1 Mundo como Quaternidade

BEAINI, Thais Curi. Máscaras do Tempo. Petrópolis: Vozes, 1995.

1. O capítulo visa demonstrar a influência do Mito, de Homero e dos pré-socráticos (Anaximandro, Heráclito e Parmênides) no pensamento de Martin Heidegger, partindo do postulado do esquecimento do Ser na tradição metafísico-ocidental que remonta a Platão e Aristóteles, empreendendo a “destruição” desses postulados para libertar o Ser, o ente, o Homem, a Verdade, a Linguagem e a Arte do horizonte teórico, teológico, linguístico, estético e técnico no qual estão inseridos, num retorno à origem do pensar aberto ao dizer dos poetas que interroga a tradição visando ao resgate da unidade primordial entre Dasein e Mundo, na qual o Ser emerge em sua anterioridade em relação ao teorizar, à subjetividade e ao processo tecnológico de domínio e manipulação dos entes, culminando na uniformidade humana que constitui perigo à essência humana e ao seu ser-no-Mundo, que já não se dá na modalidade do habitar.

2. A verdadeira circunspecção é positiva enquanto tem lugar quando, desde o início, deixa-se que qualquer coisa permaneça em seu ser, reconduzindo-a a seu ser e aí colocando-a em segurança, rodeando-a de uma proteção para falar de maneira que se ajuste à palavra Freien.

3. O Mundo, enquanto habitação, é caracterizado por um elemento fundamental que constitui todos os entes que, como o Dasein, se inserem no ciclo do des-velamento-velador, isto é, de proximidade e distância, e este jogo constitutivo do Ser essencializa o Dasein como ente constitutivamente aberto, isto é, “ek-sistente” que, indo ao encontro do que é significativo, também se fecha àquilo que o cerca, polarizando sua atenção em si mesmo ou em um dos aspectos do real que a ele se apresenta.

4. O ser-no-Mundo, enquanto âmbito da manifestabilidade, ressalta esta abertura do Mundo enquanto contexto de significação, no seio da qual o Dasein, penetrando no embate constante entre trevas e luminosidade, tem acesso ao símbolo, ordenando os entes com os quais se relaciona, designando também o Mundo a atitude de descoberta pessoal, a postura de responsabilidade diante de sua existência assinalada pela Morte e pela convivência com os outros, assumindo, no co-existir, a possibilidade de ser autêntico e de decair em meio à inautenticidade, para dela resgatar-se, ciclicamente, em sua historicidade e pertença espaço-temporal.

A. Ser-no-Mundo: habitar

5. Habitando o Mundo, o Dasein encontra os entes que a ele se oferecem no des-velamento, aguardando como resposta sua acolhida receptiva à gratuidade de um clarão, e penetrando no foco luminoso do Ser, compreendendo-o em sua transparência, o Dasein o exprime em imagens ou palavras nomeadoras, chamando o que a ele se outorga, a realidade, instaurando o fugaz na permanência, refazendo o processo criador do Cosmos, exercendo assim sua plenitude que consiste em expor-se e descobrir a dádiva do que a ele se endereça, sem retrair-se diante do vigor da exposição iminente à qual atende, sem precipitações.

6. O Mundo eleva-se, assim, como a “Pátria” ou “Terra Natal” (Heimat), o lugar ao qual pertence, quer por seu nascimento e Morte, quer no que é concernente ao âmbito mesmo do Ser, por intermédio do qual tudo o que é principia a aparecer, surgindo após Ser e Tempo, na segunda fase do pensar heideggeriano, em sua originariedade essencial, como Quaternidade.

7. O ser da Quaternidade é o jogo do Mundo, e o jogo de espelho do Mundo é a ronda do fazer-aparecer.

8. Na Quaternidade, um aspecto fundamental acena ao zelo, à vigília e cautela na atitude humana diante do Ser, posto que sua totalidade se compõe pelo des-velamento, mas também pelo limite obscuro, nos quais se conjuga harmoniosamente o real, e captar esta harmonia requer que o Dasein se exponha, arrisque, sendo esta a postura própria do poeta e daqueles que compartilham com o Ser a tarefa de ordenar o Mundo, produzindo, criando, outorgando existência às múltiplas fases do real.

9. Assumir a inesgotabilidade, saber que sua união com aquilo que é nunca se realiza definitivamente, já que nele se encerra o mistério, o oculto, significa estar esperto, e nisto reside a postura de contemplação admirativa do que se des-cortina, pois em seu âmago o Dasein toma como seu encargo os elementos que o constituem, a liquidez da Água que se anima e aviva no devir, vinculada à solidez da Terra, solo que lhe dá garantia, certezas.

10. Somente assim penetra no espelho, na dimensão na qual torna-se o refletor da luminosidade, retrocedendo rumo à gênese da eclosão, ao Ser enquanto Physis, e ex-posto à luminosidade do acontecimento des-velador e não intervindo no ritmo espontâneo de sua regência, o Dasein emerge na pertença desta força ativa que estabelece e conserva a ordem de tudo o que é, erige sua existência como um percurso que o encaminha do mar rumo à atmosfera, ao território que engloba as potências da Quaternidade.

11. Penetrar no enigma do que é, concedendo a aparição e, concomitantemente, recusa, retração, esta é a mais alta reserva destinada àqueles que se arriscam a colocar-se diante do enigma do Ser, visando, como no Mito e na Música, a conciliação dos opostos.

B. Céu, Terra, divinos e mortais

12. A Quaternidade designa que o Mundo é composto por quatro elementos ou unidades essencialmente vinculados entre si no seio da pertença: a Terra, o Céu, os divinos e os mortais, aos quais o Mito acena.

13. A terra é aquela que sustenta e permanece, que frutifica e nutre, rodeando com sua proteção Água e rocha, planta e animal, e se dizemos terra, com ela pensamos os outros três elementos a partir da simplicidade dos Quatro.

14. O céu é o trajeto do sol, a progressão da lua, o brilho dos astros, as estações do ano, a luz e o alvorecer, a escuridão e a claridade da noite, a suavidade e os rigores da atmosfera, a fuga das nuvens e a profundidade azulada do éter, e se dizemos céu, com ele pensamos os outros três a partir da simplicidade dos Quatro.

15. Os divinos são aqueles que nos fazem signo, os mensageiros da divindade, e pelo poder oculto destes o deus aparece em seu ser, que o subtrai a todo confronto com as coisas presentes, e se nomeamos os divinos, já com eles pensamos os outros três a partir da simplicidade dos Quatro.

16. Os mortais são os homens, chamados mortais porque podem morrer, e morrer significa ser capaz da morte enquanto morte, somente o homem morre, o animal perece, não tendo nem diante de si nem atrás de si a morte como morte, sendo a morte a Arca do Nada, a saber, daquilo que em todos os sentidos não é nunca um simples ente, mas que entretanto é, a ponto de constituir o segredo do próprio Ser.

17. A morte, enquanto Arca do Nada, abriga nela própria o Ser mesmo do Ser, e enquanto Arca do nada, a morte é o abrigo do Ser, e aos mortais não damos o nome de mortais porque a sua vida terrestre tenha fim, mas porque eles são capazes da morte enquanto morte, e é enquanto mortais que os mortais são aqueles que são, encontrando seu ser no abrigo do Ser, sendo eles a relação que se efetua ao ser enquanto Ser.

18. A Quaternidade será analisada tendo como fio condutor o enigma do próximo-distante, ou seja, o des-velamento-velador, e a diferença ontológica subtraída do contexto metafísico é colocada aqui como “jogo de espelhos” da Quaternidade, sendo o fundamental no tocante à pertença dos quatro elementos sua imbricação no que unifica, isto é, no âmbito do Ser que, em sua Verdade, é o mais próximo.

19. Unidos entre si, os quatro elementos comunicam-se, reúnem-se, preservando-se tais como são, em seu suceder-se que designa a totalidade.

20. A Terra, como foi visto no capítulo II item 4, remontando à maternidade, ao nascer, crescer e morrer, gerando novas vidas, atesta a individualidade, a especificidade, a forma, a mutação, designando aqui as coisas ou entes que nos cercam, o que se mostra ocupando um lugar no Espaço e fazendo parte de um Tempo, retratando sua finitude concernente também a tudo o que é vivo.

21. O Céu, remontando à paternidade, ao que é estável, sereno mas trovejante, que tendo em seu âmago a Lua, regente de todos os ritmos, alude ao que se clareia e escurece, à Noite de luar e estrelas ausentes ou ao Dia de plena luminosidade, constituído pelas nuvens, símbolos do som, designa o des-velamento presente no relâmpago e no trovão, manifesta o Ser em sua invisibilidade e, remetendo à totalidade, expressa o que subjaz, o permanente.

22. As coisas, em seu tempo, visitam os mortais, e nesta visita, propriamente, há Mundo.

23. A vinculação entre Céu e Terra, Mundo e coisa, fala da proximidade enquanto, em seu dar-se, contém o pertencer íntimo dos quatro, como também a inserção no âmbito humano, que não as capta como objetos de domínio ou acessórios disponíveis de sua soberania, mas pelo contrário, são as coisas enquanto tais que deferem o poder da compreensibilidade no ato do rasgo essencial de virem-à-luz, guiando os homens no trilhar do caminho que conduz ao encontro do que se desdobra em seu encanto e suavidade, atraindo-os para a Quaternidade.

24. Módica e dócil é a coisa: o cântaro e o banco, a ponte estreita e o arado, mas coisas são também, à sua maneira, a árvore, a lagoa, o regato e a montanha, a garça e o cervo, o cavalo e o touro, cada um deles reunindo à sua maneira, são coisas, e reunindo cada um à sua maneira, são coisas espelho e argola, livro e quadro, coroa e cruz.

25. No contexto deste processo solidário e indissolúvel surge o divino, e Heidegger recorre a um ente construído pelo Dasein, a ponte, para elucidar como os três elementos acedem, em sua extensão, à totalidade quaternária que se preserva incólume, pousa ela em paz, no instante sereno no qual se interrompe momentaneamente o conflito, na tranquila disposição do que é em se enviando.

26. O destaque ao ser-no-Mundo enquanto fazer nos envia diretamente à esfera mítica, aos Períodos Paleolítico, Mesolítico e Neolítico nos quais os homens chegam a si e ao Cosmos envolvente por intermédio de um operar transformador que confere símbolo ao que é por excelência simbólico, encontrando-se verdadeiramente com o real.

27. Ligeira e poderosa, a ponte arremessa-se por cima do rio, e ela não religa somente duas margens já existentes, pois é só a passagem da ponte que faz sobressair as margens como margens, é a ponte que as opõe espacialmente uma à outra, é pela ponte que a segunda margem se destaca em face da primeira, e as margens não seguem o rio como extremidades indiferentes da terra firme.

28. Com as margens, a ponte conduz ao rio uma e outra extensão de seu último país, ela une os rios, as margens e o país em uma mútua vizinhança, a ponte reúne ao redor do rio a terra como região, ela conduz assim o rio para os campos, e os pilares que se endireitam imóveis no rio sustentam o impulso dos arcos que deixam às águas sua passagem.

29. Que estas sigam seus cursos, alegre e tranquilamente, ou que as ondas do céu, quando da tormenta ou da fundição das neves, se precipitam em massas rápidas sobre os arcos, a ponte está pronta a acolher os humores do céu e seu ser mutante, e lá mesmo onde a ponte cobre o rio, ela tem sua corrente voltada em direção ao céu, nisto que ela o recebe por quaisquer instantes sob seu átrio, pois a ele resgata de novo.

30. O divino aparece aqui, como no contexto mítico e pré-socrático, como o indiviso, elo de conciliação entre Água, Terra e Céu, transmutado em suas estações, como solo arraigado ofertado à colheita humana, deixando entrever aqueles de quem são signos: os deuses.

31. O divino, colocando-nos diante de imagens cotidianas, gera a eclosão do inabitual, comunica os vínculos despercebidos no dia-a-dia, des-cerra o Ser, sendo lugar do Sagrado, e enquanto mensageiros dos deuses, daqueles que deram presença ao Cosmos emergente do Caos, sagram os mortais como mensageiros deles próprios, do Ser, do todo que abrigam, situando-se ambos os mensageiros na esfera da clareira e do enigma, daquilo que se furta, na obscuridade, do insondável.

32. Os mortais habitam enquanto aguardam os divinos como tais, e esperando, eles lhes oferecem o inesperado, esperam o signo de sua chegada e não desconhecem a marca de sua ausência, não fundam sobre si mesmos seus deuses e não praticam o culto dos ídolos, e o que oferecem aos mortais não é somente o inesperado, mas também o que poderá uma vez, bruscamente, subitamente cunhar de surpresa e tornar interdito, mas que não o faz ainda e se contém.

33. O divino é, para Rainer Maria Rilke, o angélico, elemento conciliador da unidade entre velamento e des-velamento, presente e ausente, auxiliando os homens a vislumbrar as coisas por meio das quais o Ser os visita.

34. O anjo, anunciando a mensagem do divino aos mortais, os protege, figurando como sinônimo da redenção que convoca o poeta para que, em seu canto, vivifique o risco de pronunciar o Ser, e o poeta, como será visto no item 3 deste capítulo, é aquele que, atingindo o Sagrado, o divino e os deuses ocultos no interior de sua época, os transmite àqueles que compartilham com ele sua temporalidade.

35. Heidegger, recorrendo ao poeta Friedrich Hoelderlin, designa o Anjo como o aspecto oculto dos deuses, presente nesta criatura alada que, voando rumo ao celeste, desce à Terra na luminosidade de sua aparição, transmitindo o presságio divino aos homens que não têm acesso à dimensão do que é etéreo.

36. Mas agora, por este nome “Anjos”, é dito mais puramente o ser daqueles que se nomeavam até aqui os “Deuses”, porque os deuses são aqueles que, serenando, oferecem a salvação que envia a serenidade, e a serenidade é a origem de onde procede a essência da salvação, isto é, do que é angélico, em que consiste o ser mesmo dos deuses.

37. O serenar dos deuses se refere ao dar à presença, instituindo a passagem do Caos ao Cosmos, cunhando em cada ente a presença-que-se-ausenta, e enquanto Céu e Terra, Mundo e coisa, Ser e ente relatam a aproximação quaternária, divinos e mortais penetram na clareira, no inocente jogo do Mundo.

38. Os mortais são os únicos que experimentam a própria morte, vivendo sua última possibilidade, penetrando neste abrigo indizível, o Dasein capta o que a morte contém, o seu mistério, está diante do des-velamento-velador inteiramente, e o que resta então a quem na Morte habita o Ser? Resposta e surpresa se dão ao nível individual, posto que, se viver é o percurso de um caminho no processo de vir-a-ser, a Morte é o ato mais pleno, final da etapa, encontro com um destino no qual se dá o triunfo de Chronos, mas neste abismo profundo e escuro, a voz dos deuses fará brilhar uma nova luz diante daqueles que testemunham sua fé na unidade quaternária.

39. Partindo do Mundo como Quaternidade, traçar-se-á uma analogia de fundamental importância entre esta metáfora e a quadratura do círculo, através da Mandala.

40. Retomando alguns elementos já desenvolvidos no capítulo I, item 3, viu-se que, no âmbito mítico, o abismo caótico e a ordenação espacial figuram frequentemente: só há vida em uma comunidade que, em meio ao caminhar nômade, estabelece seus pontos de parada como lugares, referenciais propriamente ditos, e neles, e posteriormente nos locais de estabelecimento humano no solo, erige totens, constrói casas, templos, cidades, fundamentadas pela busca da presença mais plena do Sagrado.

41. Possuído pelo Sagrado, o Espaço concêntrico é fonte perene de uma energia que se renova: nele é a força divina que, ritualmente, se põe em contacto com os humanos, e fora dele só há o desconhecido, sinônimo de vazio e Caos, o que sucede quando alguém é expulso de uma comunidade, para ir ter com a Morte.

42. O centro espacial contém o encontro de todos os elementos, ou numa palavra, da Quaternidade: Céu e Terra, divinos e mortais estão concentrados em torno deste elo que gera sacralidade, e para os primitivos não é a coisa enquanto ponte, mas como Caverna, Água, rocha, etc., que estabelece este vínculo inerente à habitação do Cosmos.

43. Um espaço é qualquer coisa “disposta”, tornada livre, a saber, no interior de um limite, e o limite não é onde qualquer coisa termina, mas como os gregos haviam observado, aquilo a partir de que qualquer coisa começa a ser.

44. A espacialidade é uma característica fundamental do Dasein que, sendo, ordena o que está ao seu redor, organiza os entes em seus lugares próprios, e o Espaço se essencializa em conceder um lugar, em originar.

45. Enquanto outorga um lugar aos entes, o Dasein, acatando o des-velamento, os libera para ser o que são, e em cada lugar se estabelece o vínculo, a reunião dos entes, a Quaternidade na qual os deuses se manifestam e furtam, os ciclos surgem e se alteram em sua intimidade, na esfera ontológica da totalidade.

46. O Espaço, enfocado no prisma da unidade primordial que acata o latente, na atitude serena de aguardar o seu surgir, acena ao Dasein que habita, espacialmente, a Quaternidade: nas suas edificações, palavras cantadas de seu desabrochar, traços de um movimento temporal que, acolhendo a tensão inerente a cada ente, os protege.

47. Penetrando no movimento rítmico do Cosmos, o Dasein, que busca para si o Sol, tenta captar a luminosidade dos entes quando, atraído por seu desabrochar e enigma, visa à Verdade, e Espaço e Verdade retratam o poder criador do humano que origina e mantém os deuses, o divino, o Sagrado e o Ser, elevando-se ao Céu em seu fixar-se na Terra.

48. Tanto no contexto mítico como heideggeriano, o Homem não subordina o Espaço, posto que este se manifesta em seu conteúdo sacral que protege, enquanto delimita um território, aqueles que o habitam, da desorganização que des-integra: da volta ao Caos, doenças, ataques inimigos, etc.

49. É justamente neste sentido que as primeiras edificações humanas se fazem em forma circular, orientadas por um marco sagrado que se estabelece como seu centro (umbigo) de convergência, e o círculo solar ou lunar, atestando a intimidade e pertença dos elementos, é o útero que gera, aconchega, protege e dá à luz aquilo que dele se desvincular, conservando, contudo, as características da nascente do qual são oriundos a materialidade terrestre, a paternidade celeste, e o círculo sagrado se retrata num termo: Mandala.

50. A palavra significa “círculo” e as traduções tibetanas traduzem-na quer por “centro” quer por “aquilo que rodeia”, e quanto à cousa, ela consiste numa série de círculos, concêntricos ou não, inscritos num quadrado.

C. A palavra: círculo Instaurador do Sagrado

51. O centro, remontando diretamente ao ângulo, curvo ou quadrado, em que foi criado o Cosmos, retrata o seu princípio, o eixo que permite a renovação de seu fim, e o centro é o constante, o estável, a determinação firme do que foi estabelecido pelos deuses: o alicerce pelo qual ao Dasein também é dada a possibilidade de estabelecer-se espacialmente.

52. O centro integra, enquanto nele se instauram os limites, a ordem que assegura a coesão cósmica, e enquanto oriunda de um centro, a totalidade cósmica, o irromper das relações entre os princípios, des-cerra o ato inaugural dos deuses, o lançar-se sobre o abismo caótico, abordando-o sonoramente, movendo-o em uma fenda, isto é, impulsionando o orifício primeiro de modo que dele proceda o Ser.

53. Passagem de um estado a outro, o centro enquanto eixo polariza o estabelecimento do intercâmbio entre os pontos nos quais se subdivide a inteligibilidade, e este ponto central, marco da implantação do espaço mundano, é o estabelecimento de fronteiras, requerido em qualquer fixação humana em uma região, estando sempre em comunicação com os outros níveis.

54. O marco reitera a criação em sua proveniência originária e, enquanto ponto de convergência, é Axis Mundi, pilar, sustentáculo, o elo entre Terra e Céu, reproduzido em cada edificação humana, e o Axis Mundi, enquanto localização do Sagrado nos pontos mais elevados, pode ser simbolizado pela Montanha ou Árvore cósmica onde estão retratados, como dito no capítulo I item 1, a totalidade enquanto integração e o combate, enquanto manutenção cíclica das forças ou separação entre Luz e Trevas, figurada no pássaro ou na serpente, e enquanto vegetal, a Árvore personifica propriamente o Sagrado, enquanto renovação.

55. A fundação da nova cidade repete a criação do mundo, com efeito, uma vez o lugar validado ritualmente, ergue-se uma defesa em forma de círculo ou de quadrado, nela se abrindo quatro portas correspondentes aos quatro pontos cardeais, e as cidades estão, à semelhança do cosmos, repartidas em quatro, por outras palavras, elas são uma cópia do universo.

56. No tocante à construção das cidades, Roma é o exemplo mais citado, justamente porque nela se imita o gesto divino de abertura, expresso na fossa, o primeiro instrumento musical, que retrata aqui o centro enquanto Mundo (Mundus): ato de corte e cruzamento do solo perfurado para a fertilização, que oferta os dons da Terra aos divinos presentes no altar, como também a junção da circularidade.

57. Roma, erigida em forma de Mandala, alude ao círculo de sua fixação e ao quadrado de sua visibilidade orientadora, e enquanto o círculo remonta à plenitude, à segurança, à íntima pertença, o quadrado, enquanto defesa que salvaguarda, acena ao que afasta, à preservação da individualidade, e a circularidade do quadrado, ou a quadratura do círculo, contém os regimes diurno e noturno, des-velamento e velamento: o equilíbrio dos opostos.

58. A forma circular, a “redondez plena” é mais ou menos assimilação de um ventre, apesar de a construção do quadrado fazer alusão a um refúgio mais defensivo que definitivo, e pese a estas sutilezas, é muito difícil, em um contexto imaginário da muralha ou da cidade, discernir as intenções de defesa e as de intimidade, e neste isomorfismo das armas não nos centraremos mais que no caráter defensivo das muralhas, dos fossos e dos muros, porque nestes aparelhos há uma vontade diarética que não se pode depreciar, mas que só um contexto militar vem precisar mediante a espada ou a ameia.

59. A couraça, o recinto fortificado assinalam uma intenção de separação, de promoção do descontínuo, e por este motivo se podem conservar estas imagens que compartimentam, sem invadir o terreno dos simbolismos da intimidade.

60. Concluindo, pode-se sintetizar o paralelo reiterando que, no pensar heideggeriano, o Mundo aparece como Quaternidade, e o Ser, como o Sagrado circular (unidade da totalidade), divide-se em Céu, Terra, divinos e mortais, eclodindo enquanto Mundo.

61. O Mundo, enquanto centro, acena ao Céu, ao divino, aos deuses, ao Ser, ao Sagrado, enquanto retrata o eterno, o permanente, e ao quadrado corresponderia a materialidade enquanto tal: a Terra, o Homem, os entes em sua visibilidade, e quadrado e círculo, unidos em seu vínculo de pertença, formam a totalidade.

62. Esta foi buscada pelos alquimistas, que recorriam à imagem da quadratura do círculo, abandonada no decorrer das épocas históricas, com as dicotomias lógicas e tecnológicas, no império da dissociação cósmica, contudo, a Arte do início deste século, em sua tentativa de regresso à origem, tem retratado com muita frequência, na Pintura, a interpenetração destes dois símbolos, num impulso, talvez, de retorno ao Caos para que dele se re-estruture, indo além das normas a que se fixara.

63. A Música também se faz neste movimento propulsor-impulsor de uma repetição que se lança para fora de si, retornando ao eixo para trazer ao som a animação que palpita, vibrante, na realidade.

64. Heidegger, por sua vez, erige um pensar circular que voltando às origens, busca a origem originária, que reside no próprio Ser enquanto Physis, e seu pensar, em forma de círculo ou de espiral, reflete a Lua, a Noite, o velamento, enquanto limites, mas como o círculo está inserido no Ser, acena ele ao clarear, que se des-vela.

65. Como na Quaternidade estão presentes a unidade dos contrários ou síntese dos opostos, Heidegger recorre a metáforas para expressar o Dia enquanto “Manhã do Mundo”, isto é, a eclosão do pensar do Ser, com os gregos pré-socráticos, mas ao abordar a época tecnológica, designa-a como a “Noite do Mundo”, o momento de Trevas e carência no interior do qual faltam os deuses, e como esta temática de Manhã e Noite será aprofundada no decorrer deste capítulo, alude-se somente aqui a ela, à guisa de uma abertura elucidativa acerca de quadrado e círculo.

66. Refletindo acerca do frag. 1 (28 sq.) de Parmênides, Heidegger escreve: “Aqui é nomeada a A-létheia, o desvelamento. Ela é chamada de perfeitamente esférica porque, girando na pura circularidade do círculo, na qual, em cada ponto, começo e fim coincidem. Desta rotação fica excluída toda a possibilidade de desvio, de deformação e de ocultação. O homem que medita deve experimentar o coração inconcussão do desvelamento? Refere-se a este mesmo no que tem de mais próprio, refere-se ao lugar do silêncio que concentra em si aquilo que primeiramente possibilita desvelamento. E isto é a clareira do aberto”.

67. A clareira, o des-velamento, o lugar propício de concessão de trevas e luminosidade, Noite e Dia, aparece aqui como círculo originário, ao qual o próprio Heidegger reitera, trazendo ao presente, ao âmbito de seu pensar, o dizer parmenideano, e ora, como a A-létheia é o fio condutor de sua reflexão, nada mais certo do que afirmá-la como rota de imbricação da escatologia e gênese, isto é, a Metafísica, enquanto esquecimento do Ser, designa o crepúsculo: anúncio de Aurora instituído pelo caráter superador concernente ao Mito, à linguagem poético-musical de Homero e aos pré-socráticos, Aurora, auréola solar e lunar, eixo sagrado do conceder-à-presença.

68. Convém que se retorne ao sentido contido nos termos Gewiert e Vierung, traduzidos por Quaternidade.

69. A tradução de “Gewiert” por “quadripartir” proposta por Jean Beaufret em EC não é feliz, e em “Gewiert” não se visa à questão da “parte” ou da “porção de todo”, porque Heidegger não tem a soma dos quatro, e “Gewiert” é inicialmente o jogo da linguagem enquanto que ela reúne (dichtet, verdichtet), mas Heidegger diz também Vierung, e Beaufret traduz: “Quadratura”.

70. Vierung é um termo de história da arquitetura, ele designa a intersecção de duas naves numa igreja, ponto de luminosidade sobrepujado por uma cúpula (Vierungskuppel) e uma lanterna, e ponto doador da visão de conjunto, enquanto é o centro das quatro alas do edifício, e o Vierung ou o Gewiert é o coração da catedral, onde é bom permanecer.

71. É lá que se deve encontrar o altar do santo (der Heilige) que recobra a saúde (heilt) e que, em restituindo a integridade (das Heile), confere a salvação (das Heil), e é lá que a habitação “governa” aqueles que aí se “reconciliam”, e “Quadripartir”, no lugar de sugerir esta reunião em um ponto de luz e num centro onde se sustentam as linhas arquitetônicas e o espaço, faz mais pensar em um corte em quatro partes.

72. A Quaternidade se desdobra como um embate, um jogo, cujo resultado é o estabelecimento do âmbito originário que se mostra enquanto unidade da totalidade na qual eclode um Mundo, recuperando assim o significado inerente ao Cosmos superador do Universo.

73. A Quaternidade unitária surge envolta de metáforas que se desdobram nos termos: “O Simples da simplicidade do jogo do mundo”; “fundação”; “caminho de retorno”; “entrar na dócil exigüidade de sua simplicidade”; “A unidade da Quaternidade é a Quadratura” no seio da qual, “a ronda é o anel que gira, sobre si mesmo, enquanto este joga o jogo dos reflexos”.

74. “Fazendo resplandecer, o anel, por toda a parte e abertamente transpropria os quatro para o enigma do Ser. O Ser conjunto do jogo do mundo, o jogo de espelho que enrola girando assim, é a roda da circulatura. Na circulatura do anel que joga e reflete, o entrelaçar-se dos quatro em seu ser que é um, e portanto, próprio a cada um deles. Assim flexíveis, inclinadas no jogo de espelhos, reúnem um mundo”.

75. O círculo contido na roda, ronda e anel, mostra a Quaternidade como aquilo que se manifesta ao redor de um eixo, isto é, do velamento-des-velador.

76. Em sua órbita, o Dasein caminha diligente, repleto da intencionalidade contida no ato de estar atento, para descobrir o que por si mesmo se des-oculta: o Ser, e nesta dança sagrada de roda, Céu, Terra, divinos e mortais formam elos da corrente de simbolização, conjunto dos múltiplos que retornam à origem que tudo unifica, em seu movimento circular.

77. O anel, ondulado como os cabelos em ondas (Água) ou como o caracol (Lua), propaga-se: oriundo do Ser, girando em torno dele, volta à gênese do real, ao Ser, e o rumo deste caminhar ordena-se pelo Sagrado, nele se fixando, e anel precioso, símbolo do Ser concêntrico, em volta do qual se apresentam Sol e Lua, ritmos e ciclos: o círculo do que subjaz enquanto permanente, em meio ao devir.

78. Quaternidade, Quadratura, quadrado, jogo de espelhos do que se reflete, anel, ronda, circulatura, desembocando na Quadratura do Círculo, expressam poético-metaforicamente o enigma do Ser, segredo que, saindo da reclusão, se oferece aos mortais, fulgurando diante de seus olhares contemplativos.

79. Estes termos mostram também o caminho heideggeriano como uma con-vocação ao circular retorno ao originário, rompem-se as distâncias no jogo do dar-se-furtar-se do essencial que torna os mortais seus mensageiros, unindo-os com a divindade dos deuses que, em seu âmbito sacral, miticamente, ex-põem-se àqueles que a eles se dispõem: o pensador-poeta-artista, habitante da Caverna-Mundo, e Céu e Terra voltam a entrelaçar-se primordialmente, na metamorfose do teórico-conceitual à pertença existencial da totalidade.

80. Nela o Dasein faz-se, descobre-se, interroga-se continuamente acerca daquilo que lhe escapa em se furtando, integra-se em uma totalidade na qual sujeito-objeto, manipulação técnica, são termos inexistentes ou ultrapassados neste novo enfoque, e este é o horizonte no qual nos situa o Heidegger superador, místico, no sentido negativo, segundo muitos de seus comentadores, profundamente mítico, em nosso enfoque, enquanto ao transcender as frases repetitivas da Filosofia Ocidental, torna-se novamente familiar no seio do que nos passou a ser estranho: a habitação do Mundo.

81. Deste habitar todos os homens dependem para ser o que são, projetos humanos abertos, des-veladores de uma mensagem que os aguarda para eclodir em imagens e sons, para surgir em novas formas, recuperando o eixo do qual se extraviaram em sua a-patridade, afastamento do essencial.

82. Concluindo, convém ressaltar que Heidegger expressa a totalidade do símbolo que, em seu jogo reúne, integrando, a multiplicidade da diferença, devolve à Linguagem o silêncio originário-mítico do estar-à-espera da palavra divina que se mostrando-retrai, presente também nos conteúdos das narrações simbólicas cujo dizer vai além do cantado ou escrito, posto que contém a Verdade como Physis: ritual do celebrado acontecer que, repetindo, rompe o vínculo espacial para nomear a eclosão primeira de algo, dizendo-o como ele se dizia a uma comunidade. Recuperando o significado dos deuses, Heidegger retrata a reconciliação dos contrários, figurada em Héracles, Dioniso e Cristo