O ser vivo deve ser compreendido como sujeito porque constitui a fonte de seus próprios acontecimentos, relaciona-se consigo mesmo ao efetuar-se e experimenta seu mundo mediante uma ação carregada de significado, sem que essa subjetividade implique necessariamente representação consciente.
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Os conceitos de totalidade, unidade significativa e ser percebido não restituem o dinamismo subjetivo pelo qual o organismo produz sua própria unidade.
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A irredutibilidade do vivo aos processos parciais não exige o recurso a uma força vital inexplicável, pois pode haver um dinamismo real que não seja nem realidade percebida nem entidade vitalista acrescentada ao organismo.
A vida vivida
Autoafecção, vida e carne
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O dinamismo vital manifesta-se privilegiadamente na vida subjetiva, na qual Michel
Henry identifica radicalmente consciência e vida ao sustentar que a fenomenalidade originária não consiste na transcendência intencional, mas em uma manifestação imanente anterior à exteriorização do objeto.
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A determinação intencional da consciência não explica como a própria intencionalidade se revela nem como o objeto adquire existência efetiva, razão pela qual a impressão deve ser reconhecida como modalidade mais originária do aparecer, dada na imanência absoluta e na autoafecção sem distância.
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O fenômeno intencional aparece como Gegenstand, isto é, como algo colocado diante da consciência, mas esse aparecer exteriorizante não esclarece sua própria manifestação.
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A estrutura intencional produz a representação do objeto, enquanto a impressão lhe confere a realidade que a simples exteriorização fenomenológica não poderia assegurar.
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A impressão não pode depender de outra intencionalidade que a contemple sem provocar uma regressão infinita.
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A consciência intencional e os conteúdos hiléticos remetem, portanto, a uma manifestação não intencional constituída pela pura imanência dos conteúdos originários.
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A impressão aparece tocando-se imediatamente em cada ponto de seu ser, de modo que a essência do aparecer consiste na autoafecção pura ou Afetividade.
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Embora a impressão seja seu próprio aparecer, ela não constitui sua própria origem, pois se autoimpressiona sem ter escolhido existir ou determinar sua qualidade, revelando nessa passividade fundamental a vinda da própria Vida a si mesma.
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A Vida não permanece exterior à impressão, mas aparece nela como aquilo que a traz a si e a sustenta em sua passividade originária.
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A vivência e o estar vivo formam uma unidade originária, pois todo experimentar constitui manifestação de uma Vida que somente existe nessa experiência.
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A corporeidade, entretanto, introduz uma dificuldade, porque a existência do ser vivo parece exigir organismo e exterioridade, enquanto a autoafecção henryana define o viver pela imanência pura.
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Michel
Henry subordina a corporeidade à interioridade da vida, fazendo com que o sentido do corpo proceda da autoafecção, em vez de permitir que a exterioridade corporal determine o sentido da vida.
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A carne originária surge na autoafecção como uma corporeidade inteiramente impressiva e afetiva, engendrada pela própria Vida e constituída pela mesma substância fenomenológica imanente mediante a qual a Vida se experimenta.
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O corpo objetivo e sensível pressupõe um corpo subjetivo capaz de sentir, ver e tocar, de modo que Michel
Henry denomina carne ou corpo originário esse poder transcendental invisível e procura explicar a relação entre a carne imanente e o corpo mundano por meio da teoria biraniana do esforço.
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O corpo extenso, considerado apenas segundo a exterioridade do mundo, não possui por si mesmo matéria impressiva nem qualidades sensíveis.
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Todo corpo sentido remete a um poder de sentir, e todo corpo visível pressupõe um corpo invisível que se experimenta no próprio exercício da visão e do tato.
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Maine de Biran situa no esforço o fato originário pelo qual o sujeito se revela a si mesmo não como pensamento puro, mas como força e poder de agir.
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O esforço constitui uma relação primitiva entre uma força hiperorgânica e uma resistência que se opõe a ela, pois nenhuma força se manifesta sem resistência e nenhuma resistência existe sem uma força que procure vencê-la.
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O corpo próprio aparece como resistência relativa que cede ao impulso voluntário, diferentemente do corpo exterior, cuja resistência se apresenta como absoluta.
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Distinguem-se a carne originária como poder autoafetivo, o corpo orgânico submetido ao impulso dessa carne, o corpo orgânico convertido em coisa no limite da resistência e esse mesmo corpo exteriormente percebido no mundo.
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A mesma realidade corporal manifesta-se em dois regimes irredutíveis do aparecer: como poder subjetivo imanente e como deslocamento objetivo no espaço.
O problema do corpo
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A aplicação do termo corpo tanto ao poder subjetivo invisível quanto ao organismo exterior introduz uma dificuldade conceitual, pois a inversão realizada por Michel
Henry denomina corpo originário precisamente aquilo que não possui extensão nem exterioridade, embora continue reconhecendo como corpo a realidade que aparece no mundo.
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A tradição e o próprio Maine de Biran situavam o corpo do lado da extensão resistente, enquanto Michel
Henry transfere o corpo autêntico para a imanência da subjetividade.
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A redução do corpo real à carne invisível ameaça retirar do conceito de corpo sua referência mínima à extensão e à exterioridade.
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A conservação do mesmo termo para a carne imanente e para o corpo exterior exige admitir algum vínculo entre ambos para além da duplicidade dos modos de aparecer.
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A concepção do corpo objetivo como simples casca vazia seria coerente com a separação radical entre vida e mundo, mas contradiz a experiência ordinária na qual o corpo alheio é percebido como habitado por uma carne.
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A atribuição de significações carnais ao rosto próprio ou ao corpo de outrem pressupõe que algo na exterioridade manifeste uma interioridade viva, pois, de outro modo, qualquer matéria poderia ser tomada como carne.
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A possibilidade de a vida apresentar-se no visível contradiz a tese segundo a qual ela pertence exclusivamente à invisibilidade da imanência.
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A fenomenologia henryana enfrenta a alternativa entre preservar a duplicidade absoluta do aparecer, tornando impossível reconhecer uma carne nos corpos mundanos, ou admitir uma comunicação entre carne e corpo exterior, abandonando a separação radical entre vida imanente e mundo.
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A identificação da vida com a autoafecção conduz Michel
Henry a privilegiar o viver intransitivo, mas a experiência incontornável do outro como vida presente no mundo impede que essa posição seja mantida até suas últimas consequências.
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Uma inspiração metafísica dualista separa radicalmente a imanência viva da exterioridade objetiva, enquanto a exigência descritiva obriga a reconhecer que algo da vida aparece no mundo.
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O reconhecimento do vivo depende da experiência da própria vida, pois somente um ser vivo pode distinguir outro ser vivo, mas exige igualmente que a vida se manifeste exteriormente.
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A vida comporta uma dimensão subjetiva ligada à vivência e uma dimensão constitutivamente transcendente pela qual se apresenta como vida no mundo.
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O viver não pode ser reduzido à vivência imanente, pois a vida vivida deve permanecer suscetível de ser conhecida e reconhecida exteriormente.
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Uma fenomenologia da vida deve rejeitar tanto a redução da vida ao funcionamento objetivo dos organismos quanto sua identificação integral com a autoafecção invisível, procurando uma unidade originária entre o ser vivo e a vivência que preserve simultaneamente interioridade, dinamismo e exteriorização.
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O reconhecimento do organismo como vivo antecede a análise de suas funções e remete necessariamente à experiência da própria vida.
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A vivência não pode ser concebida como pura imanência, pois a vida exige uma relação constitutiva com a exterioridade.
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O viver deve dar-se no mundo sem transformar-se em objeto, afetar-se sem encerrar-se em si mesmo e exteriorizar-se sem perder sua interioridade no regime das partes exteriores umas às outras.
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O conceito fenomenológico de existência parece capaz de designar esse modo singular de ser que se manifesta exteriormente sem deixar de pertencer a si mesmo.