A neutralidade originária do viver permite redefinir tanto a consciência quanto a vida, situando a primeira no âmbito da ação, da despossessão e da carência, e compreendendo a segunda como abertura ao outro, visão e acolhimento, em vez de mero dinamismo de conservação e reprodução.
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A consciência premeditada na vida deixa de ser contemplação plena e representação apropriadora para tornar-se atividade transitiva e abertura.
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A vida capaz de consciência não pode ser reduzida à luta pela autoconservação, pois sua essência inclui receptividade e relação com o que não é ela.
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A separação radical entre humanidade e vida resulta de conceber a vida como atividade cega e intransitiva e a consciência como excesso pertencente a outra ordem.
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O humanismo compreende a especificidade humana por uma relação constitutiva com Deus, o inteligível, a razão ou o mundo, mas nega que essa transitividade possa proceder da própria vida.
A fenomenologia da vida fundada na unidade originária do viver reconhece a pertença fundamental da humanidade à vida e a continuidade entre o homem e os demais viventes, sem reduzir a especificidade humana a uma ruptura ontológica absoluta.
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As estruturas orgânicas inferiores já prefiguram o espiritual, enquanto o espírito permanece ligado ao orgânico mesmo em suas manifestações mais elevadas.
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A diferença humana deve ser compreendida como diferença no interior da unidade da vida, pois a vida humana é humana precisamente por continuar sendo vida.
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A dificuldade consiste em preservar a singularidade humana sem sacrificá-la à unidade do viver nem separá-la inteiramente dos demais viventes.
A conciliação entre a pertença integral da humanidade à vida e sua diferença radical exige descobrir um sentido suficientemente profundo da vida, capaz de fundamentar a possibilidade da própria diferença humana.
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A humanidade não precisa ser dissolvida na vida nem elevada a uma transcendência absoluta em relação a ela.
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A diferença humana não deve ser explicada começando pelos atributos que distinguiriam o homem, mas pelo sentido originário da vida que torna essa distinção possível.
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A arkhé da vida contém a razão de seu telos, de modo que a possibilidade das formas mais elevadas do viver deve ser fundada em seu princípio originário.
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O homem somente difere da vida ao diferir no interior dela, e o modo como difere depende do modo de ser do viver no qual essa diferença ocorre.
As fenomenologias examinadas não alcançam a unidade do viver, embora procurem respeitar a pertença mundana e a função fenomenizadora do sujeito, pois separam a existência humana da vitalidade propriamente dita e preservam a oposição entre Leben e Erleben.
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A vida é afastada da existência como consciência estranha ao corpo ou como modo de ser radicalmente distinto da subsistência.
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A vida animal é descrita como incapaz de abertura autêntica ao mundo e desprovida de verdadeira transitividade.
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Patočka aproxima-se da unidade ao articular o estar vivo e o vivido como tendências de um movimento existencial comum, mas restabelece a divisão ao opor a conservação vital ao acesso desinteressado ao ente.
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O movimento de abertura depende de uma virada não inscrita no movimento originário de pertença, razão pela qual a existência acaba transcendendo a vida.
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A fenomenologia supera a oposição cartesiana entre pensamento e extensão ao descrever a relação do sujeito com o mundo como viver, mas reproduz um dualismo refinado entre existência autêntica e vida simples.
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Uma compreensão restritiva da vida impede que o viver transitivo seja reconhecido como vital em sentido próprio e o reduz a uma extensão metafórica do termo.
A ontologia da morte
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A permanência das divisões metafísicas na fenomenologia decorre de um pressuposto ontológico secreto compartilhado por ambas, mediante o qual a vida é compreendida sob a primazia da morte, conforme a ontologia da morte identificada por Hans Jonas.
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O dualismo moderno e seus posteriores desdobramentos materialistas ou idealistas enraízam-se em uma experiência da morte elevada à condição de norma ontológica.
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As culturas originárias compreendiam o ser como vida universal e encontravam na morte o primeiro enigma, pois nada na experiência vital parecia tornar compreensível sua negação.
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As sepulturas primitivas testemunham o nascimento da reflexão ao reconhecerem e simultaneamente negarem a morte.
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A modernidade inverte essa situação, transformando o cadáver em verdade do corpo, a matéria sem vida em verdade do ente e a própria vida em problema a ser explicado.
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A vida passa a ser interpretada segundo as leis da matéria inerte e aparece como artifício ou engano produzido por aquilo que não vive.
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A ontologia moderna realiza uma dupla negação da vida ao eliminar todo caráter vital da natureza física, reduzindo-a à extensão, e ao concentrar a vida verdadeira em uma alma humana interior e extramundana.
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O mecanicismo nega a vida ao compreender o corpo como máquina desprovida dos caracteres atestados pela experiência de estar vivo.
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A tradição órfica, cristã e gnóstica contribui para essa negação ao separar radicalmente a alma humana do mundo natural.
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O materialismo mecanicista e o gnosticismo compartilham a concepção do mundo como domínio da morte, diferindo apenas porque, no primeiro, a entidade espiritual desaparece e o sepulcro permanece vazio.
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A vida é negada por deficiência quando o corpo é reduzido à máquina e por excesso quando a alma é identificada a uma interioridade espiritual alheia ao mundo.
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A ontologia moderna reconhece a originalidade fenomênica da vida, mas lhe nega um modo de ser próprio ao reconduzi-la sempre à matéria ou ao espírito.
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A fenomenologia permanece devedora da ontologia da morte porque, embora reconheça o fenômeno da vida, continua interpretando-o sob o horizonte da mortalidade e, por isso, não consegue elevá-lo ao plano integral da existência.
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A vida é situada em um mundo ontologicamente inerte, estranho e hostil, no qual aparece permanentemente exposta à destruição.
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Seu sentido passa a consistir na confrontação com a morte biológica, compreendida como retorno à inércia material.
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A vida deixa de ser o horizonte a partir do qual a morte é compreendida como sua negação e passa a ser definida desde aquilo que não é ela.
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A fórmula segundo a qual a vida é o conjunto das funções que resistem à morte exprime a determinação do viver pela possibilidade de sua negação, e não a presença de uma força vital.
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O fato de a morte acontecer a todo vivente não autoriza a situá-la na essência da vida nem a compreender a vitalidade primordialmente a partir de sua mortalidade.
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A morte pode constituir um arquifato irredutível à essência e ao sentido, sem por isso tornar-se núcleo constitutivo do viver.
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A vida deve ser investigada a partir de seu próprio dinamismo, e não prioritariamente desde a ameaça de sua aniquilação.
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Definir a vida pela exposição à morte significa atribuir-lhe como conteúdo próprio a negação de todo conteúdo.
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Torna-se metodologicamente legítimo suspender a aniquilação possível para caracterizar a vida em si mesma e por si mesma.
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A ontologia da morte restringe o sentido da vida à sobrevivência e à autoconservação, pois coloca o vivente em um meio ontologicamente estranho cuja alteridade somente pode aparecer como ameaça ou recurso para a satisfação das necessidades.
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A relação com o outro torna-se relação consigo mediada por aquilo que deve ser apropriado, consumido ou afastado.
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A constante ameaça da destruição produz um movimento incessante de conservação e reprodução centrado exclusivamente no próprio vivente.
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A alteridade é negada como verdadeira relação, pois o mundo somente aparece segundo sua utilidade para a manutenção da vida.
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A vida assim concebida não pode conter abertura desinteressada, manifestação das coisas por elas mesmas ou consciência do mundo.
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A fenomenologia é obrigada a acrescentar à vida uma dimensão suplementar, como consciência, Sorge ou movimento de abertura, para explicar a existência humana.
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A divisão entre Leben e Erleben resulta da determinação restritiva da vida imposta pela ontologia da morte.
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Pensar a vida como sobrevivência torna incompreensível sua transformação em consciência, enquanto a identidade entre vida e consciência exige uma vida cuja essência não consista na exposição à negação.
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A superação das divisões fenomenológicas da vida exige uma epoché da morte que suspenda a ontologia segundo a qual o ser da vida é essencialmente ameaçado e permita compreender o viver exclusivamente a partir de seu sentido próprio.
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A epoché da morte não nega o fato da morte, mas o coloca entre parênteses para impedir que determine antecipadamente a essência da vida.
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Assim como a epoché husserliana neutraliza a existência do mundo para recuperar seu sentido verdadeiro, a suspensão da morte deve recuperá-la como fato cuja possibilidade procede da essência da vida.
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A investigação deve determinar qual movimento e qual relação com o mundo constituem a vida em si mesma.
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A suspensão da ontologia da morte pode revelar um sentido do viver capaz de fundamentar a existência humana e superar a oposição entre vida simples e existência realizada, inferior e superior.