A resposta de Heidegger sobre em favor de que o ser é essencialmente esquecido na história da metafísica é rigorosamente unívoca: em favor do ente, ainda que com nuances
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o tender ao ente de
Platão e
Aristóteles é ambíguo, dizendo a um só tempo o cuidado com o ser e a preocupação com o soberanamente ente
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o Poema de
Parmênides já denuncia antecipadamente o que só terá lugar expressamente com
Aristóteles e
Platão, levando o ente ao ser até a palavra pois é ser, e denunciando como opinião a confusão entre ser e ente
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a nomeação do ser por
Parmênides já constitui o esboço do que Ser e Tempo caracterizava como desmundanização, empobrecimento ou retração do mundo, na medida em que as coisas já são determinadas como aquilo que parece sob o ditado da verdade, sem que um segredo mais alto da própria verdade seja ainda pressentido
Os que se atêm à opinião não pensam a coapartenência dos aspectos contrastantes daquilo que parece na unidade do ser, e os que pensam essa coapartenência, tendo deixado o caminho dos mortais, ainda a pensam na luz preexistente e fixa da verdade
Somente em Da essência da verdade, divulgado em 1930 e publicado em 1949, Heidegger medita pela primeira vez, em retorno aos gregos e para além da experiência grega, a essência velada da verdade tal como os gregos a nomearam, nomeando ao mesmo tempo o esquecimento de onde ela emerge
Nesse texto, o pensamento atinge sua mais alta concentração na primeira frase da parte VI, intitulada A não-verdade como retraimento
A tradução corrente dessa frase em Questões I, substituindo o alemão ainda não por nem mesmo, é infiel, pois Heidegger disse ainda não e não nem mesmo
A retradução propõe que o retraimento recusa à verdade a eclosão, mas sem ainda lhe deixar o campo livre, sendo ele próprio quem deixa pertencer à verdade o que lhe é mais propriamente seu
No caminho aberto por
Parmênides, a verdade relaciona-se privativamente com o retraimento do esquecimento em
Platão e
Aristóteles, mas o ainda não remete a um pensamento anterior, o de
Heráclito
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Heráclito, no fragmento 123, diz que nada é mais caro à eclosão do que o retraimento, de modo que a natureza não se relaciona privativamente com o ocultar-se, mas segundo o verbo amar, num sentido possessivo
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que esse possessivo tenha podido tornar-se privativo, a ponto de o prefixo inicial da palavra verdade não ser mais ouvido de outro modo, constitui uma história secreta ainda inacessível, talvez a própria história da filosofia
Em Ser e Tempo esse retraimento, também caracterizado como retração de um mundo, desmundanização, é nomeado decadência, declínio que começa já com o pensamento grego na fixação da verdade como aberto sem retraimento
O ser aparece sem nenhum retraimento a
Parmênides, o que prepara a desgraça reservada por
Platão aos poetas, jamais escapados do mundo, abrindo a discórdia entre poesia e filosofia atribuída por
Platão aos próprios poetas
Com Heidegger tudo se inverte: a poesia não é jogo, mas abertura inicial de um mundo que a filosofia deserta, sendo substituída ao fim de uma longa história pelas ciências que dela saem
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há mais seriedade no Apolo do frontão de Olímpia ou na paisagem dos telhados vermelhos de Cézanne do que no idealismo, no materialismo, no estruturalismo e na análise da linguagem
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o esquecimento que projeta sombra cada vez maior sobre o mundo não é desolação pura, mas a noite sagrada saudada por
Hölderlin, de modo que quem pensa o esquecimento está mais próximo dos poetas do que quem os relega à estética
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cita-se a proximidade, apesar de tudo ignorada, entre o pensador que diz o ser e o poeta que nomeia o sagrado, morando em montes cujos cumes os separam
Dizer o ser não equivale, como para o metafísico, a mostrá-lo, pois o dizer só fala a partir de um não-dito que o leva à plenitude, e Heidegger descobre, maravilhado, que onde quer que o ser tenha sido levado à linguagem reina, desde a origem, o retraimento
As duas questões, a do ser e a do retraimento, não formam senão uma só, cabendo ao pensamento memorioso do ser pensá-lo de modo que o esquecimento lhe pertença essencialmente, dizer o ser sendo salvar do esquecimento esse mesmo esquecimento do ser, no sentido do genitivo subjetivo
O domínio da palavra, que é o da presença, comporta a possibilidade de dois cumes, dos quais apenas um é Esquecimento, respondendo o outro, segundo o mito grego, ao nome de Mnemósine, mãe das Musas
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é preciso primeiro aprender a honrar o positivo na essência privativa da verdade, experimentando-o como traço fundamental do próprio ser, devendo abrir-se a crise em que não seja mais apenas o ente, mas o próprio ser, a tornar-se digno de questão, enquanto essa crise permanecer pendente a essência inicial da verdade repousa ainda inaparente no abrigo de sua origem