Sobre os séminaires du Thor, ocorridos em 1966, 1968 e 1969, ano do octogésimo aniversário de Heidegger, cujos protocolos figuram em Questions IV, esclarece que não foram propriamente organizados, mas surgiram por si mesmos a partir do convite de René Char, feito já em 1955, por ocasião do primeiro encontro entre ambos sob um castanheiro de Ménilmontant
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Explica o atraso da visita à Provença pela decisão prévia de Heidegger de viajar primeiro à Grécia, país que, apesar de dedicar toda a vida a esclarecer a filosofia grega por dentro, jamais visitara, temendo talvez que a experiência contradissesse o que afirmara em seus cursos, o que não se confirmou, tendo Heidegger relatado, ao retorno, que o que vira ia ainda mais longe do que afirmara
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Descreve os séminaires du Thor como reunião simples de convidados que formulavam perguntas a Heidegger, cujo conjunto de perguntas e respostas constitui os protocolos
Sobre a admiração recíproca entre René Char e Heidegger, atribui a Char o sentimento imediato, já em 1955, de uma presença fraterna em Heidegger, relatando o jantar sob o castanheiro, preparado pela senhora Heidegger, no qual, apesar da barreira linguística, Heidegger compreendia o essencial do que Char dizia em seu francês volúvel com sotaque do Vaucluse
Interrogado sobre a dificuldade que hoje se sente ao abordar Heidegger, confirma que ela é real, pois Heidegger jamais deixou de estar nos avant-postes de seu próprio pensamento, sendo extremamente difícil fazê-lo retornar ao autor de Sein und Zeit, livro que já parecia distante mesmo em 1946, embora reconhecido como essencial e primeiro passo do caminho então iniciado
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Observa que Heidegger gostava de falar de
Platão e sobretudo de
Aristóteles, mas resistia a voltar-se para um passado que, para ele, não era contudo tão distante
Sobre o custo dessa amizade e desse trabalho conjunto para sua carreira universitária, reconhece que as autoridades acadêmicas viam com maus olhos o interesse excessivo pela pensée heideggeriana, mal sendo permitido falar dela senão para dela dizer mal, situação atribuída à conjuração dos medíocres em nome da mediocridade, majoritária e por isso temporariamente triunfante
Interrogado sobre como situar com maior precisão a obra de Heidegger, distinguindo-a de uma concepção de mundo, deixada antes a
Jaspers, de uma filosofia existencial descritiva do vivido, deixada a
Husserl e aos Erlebnisse, e do existencialismo sartriano da existência que precede a essência, conclui que Heidegger é essencialmente Heidegger, citando a observação do próprio filósofo sobre o hábito de sempre se dizer “Heidegger e…”
Diante da queixa de que a filosofia heideggeriana não oferece respostas precisas e utilizáveis na vida prática, como sugere o título Chemins qui ne mènent nulle part, responde que ser útil jamais foi preocupação de Heidegger
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Esclarece que sua busca era esclarecer um texto até então indecifrável, o próprio texto da filosofia desde sua origem grega em
Heráclito e
Parmênides até sua última manifestação em
Nietzsche, tal como revelada pelos Póstumos, publicados na edição Kröner de 1913
Confirma que Heidegger buscou esclarecer o caminho da metafísica milenar rumo aos Tempos modernos precisamente pela audição do não-dito nela enterrado, não havendo outro esclarecimento possível da filosofia em sua história que essa busca do não-dito no próprio dito
Questionado se não seria a primeira vez na história da filosofia que se tenta abranger todo o trajeto do pensamento ocidental, nega, remetendo à rememoração de toda a filosofia anterior no início da Metafísica de
Aristóteles, de Tales a
Platão, de quem fora aluno por dezoito anos, e à rememoração hegeliana de toda a história da filosofia, apoiada em manuais que o próprio
Hegel qualificava de méli-mélo inverossímil
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Contrasta essas rememorações com a definição heideggeriana da filosofia de
Aristóteles, formulada na Conferência de Cerisy, como livre sequência da aurora do pensamento à qual constitui uma espécie de conclusão, sem necessidade dialética entre as filosofias tomadas isoladamente
Sobre o que aparece, no não-dito de toda a metafísica interrogado por Heidegger, que nenhuma filosofia anterior vira ou dissera, remete aos próprios títulos heideggerianos, Qu'est-ce que la métaphysique? e, em Cerisy, Qu'est-ce donc que la philosophie?, mostrando que os filósofos anteriores só tratavam da questão sob condição de não se perguntarem do que exatamente se tratava
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Cita a definição cartesiana da filosofia como árvore cujas raízes são a metafísica, o tronco a física e os ramos as demais ciências, reduzidas a medicina, mecânica e moral, definição que considera pouco esclarecedora
Esclarece que Heidegger não se interroga sobre as raízes dessa árvore, já definidas por
Descartes como a metafísica, mas sobre o terreno em que tais raízes mergulham, sendo o prefácio de Qu'est-ce que la métaphysique? a explicitação do não-dito da definição cartesiana da filosofia formulada no prefácio dos Principes
Interrogado sobre o sentido particular do surgimento de um pensamento como esse em nosso tempo, responde que nenhum, pois Heidegger sempre considerou possível em qualquer época o que trazia, tendo feito a concessão de dizer que um livro como Sein und Zeit já seria largamente possível na época de
Hölderlin, concessão que considera insuficiente, citando a passagem do primeiro tomo do
Nietzsche de Heidegger, de 1961, sobre a impossibilidade de dizer se o segredo da grandeza do pensamento grego do ser reside em sua limpidez imediata ou na ausência de necessidade de aprofundar tal verdade voltando o questionamento sobre si mesma
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Cita a definição de
aletheia como das Verborgenste im griechischen Dasein, o mais retraído em toda a existência grega, não-dito da própria existência grega, sempre nomeada mas jamais pensada, remetendo a locução “história secreta” a
Nietzsche, cuja passagem de 1885 sobre os filósofos do além, intérpretes e áugures diante de um texto misterioso ainda não decifrado, se aplicaria ao próprio Heidegger
Sobre o sentido dos versos de
Hölderlin citados por Heidegger, “onde cresce o perigo, cresce também o que salva”, situa-os na diferença entre ser e étant, de modo que onde cresce o perigo, a ameaça do ser pelo étant evocada na conferência de Roma de 1936 sobre
Hölderlin, é também aí, e só aí, que se dá a possibilidade de questionar o sentido do ser, como em Sein und Zeit
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Nega tanto o pessimismo quanto o otimismo, considerados por Heidegger uma saída barata, billig, preferindo o termo trágico, citando o último texto dos Holzwege, “nem otimista nem pessimista, mas trágico”, e associando a tragédia, na leitura heideggeriana de
Hölderlin, não a uma coleção de horrores, mas à relação com a serenidade enquanto esta ainda nos deixa na prova
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Situa a tragédia grega como forma tardia, ática, da arte grega, observando que a filosofia começara a leste de Atenas, em Éfeso com
Heráclito, e a oeste, na Itália meridional, com
Parmênides, reunindo-se tardiamente em Atenas, onde nasceu também a tragédia
Confirma que nossa época continua a viver na dimensão do trágico, dimensão em que a filosofia já ingressara com
Platão e
Aristóteles, ao contrário de
Parmênides,
Heráclito e
Homero, observando ser significativo para Heidegger que os grandes trágicos, Ésquilo e
Sófocles, sejam da mesma região que os primeiros metafísicos
Sobre o sentido do termo prova, épreuve, remete à categoria kierkegaardiana da prova cristã, ligada à história de Jó e à noção de repetição, mas esclarece que, para Heidegger, a filosofia foi para a humanidade prova ainda mais radical que a categoria judaico-cristã, por tê-la conduzido ao extremo de sua própria história que é o mundo da técnica, sendo a prova, em Heidegger, essencialmente a aletheia
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Cita como última palavra filosófica de Heidegger o texto de abril de 1976 dirigido a seu antigo aluno Walter
Biemel, destinado a ser lido aos americanos como espécie de saudação, cuja conclusão define como tarefa pensar a aletheia, legado ainda impensado desde o início da história do ser, e assim preparar a possibilidade de uma morada transformada do homem no mundo