Além do projeto, o ser-no-mundo é caracterizado por uma certa impotência para ser apenas possibilidade, um estado de ímpeto engodado, que é atestado pelo sentimento de se encontrar ali sem ter contribuído para isso, sendo denominado “
Geworfenheit” (ser jogado), o que constitui a facticidade da natureza humana, que, no entanto, não prejudica a existencialidade.
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O homem não nasce imediatamente na consciência autêntica de sua condição, mas começa por se perder no dédalo de seu próprio destino, sendo inicialmente determinado como queda (
Verfallen) na inautenticidade, perdido em suas tarefas e regido pela ditadura do “On” (o impessoal).
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O ser-no-mundo pode ser definido como um projeto do qual se apossam um já e uma queda (ein verfallend geworfener
Entwurf), mas esses três caracteres não se encontram no mesmo plano, pois a queda não é incurável e a inautenticidade compreende em seu fundo uma autenticidade possível.
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O instrumento do salvação não é primeiro a inteligência, mas o sentimento da angústia, que surge quando os pontos de apoio nos faltam subitamente, revelando a precariedade da condição originária e arrancando o homem da banalidade da vida cotidiana.
Na “noite clara” da angústia, a vida, alienada na ditadura do impessoal e desviada de seu sentido fundamental, recobra sua autenticidade perdida, e o homem deve se tornar capaz de encarar resolutamente a verdade de sua condição para ser autenticamente um homem.
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A angústia não revela quais tarefas devem ser cumpridas, não fundando nenhuma ética no sentido kantiano, mas sua função é, sem mais, reconduzir energicamente o homem ao encontro de si mesmo, cabendo a ele depois definir uma motivação para se orientar no dédalo do praticamente possível.
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Mesmo a virtude mais escrupulosa não é autêntica se não passou pela prova da angústia, e a consciência resoluta é uma consciência indeterminada, pois à consciência resoluta pertence necessariamente a indeterminação.
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O existencialismo heideggeriano não funda nenhum imperativo, pois a revelação fundamental que faz do homem um homem esclarece menos a escolha de uma conduta definida do que o caráter singular da condição humana.
A morte não é um acidente que sobrevém do exterior, mas amadurece sempre no homem, penetrando-o de um sentido fundamental e constituindo um a priori da condição, conferindo sua portée definitiva à
facticidade: o Dasein é não apenas estar-lá-assim, mas estar-lá-assim-para-nada.
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Ser resoluto é se manter bem face à situação até a morte, vivendo a cada instante o nada de sua própria morte, e essa meditação, e não por falta de caráter, pode ter levado Heidegger a aderir ao nacional-socialismo, talvez por ter acreditado encontrar no fascismo uma filosofia autêntica da resolução face à morte.
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Essa “ingenuidade” não é vista como um traço de intelectual distraído, mas como um traço de inconsciência fundamentalmente pequeno-burguesa, embora o existencialismo heideggeriano possa ser também capaz de marxismo, desde que este se desfaça de uma metafísica sumária.
A existencialidade, a facticidade e a queda, reversível pela ascese da angústia, são os elementos fundamentais da condição humana como ser-no-mundo, e Heidegger encontra sua unidade na noção de “cuidado” (
Sorge), que não é uma qualidade empírica, mas a expressão de uma necessidade a priori da condição humana.
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O cuidado, que recria em si mesmo a cada instante a unidade fundamental da existencialidade, da facticidade e da queda, é encontrado não ao acaso, mas no eixo da analítica existencial, e a filosofia confirma as intuições da poesia, como na fábula latina onde o Cuidado é o senhor do composto, decisão de Saturno, o Tempo.
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O homem, como ser-no-mundo, é fundamentalmente cuidado, seja se deixando levar pela inautenticidade, seja se salvando pela angústia lúcida diante da facticidade e da morte, e a condição a priori que torna o cuidado possível é o tempo, ou melhor, a temporalidade.
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O cuidado reúne os três caracteres da existencialidade, da facticidade e da queda, que correspondem aos três momentos fundamentais do tempo: o futuro, o passado e o presente, sendo a condição para o projeto do poder-ser o ser fundamentalmente por vir; a facticidade, a condição de já estar lá; e a queda, a presença a si mesmo no mundo.
O tempo não é um meio exterior no qual o homem se insere, mas o próprio homem levado à plena elucidação de seu ser mais íntimo, e a originalidade de Heidegger está em pensar os momentos do tempo como “extases” que se desprendem ativamente uns dos outros em sentidos divergentes, no seio de uma unidade indivisível.
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O tempo, como dimensão da liberdade, presuposição da facticidade decaída e condição da presença do mundo, se temporiza essencialmente a partir do futuro, pois é somente na medida em que o homem se porta à extrema ponta de seu ser pelo projeto que o tempo ganha vida.
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A ideia de que o futuro é privilegiado, e não o presente como em
Sartre, permite compreender a significação necessariamente histórica da temporalidade humana, pois o passado só ganha sentido para um Dasein que está fazendo seu futuro.
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A história é definida como uma revelação do passado, mas essa revelação só tem sentido para um Dasein em processo de fazer seu futuro, e a retomada do passado, como herança, só se torna uma repetição autêntica quando solidária com o futuro, sendo uma réplica e uma revogação do que tende a se esclerosar.
O ser-no-mundo do existente consiste essencialmente na temporalidade, que é a própria finitude do homem, ou seja, ao mesmo tempo sua existência como poder-ser e sua impotência para ser apenas poder-ser.
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O futuro constitui a parte divina de nossa natureza, enquanto o passado é a parte propriamente culpável, afetada de impotência, e o presente agrava essa culpabilidade fundamental por um elemento de queda, que não é, no entanto, irremediável, pois a angústia sempre pode nos dispensar o salvação.
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O homem é sua própria finitude, e a ideia de Deus, tal como apresentada pelo dogmatismo religioso, é vista como o instrumento de uma fuga diante da angústia, uma vez que a finitude, para Heidegger, não é imposta de fora, mas é radicalmente constitutiva de seu ser.
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A religião, ao explicar a finitude como dependência de um ser infinito, é um estratagema para fazer abortar a angústia em medo, desviando-a para um objeto definido, como os deuses, que são uma primeira máquina para exorcizar a angústia, seguida por uma dialética tranquilizadora que os torna favoráveis ou inofensivos.
A “compreensão” do ser pelo tempo, cujo outro nome é finitude, é o aporte fundamental da filosofia heideggeriana, que se esforça por reencontrar, no plano da fenomenologia e no eixo de uma analítica rigorosa, conceitos fundamentais como os de queda, falta e salvação.
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O pensamento de Heidegger é o esforço mais autêntico do pensamento contemporâneo pela “violência” com que se emprega a arrancar a consciência do homem dos domínios sem problemas da banalidade cotidiana e a recriar nela a fonte tarjada do espanto platônico.
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Heidegger tem consciência de se engajar em uma aventura de pensamento e expressão para a qual não existe ainda vocabulário ou gramática, e sua filosofia, marcada por uma audácia radical, parece ser o platonismo de nosso tempo.