Visível

BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991.

[…] Que significado atribuir a essa primazia da visão? É certo que “nosso mundo é principalmente e essencialmente visual; não [177] se poderia construir um mundo com aromas ou sons” [V.I., p. 115]; no entanto, essa preeminência não se resume a essa constatação factual. Ela remete, sobretudo, ao fato de que é somente pela visão que temos acesso ao mundo como mundo. Merleau-Ponty aponta isso em *O olho e o espírito*: “O ‘quale visual’ me dá — e somente ele me dá — a presença daquilo que não sou eu, daquilo que é simplesmente e plenamente” [O.E., p. 84]. Na audição ou no tato, o objeto não alcança essa exterioridade, essa autonomia: no tato, que passa por um contato físico, a coisa é experimentada mais “na ponta dos dedos” do que fora de quem sente, e eu ouço o som “no ouvido” em vez de situá-lo no espaço. Em ambos os casos, o corpo que percebe é remetido a si mesmo, não consegue se esquecer em prol de uma pura exterioridade: o sentido distingue-se, então, com dificuldade da experiência que o sujeito sensorial faz de si mesmo a cada vez. Há, por outro lado, “mais mundo” na visão, pois o sentido se apresenta nela apenas como separado do sentir, como repousando em si mesmo. É precisamente essa especificidade da visão que fundamenta as interpretações errôneas tradicionais da percepção. Por seu próprio exercício, a visão ignora a si mesma enquanto experiência sensível; nela se realiza o esquecimento de si inerente à atitude natural: por meio de uma espécie de inversão, o “para si” é cativado e captado pelo fenômeno que traz à presença, esquece sua dimensão fenomenal e se recompõe a partir do visível, concebido como coisa em si. A experiência da visão alimenta a ilusão realista: por se viver como se iluminasse uma presença latente que aguardava que um olhar a tirasse da noite, o realismo conclui que o objeto estava efetivamente ali, que seu ser consiste em repousar em si mesmo. Como vimos, a perspectiva sartriana permanece eminentemente dependente dessa ilusão. É verdade que, contra o intelectualismo, Sartre tenta restabelecer a abertura para a própria coisa, incontestável na experiência visual, mas, ao mesmo tempo, permanece o mais distante possível dessa experiência, pois, ao definir seu correlato como um puro em si que é apenas si mesmo, ele subordina a visão ao visível que ela faz surgir e permanece, assim, na ingenuidade. Ao conceber o Ser como identidade plena em si mesmo, ele o separa de sua visibilidade, não integra ao seu modo de ser a capacidade que ele tem de se mostrar, e acaba se impedindo de compreender a própria visão, que, por sua vez, se desvanece por falta de uma consistência [178] que possa separá-la daquilo para o qual ela se abre, de uma distância na qual possa se inscrever a visibilidade do objeto. Simetricamente, por querer levar em conta a dimensão da visão como tal, sem subordiná-la de imediato ao ser-visto, a filosofia cartesiana acaba por ignorá-la em sua efetividade, ou seja, como abertura para “aquilo que é simplesmente e plenamente”. Sob o pretexto de que não há visão sem pensamento, Descartes conclui que basta pensar para ver. A visão não é reavaliada como uma certa relação com as próprias coisas, mas como um pensamento que se exerce por ocasião dos sinais dados no corpo. À visão de fato é substituída uma “instituição da natureza” que faz corresponder, de maneira regulada, os indícios corporais e a representação: a visão não é descrita por si mesma, ela é reconstituída a partir da dualidade inicial entre a substância extensa, que está além do visível — cuja plenitude exclui, portanto, a visibilidade —, e a substância pensante, que está sempre além da visão. Ora, precisamente por se alimentar de uma negação da experiência visual efetiva, esse intelectualismo permanece prisioneiro dela. Ao rejeitar o visível como realidade subsistente, ele transpone sua densidade para o plano intelectual e reduz, assim, a experiência visual ao intuitus mentis. É, em última análise, porque o pensamento é definido como visão intelectual e, em virtude do sentido ingênuo da visão sensível, como abertura para uma realidade subsistente — neste caso, para o conceito —, que ele não consegue equiparar-se à visão efetiva. Merleau-Ponty explica isso em uma das últimas notas: “A definição do intuitus mentis, baseada em uma analogia com a visão, ela própria entendida como pensamento de um indivisível visual (os detalhes que os artesãos veem) (…). Essa análise da visão deve ser totalmente reconsiderada (ela pressupõe o que está em questão: a própria coisa) — Ela não percebe que a visão é televisão, transcendência, cristalização do impossível. Consequentemente, a análise do intuitus mentis também deve ser refeita: não há indivisível do pensamento, de natureza simples — a natureza simples, o conhecimento “natural” (a evidência do “eu penso”, como mais clara do que tudo o que se possa acrescentar a ela), que é apreendida totalmente ou de forma alguma; tudo isso são as “figuras” do pensamento, nas quais não se faz menção ao “fundo” ou ao “horizonte” — Este só é acessível se começarmos por uma análise do “Sehen” [V.I., p. 327]. Ao positivismo ontológico, mencionado acima, corresponde uma [179] certa ideia da visão, inerente ao próprio exercício da visão: quer se pense em termos de essência ou de fato, determina-se o conhecimento como visão, e tal como é espontaneamente vivida, ou seja, como coincidência efetiva com um objeto definido. É por isso que a crítica ao intuicionismo, em todas as suas formas, deve passar pelo retorno à visão em ato, por uma redução da visão ingênua. Mais do que qualquer outra, essa experiência visual cristaliza o paradoxo que é constitutivo da percepção: ao mesmo tempo em que é dessa experiência que depende a presença do visível, este se apresenta como se nada lhe devesse. É preciso, portanto, perguntar-se o que é “esse talismã da cor, essa virtude singular do visível que faz com que, mesmo quando mantido no limite do olhar, ele seja, no entanto, muito mais do que um correlato da minha visão; é ele quem a impõe a mim como uma consequência de sua existência soberana” [V.I., p. 173].


Referências:

V. I. = MERLEAU-PONTY, M. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1964.

O. E. = L’œil et l’esprit. Paris: Gallimard, 1964