Essa análise deixa um sentimento de insatisfação, pois é impossível pensar o desejo a partir da falta tal como
Sartre a define, uma vez que, se a totalidade é verdadeiramente impossível, não se compreende como ela pode ainda faltar, isto é, ser ao menos visada
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a alternativa entre manter o abismo ontológico entre em-si e para-si, renunciando então à correlação, ou partir efetivamente da correlação, concluindo que a totalização não é apenas ideal
Sartre falta o desejo, essência da intencionalidade, tanto por excesso quanto por falta de distância, sendo faltado por falta de distância ao ser definido como falta de uma totalidade determinada
A análise sartriana é marcada por um afastamento entre uma intuição particularmente fecunda, a de que a essência da intencionalidade é desejo, e uma conceituação que não consegue restituir sua significação verdadeira por identificá-la à falta
As razões desse fracasso residem no próprio ponto de partida, na dissimetria ontológica da fenomenologia sartriana, que não confere o mesmo estatuto ao sujeito e ao transcendente
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a citação segundo a qual a consciência considerada à parte é apenas uma abstração, mas o próprio em-si não precisa do para-si para ser
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Sartre introduzindo assim, de modo realista, uma cisão entre o ser e o fenômeno, reconstituindo a fenomenalidade a partir da relação entre o para-si e um em-si que repousa em si mesmo, tratando-se de uma fenomenologia sem fenômenos
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a citação segundo a qual a totalidade indissolúvel de em-si e para-si só é concebível sob a forma do ser causa de si
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toda gênese da fenomenalidade a partir do em-si sendo impossível, por serem dois modos de ser radicalmente distintos e mutuamente excludentes, salvo assumindo um naturalismo ingênuo
A fenomenalidade é desconhecida por falta na posição inicial de um em-si hipercomprimido e por excesso na de um ser causa de si, não convindo nenhuma das duas fórmulas à fisionomia da fenomenalidade
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a teoria do desejo como falta aparecendo como consequência dessa pulsação entre compensações mútuas pela qual
Sartre tenta alcançar a fenomenalidade sempre a faltando
Essa longa análise reconduz à leitura de
Husserl em que se enraíza a evidenciação do ser transfenomenal dos fenômenos, reprovando
Sartre a
Husserl sua teoria dos vividos por fazer repousar a transcendência do objeto num puro não-ser
Esse reviramento é discutível, pois não se vê como tal em-si poderia se fenomenalizar, e a posição de
Sartre permanece tributária de uma leitura talvez radical e simplificadora de
Husserl, cuja teoria dos horizontes visa justamente abalar essa concepção ingênua da presença
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a tarefa da fenomenologia consistindo, ao contrário, em partir dessa intuição husserliana fundamental de uma presença envolvendo uma dimensão de ausência, uma doação na distância para além da alternativa simples do ser e do não-ser