A separação fundamental atestada por numerosos poetas, entre os quais Bonnefoy, para quem a linguagem é nossa queda, compromete a linguagem nesse exílio, não como sua causa mas como manifestação privilegiada dele
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Essa privilégio se entende em duplo sentido: o que manifesta a radicalidade da separação e o que permite, no entanto, superá-la, fazendo da linguagem um recurso contra uma separação da qual ela é, ao mesmo tempo, a primeira manifestação
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A poesia realizaria essa essência da linguagem ao tentar, diferentemente de outras obras de linguagem, ir até o fim dessa condição singular, buscando uma forma de reconciliação com o sensível no interior mesmo da linguagem, levando-a ao seu próprio limite e transformando-a em recurso contra si mesma
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Duas questões correspondem às duas etapas essenciais da demonstração: em que consiste exatamente essa separação que a poesia revela como aquilo contra o qual ela se constitui, em que profundidade deve ser apreendida e em que medida a linguagem nela encontra sua própria possibilidade
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A segunda questão diz respeito ao modo como o poético pode ser pensado como tentativa, sem dúvida a única, de superar essa separação, ou seja, de reencontrar um pertencimento nativo ao sensível, aparecendo como espécie de remédio ao exílio e recurso da linguagem contra si mesma
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Nesse ponto impõe-se evidenciar, no cerne do poético, uma forma de prova originária daquilo de que somos radicalmente separados, uma abertura primeira cuja alcance excede inteiramente o plano dos entes mundanos, abertura que será nomeada sentimento, vertente propriamente afetiva do poético, embora num sentido renovado da afetividade, cujo estatuto e significação se encontrarão reformulados à luz dessa prova originária