A filosofia sartriana está no mais longe da experiência por ignorar o momento da fenomenalidade, mas é preciso reconhecer que o Ser, enquanto aparece, não é todo em si, cavando-se de uma nadidade, e que a consciência não é nada, mas o ser que, por sua pertença ao Ser, porta essa nadidade
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Há uma verdade de
Husserl contra
Sartre, e por isso o exame da fenomenologia segue, em Le visible et l'invisible, a crítica da dialética, sendo verdade igualmente que
Sartre se situa o mais próximo possível da experiência, descrevendo nossa situação de fato com mais acuidade do que jamais se fez
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Há assim ambiguidade da filosofia do nada, que nomeia o que há a compreender mas, ao nomeá-lo, o perde, não sendo o nada propriamente o que está em questão mas a possibilidade de restituir a experiência com um conceito unívoco
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O ponto de partida não é o ser é, o nada não é, fórmula ainda de sobrevoo, mas há ser, há mundo, há algo, sendo pela abertura que poderemos compreender o ser e o nada, e não pelo ser e o nada que poderemos compreender a abertura
§ 3 A abstração da problemática do olhar
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O capítulo consagrado a
Sartre em Le visible et l'invisible traz longa análise crítica da concepção sartriana da intersubjetividade, pois a teoria do olhar desempenha papel decisivo na economia de L'Etre et le Néant, sendo apenas na relação com os outros que o nada da consciência acede à facticidade de um eu
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A importância dessa questão explica-se também pelo papel decisivo que a reflexão sobre outrem desempenha no desenvolvimento do pensamento de
Merleau-Ponty, situando-se este nas proximidades de
Sartre, que toma consciência da transcendência de outrem mas a nega em vez de respeitá-la
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A experiência de outrem é a de um encontro, reconhecendo
Sartre um cogito que concerne a outrem, uma consciência que me dá imediatamente a existência de outrem, sem que isso signifique abandono do ponto de vista da consciência, pois a separação entre outrem e mim permanece insuperável
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Que outrem remeta à minha consciência não significa que minha relação a ele seja da ordem do conhecimento, mas que ela é concernida por ele em seu próprio ser, sendo preciso encontrar, no cerne da consciência vivida, uma dimensão que a lance para a exterioridade de outrem
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É preciso distinguir uma negação interna de uma negação externa: outrem não é eu, mas isso não significa que repouse em si mesmo como substância separada de mim por distância infranqueável, sendo essa negação minha, que me pertence mesmo quando a sofro, dimensão da consciência
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Outrem é outro sujeito, e próprio do sujeito é estar situado diante do mundo, possuir objetos, razão pela qual outrem não pode aparecer diante de mim, produzindo-se minha experiência de outrem sob a forma de meu ser-objeto para ele, experiência de um olhar
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A descrição do nada como realidade cuja nadidade só se sustenta absorvendo-se num ser permanece abstrata, pois antes da aparição de outrem, o nada que sou e o ser que vejo formavam ainda uma esfera fechada
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A absorção do nada no Ser significa inscrição da consciência no Ser, não podendo o nada esquecer-se em proveito do Ser senão apoiando-se numa situação, sendo a aparição de outrem correlata do atolamento do nada no Ser, invés ativo de sua passividade fundamental
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A possibilidade desse escapamento é atestada pela experiência da vergonha, vergonha-de-si-diante-de-outrem, na qual sou revelado a mim mesmo como aquilo que sou aos olhos dele, experiência de meu ser total como comprometido na parte visível de mim mesmo
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A solução sartriana consiste em tomar consciência de uma das dimensões da experiência de outrem já apontadas por
Husserl, definindo o rapport com outrem pela experiência dessa objetivação, sem subordiná-la à apreensão efetiva de um alter ego
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A relação a outrem confunde-se com a experiência do para-outrem, nunca tendo a consciência a ver com o outro em pessoa mas apenas consigo mesma sob o modo de um eu não revelado que a lança para outro, aptidão que procede de sua caracterização como nada
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Sartre está, aqui também, ao mesmo tempo o mais próximo e o mais longe do que há a compreender: mais próximo por tomar consciência dessa ausência de outrem atestada na experiência que dela tenho, mais longe por fixá-la de maneira dogmática
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O fracasso do intelectualismo quanto a outrem repousava sobre sua apreensão no nível da essência, mas outrem não é apenas outro eu, exemplar da essência ego, é um eu que é outro, alteridade que
Sartre reconhece dessaisindo outrem de toda essência, caracterizando-o como negação ou ausência
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Essa ausência é, contudo, apreendida de maneira unívoca, concebida dogmaticamente, correspondendo a uma posição de sobrevoo que nega a transcendência do outro no momento mesmo em que é reconhecida, conforme a crítica ao agnosticismo sartriano que implica falar em nome de todos
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O intelectualismo recuava ao fundo do nada calando a pertença do pensador a um mundo humano, mas ao pensar essa pertença como ser-objetivado da consciência,
Sartre não faz mais que assumir e radicalizar a perspectiva intelectualista, mudando a negação absolutizada em posição
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Se determinar a invisibilidade de outrem como absoluta é empecilho à sua alteridade, essa invisibilidade só faz sentido na medida em que não é plenamente realizada, podendo outrem ser objeto de experiência que não seja apenas a de minha destruição
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A negação é aqui dogmatismo que encerra secretamente a afirmação absoluta dos opostos, sendo necessário que haja passagem de outrem em mim e de mim em outrem, para que eu e os outros não sejamos postos dogmaticamente como universos por princípio equivalentes
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Não se trata de partir de um para-si insular nem de sua negação na vergonha, mas de interrogar o fenômeno dessa ausência, forjando ideia do fenômeno conveniente à experiência atestada da transcendência de outra consciência
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Sartre reconstrói a experiência de outrem com maquete lógica incompreensível posta à prova da experiência, pois todo olhar dirigido a mim manifesta-se ligado à aparição de uma forma sensível mas não a nenhuma forma determinada, cabendo perguntar como outrem aparece de fato
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Não é porque percebo tal forma que acesso à existência de outrem, mas é na medida em que experimento vergonha que essa forma pode ser posta como manifestação de outrem no mundo, sendo esse corpo compreendido como corpo vivo
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Se a experiência de outrem fosse realmente independente da percepção de um objeto do mundo, em que sentido ainda se poderia falar de outrem, isto é, de experiência específica? Compreendida como vergonha, a experiência de outrem deixa de ser experiência de um outro e torna-se revelação de minha finitude
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Ou a experiência de outrem se confunde com o vivido da vergonha, e nada mais a qualifica como experiência de outrem, ou há verdadeira experiência dos outros que não se esgota no vivido de minha objetivação, sendo preciso que algo no olhar de outrem o sinalize como olhar de outrem, de modo que a existência de outrem é a verdade de minha vergonha, e não o inverso
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A fidelidade à experiência de que
Sartre dá prova converte-se em distância por ser fidelidade apenas a uma experiência, a do olhar, filosofia da visão que se realiza, no plano da experiência de outrem, como filosofia do olhar
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A dimensão de negação e conflito inerente ao vivido da vergonha representa apenas variante extrema de uma relação a outrem que pode ser também harmoniosa, neutra diante da alternativa entre conflito e harmonia
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Outrem não pode aparecer como objeto, mas não se segue que só seja acessível como olhar, como o juiz ou o Deus que me esmaga na poeira do mundo, encobrindo em
Sartre a fenomenologia de outrem uma psicologia fenomenológica, mesmo empírica
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Outrem só pode representar a negação de minha liberdade porque há primeiro uma corrente de comunicação, um ajustamento dos olhares um ao outro, dando a própria visão o que a reflexão jamais compreenderá: que o combate seja às vezes sem vencedor
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Precisamente porque outrem nunca aparece de frente para mim, também não posso estar de frente para ele, reduzido a objeto: outrem só se dá a mim lateralmente, envolve-me em vez de olhar-me, sendo o face a face apenas a modalidade mais radical, jamais completamente realizada, dessa lateralidade primeira
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Para
Sartre não há relação ao outro que não seja conflituosa, para
Merleau-Ponty ao contrário a contradição é sempre modalidade da comunicação, de uma harmonia originária que nenhum conflito pode romper absolutamente, sendo a relação aos outros profundamente mediatizada pela relação ao mundo
§ 4 A hiperdialética
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O exame da filosofia sartriana visa evidenciar a instabilidade e a ambiguidade fundamentais da dialética, que está ao mesmo tempo mais próxima de nossa inscrição no Ser, descobrindo cada termo como sua própria mediação, e traída no instante mesmo em que se formula
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A noção de mediação por si mesma que a dialética tematiza exclui que mediador e mediatizado sejam o mesmo em sentido de identidade, pois então não haveria mediação, movimento, transformação, mas também exclui que essa diferença se enuncie em termos de oposição, pois a negação absoluta aniquilaria tudo
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Assim que se formula, a filosofia dialética fixa o movimento nos termos de uma negação pura e o aboli ultrapassando-o rumo à positividade, situando-se ao mesmo tempo aquém e além da mediação, sendo o movimento perdido como tal assim que tematizado, pois é na realidade inatribuível
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Há identidade da identidade e da diferença, mas essa primeira identidade não é ela mesma identificável, não é identidade imediata tematizável, permanecendo essa identidade, em que o movimento se tematiza, ainda fragmentada pela identidade e a diferença que porém reúne
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A negação só é negação efetiva na medida em que permanece inacabada, sua verdade sendo não poder cindir-se daquilo de que é negação, sendo efetiva apenas se inatribuível, determinando um devir apenas por permanecer quase-identidade
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Para uma ontologia do interior não há que construir a transcendência, ela é primeiro, como Ser dobrado de nada, sendo o que há a explicar seu desdobramento, aliás jamais coisa feita, residindo a efetividade do movimento nesse desdobramento que nunca se realiza em dualidade
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É antes na noção de diferença do que na de negação que reside a verdade da dialética, sendo essa diferença não identidade em vez de oposição, permanecendo a identidade fechada sobre si mesma mesmo quando a negação a abre e cinde, diferença dos idênticos
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O movimento pelo qual o Ser acede a si mesmo a partir da negação é sinônimo do movimento pelo qual a negação nasce no Ser, sendo o Ser a possibilidade da negação apenas porque a negação é a possibilidade do Ser
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Ao descrever o movimento por meio de uma tematização da negação, a filosofia dialética ultrapassa o devir efetivo e reabsorve o movimento numa posição final, quando o próprio do movimento é contestar toda posição finita, realizando-se como identidade da posição e de seu ser-tornado
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Assim que se ergue em filosofia, tematizando o movimento, a filosofia dialética regride para uma ontologia predialética, a ontologia da filosofia reflexiva, residindo a verdade e o cumprimento da dialética na recusa de tematizá-la, sendo ela mesma apenas enquanto praticada em vez de formulada em tese
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A dialética caracteriza a situação do pensamento mais do que um objeto a pensar, tendo sentido apenas como consciência e não como filosofia, não sendo suscetível de ser dominada num enunciado mas designando antes o excesso do Ser sobre o enunciado, e a consciência desse excesso
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A má dialética começa quase com a dialética, e só há boa dialética a que se critica a si mesma e se supera como enunciado separado, só há boa dialética a hiperdialética, capaz de verdade por encarar sem restrição a pluralidade dos rapports e o que se chamou ambiguidade
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Essa hiperdialética, dialética sem síntese, não dissimula um retorno ao ceticismo nem se resume no reino do inefável, pois o que se rejeita não é a ideia de superação que reúne, mas a ideia de que ela desemboque num novo positivo, numa nova posição
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O reconhecimento da significação verdadeira da dialética passa pela crítica do que
Merleau-Ponty chama positivismo, a pretensão da reflexão de encerrar o Ser na fixidez da idealidade, pretensão que é também a de uma filosofia da negação pura
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A verdadeira dialética é apenas a consciência que o pensamento toma de si mesmo como pensamento inacabado, que não pode fazer seu próprio total e está englobado no Ser tanto quanto o engloba, sendo essa reflexão em contato com o Ser aproximada por
Merleau-Ponty da ideia de transcendência, ser por princípio à distância, com o qual não poderia haver coincidência