Sobre o modo como Heidegger tenta esclarecer esse enigma, explica que ele interroga o próprio termo técnica, decalcado do grego como música, heliotrópio ou telefone, mas mostra que esse decalque conserva o sentido que os gregos davam a tekhne, tal como empregado por
Platão, rigorosamente sinônimo de episteme, sem qualquer superioridade manual ou técnica, equivalente exato do saber, sendo o técnico de algo estar diante da coisa tal como ela se manifesta a descoberto
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Explica a tardia aparição do termo no século XVIII pela especialização progressiva da palavra art, empregada por
Descartes, no domínio das Belas-Artes, sendo necessário um novo termo para outro domínio, surgindo então technique, primeiro no masculino em Diderot, “le technique de la peinture”, e só no feminino no século XIX, atestado já em Le Capital de
Marx, que se ocupou longamente da técnica moderna nos capítulos sobre maquinismo e grande indústria
Confirma que a acepção moderna do termo, remetida ao maquinismo, oculta sua essência verdadeira, que, em sentido grego, não designa o emprego de máquinas, mas a aparição do étant tal como ele é, sendo próprio de Heidegger interpretar a técnica como desvelamento do étant, e não como aplicação de medidas práticas destinadas a transformá-lo
Questionado se, nos Tempos modernos, o étant seria intimado a aparecer sob a figura da técnica, corrige que ele não é intimado a aparecer, mas aparece de tal modo que só pode ser intimado, exemplificado pelo rio que hoje só aparece na medida em que pode ser convocado a fornecer energia utilizável
Sobre se esse processo conduziria o homem moderno a tomar o étant por alvo, contrasta a atitude grega, para a qual o rio era antes de tudo o grande rio fertilizador e portador de vida, com a atitude moderna que o vê como meio de produzir efeito utilizável, confirmando tratar-se de um modo de aparição do étant, e não de uma maneira de utilizá-lo, renovando assim o sentido grego original de tekhne
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Situa a origem dessa sumação do étant no momento em que o saber se identifica com as ciências matemáticas da natureza, no século XVII, fazendo da visão galileana ou cartesiana da natureza algo essencialmente técnico, ainda que as máquinas só surjam no século XVIII e se desenvolvam no XIX, remetendo à fórmula cartesiana do homem como mestre e possuidor da natureza
Confirma que uma verdadeira história da técnica não pode reduzir-se a uma sucessão de progressos desde a Antiguidade, tratando-se antes de uma cesura completa a partir de
Descartes, observando que a técnica variou muito pouco ao longo dos séculos, exemplificada pela mudança medieval no modo de atrelar os cavalos, do colo grego aos ombros medievais, e pela persistência, ainda em sua infância, do arado de um só cabo, a charrua antiga
Sobre como se efetua essa sumação do étant, situa-a na transformação do saber grego em ciência matemática da natureza, ilustrada pela descrição que Auguste Comte faz, na primeira lição do Cours de philosophie positive, dos fracos meios naturais de ação sobre os corpos e da introdução de elementos modificadores capazes de fazer os resultados convergirem a nosso favor
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Ilustra com o exemplo da equação de uma reta, y = ax + b, cuja variação mínima de a ou b desloca ou inclina a reta, mostrando que a sumação só é possível no quadro de uma aparição determinada do étant
Confirma que esse tipo de ação caracteriza o mundo moderno, no qual basta girar um botão para que haja luz, remetendo à frase de
Heráclito sobre o homem que acende um facho na noite, e evocando a lembrança pessoal da cerimônia quase sagrada de acender as lâmpadas na infância, hoje substituída pelo simples girar de um botão
Sobre o que se perdeu realmente nessa mudança, aponta que hoje, ao ver claro, já não se compreende mais nada do que se passa, dispondo-se de uma teoria da eletricidade cujos elementos mais elementares se ignoram, algo totalmente estranho ao pensamento grego, que teria achado fabuloso que girar um botão produzisse algo
Interrogado sobre o que fazer para recuperar o sentido profundo desses fenômenos na era da eletricidade e do nuclear, reafirma a necessidade do retour amont, compreendendo como tais fenômenos se produziram pouco a pouco ao longo de uma longa história, a rebours, para melhor nos compreendermos
Sobre tomar um rapport mais livre com esse mundo da técnica do qual nos tornamos, completa que nos tornamos não sujeitos, mas objetos da própria técnica, sendo a esse nível que se rebaixa o pretendido mestre e possuidor da natureza saudado por
Descartes, tornado antes escravo da técnica
Interrogado se o trabalho filosófico é de fato indispensável para recuperar o sentido dessa aventura, remete à fórmula hegeliana segundo a qual a história da filosofia responde à essência mais secreta da história do mundo, concluindo que só uma leitura séria dessa história, sem dicionário nem gramática que a facilitem, e cujo único guia foi Heidegger, permite avançar por essa via difícil, que ele próprio chamava, por vezes, seu “caminho de Cézanne”