O desejo é apenas o esboço da expressão, articulação entre uma vida perceptiva e uma vida expressiva, na qual a cisão entre o eu e o outro permanece mantida, a apropriação de si pela mediação de outrem desembocando na experiência de um corpo onde finalmente se ausenta a consciência que se desejava fazer nascer, de modo que o desejo é caracterizado, como
Sartre já mostrara, pelo antagonismo e pelo fracasso
Psicanálise e fenomenologia
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As declarações de
Merleau-Ponty sobre o rapport entre psicanálise e fenomenologia convergem com a análise do desejo, o freudismo confirmando a fenomenologia em sua descrição de uma consciência que é antes investimento do que conhecimento, ao passo que a descoberta freudiana só ganha todo seu peso à luz da fenomenologia, que a libera do substancialismo da psicanálise nascente
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a citação da Prefácio ao livro do Doutor Hesnard sobre
Freud, segundo a qual o freudismo confirma a fenomenologia em sua descrição de uma consciência que não é tanto conhecimento quanto investimento
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a tributação de
Freud a uma concepção cartesiana da consciência, conduzindo a situar o que excede a representação fora dela, num lugar que, ainda psíquico, releva de uma energética
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a intenção verdadeira de
Freud, segundo
Merleau-Ponty, de mostrar que a sexualidade está em articulação com as outras dimensões da existência, todo fenômeno sexual tendo uma significação existencial
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o desejo compreendido não restritivamente como obra da sexualidade mas como busca do fora no dentro e do dentro no fora, poder global e universal de incorporação
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o sentido verdadeiro do inconsciente freudiano não residindo na atribuição de um lugar, mas confundindo-se com a abertura carnal que faz aparecer algo permanecendo na ignorância do que aparece
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a citação segundo a qual uma filosofia da carne se opõe às interpretações do inconsciente em termos de representações inconscientes, o inconsciente sendo o próprio sentir
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o inconsciente como punctum caecum da consciência, nível segundo o qual o mundo se desdobra, situado antes do lado do mundo do que no centro do psiquismo, a ser buscado diante de nós como articulação de nosso campo
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A análise freudiana do desejo evidencia o caráter originário da relação a outrem, sobre cujo fundo se estrutura a identidade psíquica através de identificações, mas, tributário de uma psicologia de inspiração cartesiana,
Freud não questiona a abordagem do psiquismo como entidade insular, o inconsciente freudiano permanecendo um conceito solipsista mesmo estando tramado pela rede das relações intersubjetivas
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a citação segundo a qual o inconsciente está entre as coisas como o intervalo das árvores entre as árvores ou como seu nível comum, sendo a Urgemeinschaftung de nossa vida intencional, o
Ineinander dos outros em nós e de nós neles
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Essa abordagem do inconsciente lança luz nova sobre temas centrais da psicanálise, o Visível e o invisível fornecendo os fundamentos dessa psicanálise ontológica que
Merleau-Ponty reclama contra a psicanálise existencial, excluindo-se qualquer determinismo causal dos efeitos do inconsciente
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a citação sobre a interpretação superficial do freudismo segundo a qual as fezes não são causa, o rapport com as fezes constituindo antes uma ontologia concreta na criança
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a impossibilidade de manter a oposição entre o normal e o patológico como reino da representação contra reino da pulsão, a patologia permanecendo um modo de configuração do mundo
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a citação segundo a qual as dimensões são as armaduras desse mundo invisível que, com a palavra, começa a impregnar as coisas que vemos, como o outro espaço, no esquizofrênico, toma posse do espaço sensorial e visível
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a possibilidade de restituir, nessa perspectiva, o sentido verdadeiro das associações inconscientes sobre as quais
Freud fazia repousar o trabalho da cura, seu poder associativo consistindo em retomar em cada termo o raio de mundo que o articula aos outros
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A carne pode ser caracterizada como desejo e a relação às coisas ou aos outros como acasalamento, desde que se entenda por desejo esse poder universal de incorporação, relação originária segundo a qual tudo o que pode se apresentar só se dá como ausente, carne oferecida a uma carne, cristalização de uma dimensão
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a citação segundo a qual a reforma da consciência faz com que as intencionalidades não objetivantes deixem de estar subordinadas ou dominantes, as estruturas da afetividade sendo constituintes tanto quanto as outras
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a impossibilidade de dar conta do desejo senão retomando-o além da alternativa entre a consciência fenomenológica e a libido freudiana, como momento de uma carne universal e de uma teleologia expressiva