Confirma que esse ponto de vista seria incompreensível, inadmissível e surpreendente para os gregos, que viam as coisas em liberdade no aberto, ao passo que
Descartes as atrai para a rede da cogitatio e as reduz mediante o intuitus, termo de redução estranho a
Platão
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A questão que se coloca é saber se a dimensão em que os gregos experimentavam a presença das coisas, mencionada por
Platão como exodos tes epistemes, o êxodo da episteme, cujo fundo é a aletheia, presença a descoberto, não teria simplesmente desaparecido, dando lugar ao homem ego-cogitativo cartesiano, cuja subjetividade, ausente ainda em
Descartes mas presente desde
Kant, alcança
Schelling,
Hegel e, segundo Heidegger, também
Nietzsche e a fenomenologia de
Husserl
Confirma que essa atitude está na origem do que Heidegger chama o projeto matemático da natureza, fundador dos Tempos modernos, por ser a interpretação matemática o que mais satisfaz o olhar ego-cogitativo, reduzindo tudo à pergunta “quanto”
Sobre o étant tomado como alvo e contabilizado, intimado a responder, confirma que o étant é o alvo e o butim do ego cogito, tornando o homem o mestre e possuidor da natureza de que falava
Descartes, traço característico dos Tempos modernos ao qual nascemos habituados e que permanece inteiramente estranho aos gregos
Distingue, na atitude grega diante do surgimento do étant, o maravilhamento mais que o espanto, ao passo que para o homem moderno impera a certeza, mutação que Heidegger chama da verdade em certeza, remontando à diferença entre aletheia, presença a descoberto, e veritas, termo latino que a escolástica definiu como adaequatio intellectus et rei, adequação do entendimento à coisa
Esclarece que ainda não há sujeito e objeto propriamente ditos na época da verdade como adequação, distinguindo, segundo santo Tomás, a adequação das coisas criadas ao entendimento divino da adequação do entendimento humano às coisas criadas por Deus
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Observa que a homoiosis grega, traduzida em latim por adaequatio, era sustentada e banhada pela aletheia, ao passo que a adaequatio latina se basta a si mesma, o que levará
Descartes, ao filosofar sem a luz da fé, a buscar novo fundamento para a adequação na certeza do ego que ego-cogita todas as coisas
Confirma tratar-se da essência mesma do projeto matemático da natureza, do olhar científico e da técnica, triunfo do olhar científico sobre o mundo, ao ponto de a filosofia contemporânea julgar-se subordinada à autorização das ciências, inversão completa da relação grega em que a filosofia, pela reciprocidade de ousia e aletheia, tornava possíveis as próprias ciências, de modo que dois e dois somam quatro por razões opostas para
Platão e para
Descartes
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Recorda ter perguntado a Heidegger qual dimensão, na filosofia grega, desempenhava o papel da abertura do campo transcendental kantiano, ao que Heidegger respondera tratar-se não do olhar lançado pelo je pense, mas da abertura da aletheia
Sobre o sentido pleno de aletheia, define-a como aberto sem retração, nada permanecendo inaparente, adelon, segundo o termo de
Aristóteles
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Observa que a adaptação do ego cartesiano ao conhecimento é operação tardia e ambígua, distinguindo a experiência interior, fortuna do século XIX e mera posteridade indigente do cogito sum cartesiano nas palavras de Heidegger, do olhar ego-cogitativo propriamente dito, cujo centro é o olhar científico, sendo a psicologia problema lateral
Confirma não se tratar de contestar a ciência ou o ego, mas de compreender a transformação de um olhar e de uma relação com o étant em detrimento de outras possibilidades, remetendo à grande descoberta heideggeriana por volta de 1935 de que as coisas não se reduzem ao que delas diz a ciência, ilustrada pelas aquarelas de Cézanne representando a montanha Sainte-Victoire, que não são teoremas sobre o equilíbrio dos sólidos
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Situa na arte, e sobretudo na poesia, o revelador desse outro ser das coisas, incluindo nela tanto as artes plásticas quanto a palavra poética, a ponto de Notre-Dame de Paris poder ser dita poema tanto quanto qualquer verso de Victor Hugo
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Recorda a antiga dissensão, diaphora palaia, entre filosofia e poesia já em
Platão, que exilava os poetas da cidade regida pela filosofia, e cita um poeta menor do século XVIII segundo o qual
Descartes teria cortado a garganta da poesia
Interrogado sobre o momento em que surge em Heidegger a abordagem da obra de arte, situa-a não em Sein und Zeit, onde a única referência artística é um breve poema latino sobre o cuidado, de interesse meramente antiquário, mas no curso de Friburgo do semestre de verão de 1935, Introdução à metafísica, onde se lê que filosofia e pensamento estão na mesma ordem apenas com a poesia
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Situa também em 1935 a conferência de Friburgo Der Ursprung des Kunstwerkes, A origem da obra de arte, marcando a chegada do poema ao centro do pensamento heideggeriano, precedida contudo pela importância já antiga de
Hölderlin e de Trakl em sua vida
Sobre a fórmula segundo a qual a palavra poética salva a aparição, esclarece tratar-se da aparição da coisa na desmedida de sua presença, na plenitude do que os gregos chamavam aletheia, remetendo à ideia de Baudelaire de que só a palavra poética restitui as coisas à deslumbrante verdade de sua harmonia nativa