É preciso distinguir dois corpos, não três, pois M.
Henry confunde a simultaneidade do esforço e do movimento, atestada pela refutação de
Hume, com uma identidade ontológica
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a força encontrando a resistência dentro de si mesma, mas como diferente de si, disjuntando M.
Henry o movimento como tal do corpo revelado na resistência
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a citação de
Merleau-Ponty reconhecendo em Biran a consciência de uma relação irredutível entre dois termos irredutíveis, antítese originária do sujeito e do termo sobre o qual portam suas iniciativas
O corpo e o ser-no-mundo
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O pressuposto dualista de M.
Henry está no centro da interrogação de
Merleau-Ponty, que desde A estrutura do comportamento visa compreender as relações da consciência e da natureza através do conceito neutro de comportamento
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a demarche reflexiva de M.
Henry equivalendo a uma redução que situa de saída na subjetividade constituinte, ao passo que
Merleau-Ponty aborda o problema pelo baixo, a partir da psicologia e da fisiologia
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Contra a hipótese de constância da fisiologia clássica, a psicologia da forma, sobretudo Goldstein, mostra que os estímulos agem em função de seu valor para o organismo, sendo a relação organismo-meio circular e não transitiva
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O corpo do animal testemunha uma intencionalidade não representativa, indissociável dos movimentos efetivos, o que se confirma pela convergência entre os resultados da ciência e nossa própria experiência vivida
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a citação segundo a qual só se pode compreender a função do corpo vivo realizando-a nós mesmos enquanto corpo que se ergue rumo ao mundo
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o fenômeno do membro fantasma escapando tanto à explicação estritamente orgânica quanto à estritamente psicológica, exigindo compreender como o corpo releva ao mesmo tempo da história pessoal e de uma causalidade em terceira pessoa
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O corpo é definido como potência de um certo mundo, veículo do ser-no-mundo, não sendo um objeto estendido mas testemunhando uma visada e certa interioridade sem se confundir com a res cogitans
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Só a definição da consciência como encarnada permite distinguir percepção e intelecção, deformando a análise intelectualista tanto o signo quanto a significação ao separá-los
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A interioridade que o corpo esboça não deve ser confundida com a coincidência pura do sujeito reflexivo, sendo antes adesão pré-pessoal à forma geral do mundo, existência anônima e geral
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a unidade do corpo próprio sendo prova de uma equivalência geral sem se apoiar na positividade de uma lei, comparável
Merleau-Ponty o corpo a uma obra de arte, nó de significações vivas
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A abertura de um mundo corresponde a uma realidade originária da qual sujeito e objeto são momentos abstratos, permitindo o ser-no-mundo compreender o fenômeno do membro fantasma e sua dependência de circunstâncias ontologicamente heterogêneas
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o orgânico não sendo senão uma existência adquirida, hábito primordial, retomando
Merleau-Ponty aqui as lições de Goldstein sobre psíquico e somático como expressões abstratas da totalidade orgânica
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Dizer eu sou meu corpo não significa que o ser do corpo se confunda com uma imanência radical, mas que o eu existe no modo do corpo, é encarnado, sendo o corpo o mediador de um mundo
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a consciência encarnada nunca sendo inteiramente um eu, escapando-se e se reencontrando apenas na periferia de si mesma, permanecendo o objeto puro apenas como horizonte infinito de um movimento de objetivação
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A consciência é também um eu posso, mas não porque o ser do movimento seja o do cogito, sendo o movimento antecipação assegurada pelo próprio corpo como potência motriz, praktognosia original e talvez originária
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A objeção de M.
Henry é que
Merleau-Ponty descreveria o acesso ao mundo pela intencionalidade motora sem nada dizer sobre o conhecimento do corpo conhecente, arriscando comprometer a aptidão do corpo a fazer parecer o mundo
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Sua unidade só pode ser pensada rigorosamente na perspectiva da temporalidade, sendo a consciência encarnada porque a síntese perceptiva é uma síntese temporal
A carne
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A análise do corpo na Fenomenologia da percepção permanece marcada por uma tensão, sendo o corpo definido como mediador de um mundo, o que dissolve sua especificidade ao pensá-lo a partir de outra coisa que não ele mesmo
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o corpo sendo referido a uma consciência, um eu natural, subjetividade impessoal ou pré-pessoal, complexo inato caracterizado negativamente por sua obscuridade
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a contradição na caracterização dessa consciência que não se fixa nem se conhece mas tampouco se emporta inteiramente, esboçando um movimento de objetivação sem tomar distância de seus noemas
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Uma reflexão rigorosa sobre o corpo próprio deveria renunciar à própria categoria de consciência, devendo o corpo ser reapreendido como negação da consciência ela mesma e não como negação interna a ela
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O visível e o invisível não representa tanto ruptura quanto realização das descrições da Fenomenologia da percepção, explicitando
Merleau-Ponty que os problemas ali colocados são insolúveis por partirem da distinção consciência-objeto
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o reconhecimento de que o corpo não é fato empírico mas tem significação ontológica correspondendo ao aprofundamento do sentido da fenomenologia husserliana
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a citação dos Ideen II segundo a qual um espírito real, por essência, só pode estar ligado à materialidade, devendo nossa experiência do corpo próprio ser reapreendida aquém da bifurcação entre natureza e espírito
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Merleau-Ponty retoma a intrincação entre percepção e movimento, testemunhando a orientação e acomodação do olhar uma previsão do visível, uma visão antes da visão
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A experiência do tato confirma essa situação, mostrando
Husserl que a constituição do corpo próprio se efetua no nível tátil, não podendo o sentimento do esforço por si só revelar um corpo próprio
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a citação husserliana sobre as sensações de movimento só devendo sua localização ao entrelaçamento com sensações localizadas primariamente pelo tato
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o exemplo da mão direita tocando a mão esquerda, que se torna carne e sente, não se tratando de enriquecimento da coisa física mas de sua transformação em carne
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o comentário de Ricœur segundo o qual não se trata de proteger uma experiência existencial da consciência encarnada, mas de atribuir sensações ao corpo conhecido como coisa
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Essa reversibilidade não significa que se acrescente uma subjetividade à coisa física, mas que a distinção entre sujeito e objeto se embaralha em meu corpo, sendo a carne o sensível no duplo sentido do que se sente e do que sente
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O sujeito tocante desce nas coisas, fazendo-se o toque a partir do meio do mundo, pertencendo ao mundo que ele faz aparecer taticamente
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No texto sobre a Terra que não se move,
Husserl revela um sentido da Terra mais profundo que o de um planeta em movimento, sendo ela o solo, o berço originário em relação ao qual repouso e movimento fazem sentido
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a citação segundo a qual a Terra é um todo cujas partes são corpos mas que, como todo, não é um corpo, havendo parentesco entre o ser da terra e o de meu corpo
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minha carne sendo um aqui absoluto que não pode ser convertido em lá, sendo suas partes que podem ocupar um lugar porque ela mesma é situação
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A continuidade ontológica do corpo e do mundo prevalece sobre sua diferença, sendo a encarnação esse Fato absoluto, advento do aqui, a partir do qual a própria distinção entre corpo e mundo pode fazer sentido
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Pode-se dizer que o próprio espaço se sabe através de meu corpo, havendo um rapport a si mesmo do visível que me atravessa e me constitui vidente
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o corpo sendo um único corpo em suas duas fases, senciente e sentida, não podendo o sentir que advém no seio do corpo ser distinguido do advento de um mundo sentido
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a fórmula tornar-se natureza do homem que é o tornar-se homem da natureza, superando-se toda cisão entre sujeito e objeto em favor de um entrelaçamento mais originário
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Há inserção do mundo entre os dois folhetos de meu corpo e inserção de meu corpo entre os dois folhetos de cada coisa e do mundo, sendo o corpo esse tecido que ao mesmo tempo conjuga e dis-junga o Ser e os fenômenos
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A decisão do último
Merleau-Ponty consiste em partir do corpo próprio sem pressupostos, assumindo seus traços aparentemente incompatíveis para revelar a significação ontológica dessa experiência, chamada carne
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a citação segundo a qual nosso corpo comanda para nós o visível sem explicá-lo, concentrando o mistério de sua visibilidade esparsa, tratando-se de um paradoxo do Ser e não do homem
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a citação segundo a qual a carne do mundo é Ser-visto, eminentemente percipi, sendo por ela que se pode compreender o percipere
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a carne sendo qualidade prenhe de uma textura, superfície de uma profundidade, corte sobre um ser maciço, diferença dos idênticos ou identidade na diferença
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Como nota Patočka, o fenômeno do corpo próprio ilustra bem o método fenomenológico, jamais tendo a tradição metafísica conseguido tematizar o corpo vivido, experimentado e experimentante
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O corpo não é nem momento da subjetividade, nem coisa à superfície do mundo, nem união dos dois, mas a própria dimensão do pertencimento que porta em sua profundidade o destino inteiro da fenomenalização
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sendo mais íntimo a si mesmo do que o é o de fora do mundo, sendo percipere e não apenas percipi, o corpo é, em seu sentido mais originário, corpo do espírito