3 Linguagem

BEAINI, Thais Curi. Máscaras do Tempo. Petrópolis: Vozes, 1995.

A Linguagem enquanto Poesia originária

1. Sendo que a reflexão heideggeriana empreende um retorno às origens do pensar, convém reenfoque a problemática da Linguagem em sua eclosão enquanto Metáfora, isto é, Poema, tendo como horizonte inicial o mito-poético, mais precisamente Homero.

2. A língua grega é conceptualmente inseparável da música, e se a duração das sílabas longas e breves constitui um dos seus traços essenciais e originais, é manifesto que não pode ser traduzida em música, pelo fato mesmo que já é, de origem, música, constituindo verso, ritmo e música uma unidade intacta.

3. Não se deve esquecer que o caráter plurifacetado da linguagem grega exige, além disso, o domínio dos movimentos corporais, a dança, fato este que surpreende tanto mais quanto até aqui geralmente não o tomávamos suficientemente a sério, pois para nós, homens modernos, todos os elementos da linguagem e da expressão se distribuem por diversas e separadas “artes”.

A. A Linguagem grega: Poesia, Ritmo e Música

1. A Linguagem poética ocupa um lugar central na Festa, nos ritos nos quais o poeta, tendo um acesso profundo ao Sagrado e deuses, não apenas repete o passado, mas anuncia os augúrios misteriosos reservados ao futuro: é vidente.

2. Nela, o Sagrado, enviando aos homens a clarificação de sua origem, concede também o equilíbrio do destino cósmico enquanto momentaneidade e continuidade, e na Festa é a Poesia que advém, contendo em si a medida do que se retém e manifesta em meio à transitoriedade: fiel, o poeta é o mensageiro da proximidade dos deuses que protegem, regendo Céu, Terra e mortais.

3. Na linguagem grega primitiva, assinalada pelo mundo mítico, o deus primordial chama à existência um ente ao nomeá-lo.

4. Somente enquanto capta o ritmo próprio de algo, o homem pode simbolizá-lo: consagrar o invisível com a plenitude corporal que, incorporando um conteúdo, eclode conjuntamente com ele, na circularidade sagrada de seu deslocar-se.

5. Os termos que o grego empregava para caracterizar a rítmica confirmam que eles a sentiam corporalmente: pé (pé métrico), “thesis”, “arsis”, sendo o primeiro uma determinada associação de longas e breves facilmente reconhecível por uma repetição regular, enquanto thesis significa o abaixamento dos pés e arsis a sua elevação.

6. No mundo primitivo, o poeta recebe dos deuses a dádiva inspiradora do conteúdo por ele proferido, essencializado pela vidência e profecia, as expressa por intermédio do canto e dos instrumentos musicais, em sua indissolubilidade genética.

7. Por outro lado, se o compararmos em sua premonição ao xamã, veremos que este último saía do reino dos vivos, para penetrar na dimensão sombria dos que se foram, ou no clarão excelso dos imortais.

B. Homero e Hesíodo: as Musas

1. Para Homero e Hesíodo são as Musas que, geralmente durante um sonho, concedem ao homem comum, muitas vezes pastor, uma voz melodiosa e harmônica: ele se sente diferente do que era, abre a boca e canta, durante longuíssimo tempo, sem sentir necessidade de buscar as palavras certas, já que estas eclodem de seu íntimo: é um criador.

2. A linguagem atinge pelas suas raízes a camada do pré-espiritual, do instintivo, que ela determina e ordena, e os gregos exprimiram a unidade de todos os seus momentos na palavra “mousiké”, termo este que possui um significado muito mais vasto do que o nosso vocábulo “música”.

3. A palavra poético-musicada, enquanto meio de cantar os acontecimentos presentes, referindo-se ao seu princípio mítico, tem como conteúdo a inesgotável compreensão do real: do Ser, enquanto ritmo harmônico-orientador dos homens.

4. Homero é poeta, mensageiro divino que ensina o povo, contribuindo para sua formação que primitivamente unia à Linguagem e Arte, os modos de comportamento, centrando-se no papel fundamental da Memória, e no cosmos homérico a Poesia, enquanto Mito, des-cerra a harmonia entre mobilidade e estabilidade, devir e permanência.

5. Antes desta colocação, convém falar acerca de Calcas: a ele compete responder à pergunta de Aquiles acerca do motivo que levara Apolo a enviar a peste mortal sobre a cidade, e o adivinho, inspirado pelo deus, dá o seu vaticínio, apontando como causa a ofensa por parte de Agamenon, rei de Argos e Micenas (Ilíada I, 68-120).

6. De novo levantou-se Calcas, o Testórida, o mais sábio dos áugures, que conhecia o que é, o que será e o que foi antes, que conduzia até ante Tróia os navios dos aqueus, com o espírito profético com que o honrara Febo Apolo.

7. Vinculado a Apolo, o deus luminoso que purifica, regendo a harmonia do real pela Música, mas inspirado pelas Musas, Calcas é o adivinho que se identifica ao xamã pela profecia, ao poeta e sábio enquanto capta o movimento inerente ao Ser que é, será e foi (presente, futuro e passado).

8. O vidente é aquele que já tem visto a totalidade das coisas que se apresenta na presença, ele está a par, e no ter visto a relação com aquilo que se apresenta já retrocedeu para trás de toda a espécie de percepção sensível e não-sensível.

9. Com esta colocação de Heidegger atesta-se claramente o âmbito superador da Metafísica que coloca o Homem como centro do real, a subjetividade como seu pressuposto fundamental para a elaboração teórica de conceitos, teorias lógicas.

10. Está-se, assim, diante do tema central sobre o qual versará este item: a superação da subjetividade.

11. Homero e a literatura antiga empregam indiferentemente mito e logos para designar o “verbo”, e o grego arcaico dispõe de uma série de designações para o “verbo”, cada uma das quais o designa num sentido peculiar.

12. É justamente este dado essencial que ocupa o centro da reflexão heideggeriana acerca do vínculo entre Ser e Linguagem, perdido com o advento da Metafísica e da Técnica.

13. Primeiramente não temos, segundo Heidegger, outro recurso para passar ao Ser senão a linguagem, e o esforço heideggeriano consiste desde então em passar da linguagem em que as palavras nos são dadas para o plano da realidade em que as coisas são em seu Ser, assim, passa-se do verbo “ser” ao Ser que é.

14. Para os gregos, como mostrou Heráclito, Logos traduzia o Ser e a Linguagem, enquanto pronúncia do conteúdo por ele des-velado, e pensar o Ser é a atitude daqueles que se dispõem a ouvir sua mensagem, a pronunciá-la, preservando o clareamento enquanto Verdade.

C. Do Logos à Lógica

1. Após a eclosão do pensar grego, o Ser foi subjugado pela racionalidade, num horizonte no qual o Homem vem-a-ser o sujeito, medida do real.

2. O traço fundamental do pensar foi, até aqui, a representação, e segundo a antiga doutrina do pensar, esta representação termina no Logos, termo que significa então enunciação, julgamento, e a doutrina do pensar, do Logos, se chama, pois, “Lógica”.

3. O pensar surge como representação, enquanto ele caracteriza o julgamento, como sendo a representação do objeto, e para o pensar que se representa, tudo se torna um ente.

4. A Metafísica age como se o desvelamento não tivesse necessidade do velamento, mas o que na aparência é pura claridade é penetrado e regido pela obscuridade.

5. A Linguagem, emergente do encontro significativo entre Ser e Dasein (abertura), fragmenta-se em sua essência e conteúdo quanto mais é definida e aceita como um acessório humano, no inquestionável trajeto de um Tempo deturpado.

6. A linguagem e sua interpretação se fossilizam nessas formas rígidas, como numa rede de aço.

7. Acerca da circunscrição do que é a Linguagem e do conteúdo por ela proposto, Heidegger os expressa nos seguintes termos: “A palavra é língua, coisa de boca”, “sons articulados, um gênero da atividade humana”.

8. O verbo Ser, transitando de sua exposição na palavra pronunciadora do silêncio que a gerou ao vocábulo, passa a retratar, na onto-Teologia, a Cristo: Filho existente desde o princípio com Javé, membro da Trindade, personificação da Verdade.

9. A quantidade diversa de cada um dos sons estava sujeita a uma lei rígida que tornava impossíveis as oscilações subjetivas na sua aplicação retórica ou musical: era uma lei objetiva e imanente à linguagem que lhe imprimia particular rigidez.

10. Enquanto prioritariamente oriunda do Ser, a Linguagem que o preserva articula-se enquanto modalidade privilegiada da compreensão autêntica da unidade, da des-coberta e do ser-no-Mundo.

11. A linguagem grega é uma linguagem de máscara: não se assemelha à expressão viva de um rosto, e faz-nos o efeito da máscara na tragédia.

12. A Linguagem, restituída à sua proveniência nomeadora, chama os entes à existência, ao elo mágico no qual o Sagrado, os deuses, Terra e Céu, Dia e Noite, são re-conduzidos, na palavra, à Quaternidade.

13. Quando um dia o Cuidado atravessou o rio, viu ele terra em forma de barro: meditando, tomou uma parte dela e começou a dar-lhe forma. Enquanto medita sobre o que havia criado, aproxima-se Júpiter. A ele o Cuidado solicita que dê espírito a esta figura esculpida de barro. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar nome à sua figura, Júpiter o proibiu e exigiu que fosse dado o seu nome. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam sobre os nomes, levantou-se também a Terra e desejou que à figura fosse dado o seu nome, já que ela tinha oferecido uma parte de seu corpo. Os conflitantes tomaram Saturno para juiz. Saturno pronunciou-lhes a seguinte sentença, aparentemente justa: Tu, Júpiter, porque deste o espírito, receberás na sua morte o espírito; tu, Terra, porque lhe presenteaste o corpo, receberás o corpo. Mas porque o Cuidado primeiro formou esta criatura, irá o Cuidado possuí-la enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, irá chamar-se homo, já que é feita de hummus (terra).

14. No Homo-Hummus descerra-se a Quaternidade: o Céu anuncia o clarão do presentificar, remetendo ao raio fulgurante do Zeus que nomeia, organizando o Cosmos.

D. As metáforas contidas no pensar heideggeriano

1. Tendo como fio condutor a Alegoria ou Metáfora do Cuidado, visa-se à circunscrição das fases nas quais se erige o pensar heideggeriano.

2. Em Ser e Tempo, partindo do ente-Homem, assinalado pela compreensão e lidar com os entes circundantes, tem acesso ao Ser na práxis cotidiana, que des-cerra também o que é propriamente humano: o agir que contempla para poder fazer.

3. O martelo, as tenazes, os pregos remetem em si mesmos ao aço, ferro, mineral, bosque. Por seu emprego, o utensílio utilizado faz descobrir, ao mesmo tempo, a ele mesmo, e a “Natureza”, a “natureza” revelada à luz dos produtos naturais. A natureza não deve ser compreendida aqui como um ente simplesmente subsistente, nem como uma força natural. A floresta é uma reserva de árvores, a montanha é uma pedreira, o rio uma força hidráulica, o vento uma “cortina inchada”. Ao mesmo tempo que se descobre o “mundo ambiente”, se oferece uma “natureza” por ele descoberta.

4. O Mundo é retratado como des-velamento do Ser e é no fazer, enquanto descoberta do ente, que o Dasein faz-se a si próprio.

5. Em Que é Metafísica?, tanto a totalidade ôntica quanto humana se resvalam no Nada que, designando o não-ente, refere-se ao Ser, prenunciando a transcendência rumo ao ontológico.

6. A segunda fase é caracterizada pelas obras posteriores a 1930, estendendo-se até 1950, dentre as quais podemos citar: Sobre a essência da verdade (1930, publicada em 1943), Introdução à metafísica (1935, publicada em 1953), os textos sobre Hoelderlin (de 1936, 1941 e 1943 publicados em uma edição mais ampla em 1947 com o título Hoelderlin e a essência da poesia), Sobre o humanismo (1946), A doutrina de Platão sobre a verdade (1947), O caminho do campo (1949) Holzwege, obra de transição (1950), contendo os textos: A origem da obra de arte (1935-1936), A época da imagem do mundo (1938), Hegel e seu conceito de experiência, A palavra de Nietzsche “Deus está morto” (1936-1940), Por que poetas? (1946), A sentença de Anaximandro (1946).

7. Em Holzwege, obra do que assinala o período intermediário, Heidegger mescla o original, descrito por intermédio dos períodos da história do Ser, da tentativa de ultrapassar a Metafísica (perpassada pela diferença ontológica) à obra de arte, que des-vela o Ser, por intermédio do ente-obra, ao originário.

8. Em Sobre o Humanismo, Heidegger, acenando ao seu percurso, resgata e esclarece pontos fundamentais de Ser e Tempo, acenando a rumos no mesmo caminhar, ou melhor, no caminhar rumo ao Mesmo: “O pensamento futuro não é mais Filosofia, porque pensa mais originariamente que a 'Metafísica', nome que diz o mesmo”. “O pensar está na descida para a pobreza de sua essência precursora. O pensar recolhe a linguagem para junto do simples dizer. A linguagem, é assim, a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu”.

9. Em Introdução à metafísica, recorrendo à Antígona de Sófocles, retrata o embate entre Ser (Dike) e a violência humana (Tekhne), num contexto no qual o vigor do Ser é o preponderante.

10. As obras posteriores, situadas no período de 1950 a 1972, retratam a terceira fase de um pensar no qual não se visa mais ao original, aos entes que des-velam o Ser, mas ao Ser enquanto Ser.

11. A Viravolta (Kehre) consiste em transformar as palavras, modificando a Linguagem na Linguagem, a partir da fulguração do Ser, erigindo-se em ultrapassar a Metafísica e os entes, na busca da origem originária na qual o sombreado essencial, naquilo que o constitui intimamente, bem como no esquecimento que cobre de trevas seu brilho, repousam no abandono da ausência.

12. Clareira (Lichtung), a “piedade” do pensar enquanto “agradecer”, o memorial, a Linguagem da essência e seu mistério que reina como o intraduzível Holzwege, visto por quem se coloca no “caminho do campo”, “a caminho da linguagem”, buscando o Ser do Ser em seu brilho recolhido, na escuridão-iluminadora ou no claro-escuro (do inaparente).

13. Mas, aos leitores heideggerianos talvez possa soar estranha a afirmação da presença da Metáfora em seu pensar e linguagem, posto que ele escreve: “o metafórico só existe no interior da Metafísica”.

14. O pensar circular de Heidegger, voltado ao Ser enquanto Physis e A-létheia, o originário a ser retomado, apega-se ao dizer primordial, erigido em uma Linguagem nomeadora, musical, dando relevância ao poeta, acena à “gratuidade”.

15. Eis aí a descoberta decisiva que mostra que anteriormente à luta binária entre velamento e desvelamento, a vinda à presença efetua uma luta por nada.

16. O jogo infundamentado do Mundo supera os princípios enquanto, em seu desdobrar-se como o acolhimento que eclode enquanto Physics, anuncia-se a si mesmo.

17. Desde então cada qual compreende o papel da análise etimológica tendendo a restaurar um sentido “arcaico”, o pensar fazendo-se por assim dizer “arqueológico” de parte em parte, a menos que não se prefira qualificá-lo de “mitológico” porque ele manifesta sua preocupação constante no tocante à palavra mais antiga.

18. Como dito desde o início, o zelo mítico com a palavra ou som próprio de cada ente reside em, nomeando-o como nas origens, chamá-lo à pre-sentificação, do mesmo modo que o Cosmos ou o Ser, explosões luminosas que, iluminando o silêncio, fazem ressoar o que desabrocha.

19. Na língua grega não se fala da ação de ver, de videre, mas daquilo que luze e brilha. Só pode, porém, brilhar, se a abertura já é garantida. O raio de luz não produz primeiramente a clareira, a abertura, apenas percorre-a. Somente tal abertura garante um dar e um receber, garante primeiramente a dimensão aberta para a evidência, onde podem demorar-se e devem mover-se. Todo o pensamento de Filosofia, que, expressamente ou não, segue o chamado “às coisas mesmas”, já está, em sua marcha, com seu método, entregue à livre dimensão da clareira.

20. Mas não há luz alguma, nem claridade sem a clareira. Mesmo a sombra dela necessita. Como poderíamos, de outra maneira, penetrar na noite e por ela vagar?

21. Des-velado, o ente torna-se visível, para entrar no reino ausente da invisibilidade, quando de sua retração.

22. Linguagem seria: recolhido deixar-estendido-diante daquilo que se presenta em sua presença. De fato: os gregos habitavam a essência da linguagem. Mas eles nunca pensaram esta essência da linguagem; nem mesmo Heráclito. Os gregos teriam pensado a essência da linguagem a partir da essência do ser, até mesmo como o próprio ser. Pois ho Logos é o nome para o ser do ente.

E. O nomear poético e a frase musical

1. Heidegger, mostrando o vínculo fundamental entre Ser e palavra no âmbito pré-socrático, assinala, concomitantemente, a tarefa de seu pensamento originário, em um Tempo indigente, ápice da Viravolta, buscando prenunciar sua luminosidade na pronúncia do que é subjacente.

2. Nosso pensar de hoje tem como tarefa receber o que foi pensado de modo grego, e pensá-lo de uma maneira ainda mais grega.

3. Aquele que profere uma palavra arraigando-se ao Ser enquanto Ser, ou a partir do Ser, é o poeta essencial.

4. Só a palavra confere ser à coisa. O poeta experimenta o ofício de poeta no sentido de uma vocação com a palavra, entendida como a origem do ser. Elas são as palavras pelas quais o que já é e passa por ente, torna-se compreensível e denso, a tal ponto que, daqui em diante, resplandece e floresce, e assim reina por todo o país como beleza. As palavras são palavras que exibem. O poeta, ele mesmo, é poeta a partir da exigência que o faz nomear os nomes.

5. O poeta nomeador está, como o artista, postado no seio de Techne: saber iluminador que, engendrado na passagem do obscuro ao claro, no jogo de espelhos no qual se erige a Quaternidade, é favorecido pelo raio de Zeus ou pela inspiração de Dioniso, a anunciar sua mensagem protetora do Ser.

6. A palavra não obscurece na falta de energia da impotência do dizer. O poeta não diz adeus à palavra. Ele canta canções. A canção canta o segredo da palavra de maneira admirável, isto é, em colocando, no poema, questões.

7. Delimitando o poeta como cantor que circunscreve o real, Heidegger penetra no reino originário dos primórdios, em cujo âmbito a Linguagem é Poema, juntura que ex-põe a união entre Ser e Verbo (Homero), pronunciando o Logos (Heráclito) que impera em um dizer não-subjetivo, que se desdobra como ritmo e Música.

8. Pensando-reunindo-amando, tal é o dizer: inclinar-se tranquilamente na felicidade do regozijo, venerar no júbilo, celebrar, cantar o louvor; laudare. Laudes é o nome latino para os cantos. Dizer os cantos significava cantar. O cantochão é o recolhimento onde o dizer se reúne em canto. Se desconhecemos o sentido profundo do cantochão enquanto dizer, então ele se torna simples “colocar em música” daquilo que é falado e escrito.

9. Depois o poeta deve responder a este segredo apenas pressentido, a este segredo que só lhe é possível pressentir, sonhando. E isto só pode ter bom êxito se a palavra poética ribombar sobre o tom do canto.

10. A palavra cantada é, por excelência, Poema-sinfônico, ode grega que, estruturando-se em estrofes, verso e métrica, análogas, compostas pela similitude de sílabas e ritmo, entoam seu significado, melodicamente.

11. O ritmo deste canto é tão magnífico que é claro. A ele é suficiente dar a entender por uma indicação. Ritmo, entretanto, não quer dizer rio ou fluxo, mas juntura. O ritmo é o elemento repousante que junta e dispõe o pôr-a-caminho da dança e do canto, e assim deixa-os repousar em si. O ritmo concilia o repouso.

12. A Música é a expressão do Ser próprio do Ser, posto que este se desdobra sendo, des-velando àqueles que sabem ouvir.

13. O reino da palavra fulgura como colocar a origem da coisa. A palavra começa a luzir como a reunião que conduz, enfim, à sua presença, o que vem à presença. A palavra mais antiga para o reino da palavra assim pensada, para o dizer, é: Logos, die Sage, o que, dando a ver, deixa aparecer o ente em seu ele é. Escutamos o poema. Nos tornamos, presentemente, ainda mais pensativos, em relação à possibilidade que, na escuta mal-entendemos, do mesmo modo que mais facilmente o poema ressoa, em toda simplicidade, sob o modo do canto.

14. O Ser que, em seu emergir, dispõe e ordena, no percurso próprio da passagem de ausência à presença, é ritmo dinâmico, movimento propulsor de sair do mistério indissolúvel que, unido ao Dasein, o convida a pronunciá-lo em seu silêncio, limite não-ultrapassado do originário presentificar-se da Verdade (A-létheia), no Tempo.

15. Enigma permanece uma tal palavra poética, da qual o dizer, depois de muito tempo, retornou ao silêncio (o silêncio de calar-se).

16. É justamente no silêncio cortado pelo som propulsor que o Caos inaugural, até então amorfo, desdobra-se em entes oriundos de seu explodir, gerado pela nomeação.

17. A fórmula se complica então de uma ininteligibilidade de sílabas e termos, dos quais uns são imputados às línguas estrangeiras e outros são formados de todas as peças, com os sons que têm o ar de não poder sair de uma interpretação humana: entre esta última, as interjeições breves, as vogais acabam por suprimi-las, tanto mais que elas constituem uma verdadeira notação musical. Não temos lugar para nos perguntar a que ponto o estudo geral das religiões primitivas corrobora a idéia de uma semelhante regressão, nos é suficiente notar que ao lado do caráter ininteligível, abracadabrante, das fórmulas rituais, das quais nenhuma sai por isto dos limites normais do canto, encontram igualmente lugar diversas espécies de ruídos vocais, que reúnem a música instrumental pelas formas inferiores de percussão.

18. Recorrer às metáforas, Música, Poesia e Arte, é uma empresa daqueles que, refletindo, não temem correr o risco de estar atentos ao inesperado fulgor, integrando, na totalidade humana da racionalidade, a emoção inspiradora.

19. A frase musical, acompanhada pelos instrumentos, opõe-se à frase gramatical, construída e submetida às oscilações da inteligência do sujeito falante; mas, ao contrário, a saber, uma realidade autônoma que conduz o músico, que se elabora, se desenvolve e se modifica, até que o espírito seja inteiramente submetido à sua vontade.

20. Por intermédio do dizer de Goethe, citado por Bettina von Armin no livro Correspondência de Goethe com um menino, Heidegger diferencia a frase musical da gramatical, revelando a importância da Música, que pode ser melhor assimilada à frase poética.

21. A frase musical é uma articulação sonora, organizada e composta por ritmo, pontuação, desenvolvimento de uma idéia temática que, unindo-se ao silêncio, compara-se com a frase que compõe a Linguagem.

22. A Música, que muitos comentadores de Heidegger denunciam como ausente em seu pensar, nele se des-cerra como modo de exprimir a íntima solidão individual, a profundidade do incompartilhado, descrita na frase escrita que tenta comunicar, participativamente, seu encontro inexprimível com o des-velado.

23. No tocante à Música, vemos que este processo criador é oriundo do silêncio, eclodindo como som organizado e expressivo.

24. No ritmo, enquanto o que é constante, o equilíbrio da obra dá-se, estruturalmente, em seus acentos: manifestações da circularidade do Ser, na cadência do Tempo.