A dimensão originária anterior ao espaço e ao tempo deve ser denominada Inacabamento, pois o Desejo descobre o Ser não como ente inacabado, mas como próprio Inacabamento.
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O Inacabamento exprime simultaneamente a ausência de Plenitude no finito e a tensão do finito em direção a ela.
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Não se trata de carência pertencente a determinado ser, mas do Ser como carência.
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Espaço e tempo constituem dimensões derivadas desse Inacabamento.
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A realidade não é inacabada porque é temporal; ela é temporal porque seu ser é Inacabamento.
O Desejo constitui o acesso originário ao Ser como Inacabamento, pois somente ele experimenta a tensão na qual acabamento e não acabamento, plenitude e finitude, espaço e tempo se constituem reciprocamente.
O movimento da vida
A instabilidade do fenômeno
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O sujeito da correlação deve pertencer ao mundo e, simultaneamente, diferir dos entes intramundanos por constituir condição de sua aparição, e essa articulação entre univocidade e equivocidade encontra sua forma originária na vida entendida como Desejo.
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A falta do sujeito significa que não há heteroafecção sem falta de si nem autoafecção sem relação com o outro, pois o sujeito se constitui apenas naquilo que não é ele.
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A estrutura do objeto desejado esclarece retroativamente o sujeito, pois, assim como o mundo surge na aparição que o limita, o sujeito surge na própria aparição à qual confere possibilidade.
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O mundo é simultaneamente condição da aparição e aquilo que ela torna possível.
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O sujeito também é condição do aparecer e resultado de sua efetivação.
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Não há aparição ao sujeito sem aparição do próprio sujeito.
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O sujeito encontra-se inteiramente em jogo no Desejo e somente se realiza ao fazer aparecer e realizar um mundo, de modo que constituição de si e implicação mundana coincidem.
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O sujeito retorna a si desviando-se em direção ao mundo.
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Sua consistência não se distingue da abertura ao mundo que o despossui.
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O sujeito constitui-se constituindo um mundo e distingue-se dele ao fazê-lo aparecer.
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O sujeito somente descobre o excesso de seu Desejo ao deixar-se preencher por realizações finitas, e sua diferença em relação ao mundo nasce no interior da identidade produzida pela satisfação.
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A frustração somente se revela na satisfação.
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O excesso do sujeito corresponde ao excesso do mundo em relação às aparições finitas.
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Sujeito e mundo convergem na realização e divergem na insatisfação que dela ressurge.
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O Desejo abre uma separação à medida que a preenche e realiza uma identidade que imediatamente se transforma em diferença.
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A satisfação extingue provisoriamente a distância entre sujeito e mundo.
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A insatisfação renascida aprofunda a dualidade entre ambos.
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A aparição suprime e acentua simultaneamente a diferença.
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A dualidade entre sujeito e mundo não precede a unidade da aparição, pois surge no próprio coração da satisfação como diferença nascente e derivada.
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Não há primeiro polos separados que posteriormente se encontrem.
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O sujeito e o mundo constituem os excessos correlativos abertos pela finitude da aparição.
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Unidade e dualidade não possuem anterioridade recíproca.
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O fenômeno situa-se além da unidade plena e aquém da dualidade consolidada, pois é diferença que começa sem completar-se, vazio que surge em seu próprio preenchimento e identidade que se diferencia sem desaparecer.
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A insatisfação somente acontece dentro da satisfação.
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Os polos não se desprendem positivamente da aparição que os origina.
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A dualidade permanece incoativa e continuamente retorna à unidade.
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A ambivalência do fenômeno torna o pensamento estruturalmente incapaz de coincidir plenamente com ele, condenando-o a oscilar entre monismo e dualismo.
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O monismo reconhece corretamente que não existem sujeito e objeto anteriores à aparição.
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Erra ao transformar a unidade fenomenal em tecido ontológico homogêneo.
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O dualismo reconhece a deiscência e o excesso que atravessam o fenômeno.
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Erra ao hipostasiar essa diferença como oposição entre realidades autônomas.
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O monismo confunde o Desejo com fusão e ignora a negatividade presente na satisfação, enquanto o dualismo interpreta a frustração como fracasso absoluto do encontro e esquece que a diferença somente surge na própria aparição.
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Cada posição recolhe uma dimensão verdadeira do fenômeno, mas a separa de sua dimensão correlativa.
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A filosofia oscila entre ambas porque aplica categorias ônticas a uma fenomenicidade enraizada no Desejo.
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Merleau-Ponty reconhece a diplopia da ontologia e tenta pensar a carne como tecido comum atravessado pela diferença entre corpo e mundo, mas continua oscilando entre identidade e dualidade porque não alcança o Desejo como fonte do fenômeno.
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A carne própria e a Carne do mundo não possuem o mesmo sentido.
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O corpo é tomado como ponto de partida, quando deveria ser compreendido a partir da vida desejante.
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A dificuldade de pensar a vida procede de sua própria essência desejante, pois a realidade correspondente ao Desejo é seu próprio excesso e ultrapassa necessariamente as categorias com que o pensamento tenta apreendê-la.
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Ao afirmar a identidade, perde-se o excesso.
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Ao afirmar a dualidade, perde-se o fato de que esse excesso é produzido pelo próprio fenômeno.
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A vida permanece por pensar justamente porque é Desejo.
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Coincidência com o mundo e diferença em relação a ele constituem um único movimento no qual o sujeito somente se possui ao deixar-se despossuir e somente se encontra ao abandonar-se àquilo que deseja.
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O sujeito do Desejo pertence integralmente ao mundo e, ao mesmo tempo, distingue-se dele pelo excesso de seu movimento sobre todas as realizações finitas.
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Sua diferença é singularidade no interior da pertença.
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Ele está sempre no mundo, mas nunca inteiramente instalado nele.
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A vida como Desejo articula existência e corporeidade, diferença e intramundaneidade.
O movimento do Desejo
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O movimento constitui o modo de existência da vida desejante porque é o único sentido do ser capaz de reunir pertença ao mundo e transcendência das formas intramundanas.
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O movimento pertence profundamente ao mundo porque não possui realidade fora das posições e realizações mundanas que assume, mas não se converte em coisa porque ultrapassa incessantemente cada uma delas.
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Ele se realiza apagando-se em favor de novas formas do mundo.
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Não acrescenta uma determinação estável ao mundo.
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Difere ativamente das coisas ao nunca cristalizar-se como ente.
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O movimento não é realidade exterior ao mundo, mas transcendência imanente que permanece no mundo somente ao exceder continuamente as figuras que nele assume.
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O movimento do Desejo constitui o sujeito como aquilo que continuamente advém em suas realizações sem jamais se esgotar nelas.
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Cada satisfação oferece ao sujeito uma forma finita de si.
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A insatisfação revela que nenhuma dessas formas consegue realizá-lo integralmente.
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O sujeito é o próprio movimento de ultrapassagem de suas realizações.
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O corpo deve ser compreendido como resultado sempre provisório da realização do Desejo e não como substância previamente possuída pelo sujeito.
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O sujeito toma corpo em cada satisfação e em cada aparição.
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Aquilo que se denomina corpo próprio é o que do sujeito se efetiva em determinada realização.
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O Desejo revela simultaneamente um excesso de si em relação ao corpo realizado.
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A encarnação constitui movimento interminável pelo qual o sujeito entra no mundo sem jamais concluir essa entrada.
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O sujeito permanece como que no limiar do mundo.
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Estar encarnado significa estar continuamente encarnando-se.
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A falta experimentada no Desejo é também falta de corpo, isto é, falta do corpo correspondente à plena satisfação.
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A intramundaneidade do sujeito deve ser definida como encarnação inacabável.
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O movimento do Desejo não pode ser reduzido a deslocamento espacial, pois nele advém o próprio sujeito e aquilo que o orienta não se encontra simplesmente situado no espaço ou no futuro.
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O desejado oscila aquém da divisão entre espaço e tempo.
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O movimento vital integra o deslocamento sem se esgotar nele.
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Sua relação com o Inacabamento funda as próprias dimensões espacial e temporal.
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O movimento da vida está no espaço porque avança pelo mundo em busca de realização e está além do espaço porque cada realização o conduz à temporalidade aberta pela frustração.
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A vida não se move dentro de espaço e tempo previamente dados.
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Espaço e tempo são formas produzidas pelo próprio movimento vital.
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A vida é o desdobramento originário de ambas as dimensões.
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O movimento originário da vida deve ser denominado Realização em sentido dinâmico, pois dá origem a realizações finitas sem que nenhuma delas realize plenamente o Desejo.
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Cada realidade constitui efetivação parcial do movimento.
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Nada se realiza definitivamente nas realizações particulares.
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A vida é realização do irrealizável.
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O Ser aparece como Inacabamento porque o movimento vital efetiva incessantemente um Desejo que nenhuma realização consegue concluir.