ser, havendo assim, nessa participação já evocada por
Platão, dois elementos díspares em que o étant constitui ameaça para o ser
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Perante o étant — um pote vazio, uma garrafa cheia, uma fonte que corre ou que seca — indaga-se de suas qualidades, ao passo que o ser não é propriedade nem qualidade do étant e, no entanto, não pode desdobrar seu vigor sem esse étant que constantemente o ameaça