Tais conclusões, se plenamente aceitas, desestabilizam a filosofia de
Husserl ao enraizar a transcendentalidade numa facticidade irredutível, sendo o transcendental mais antigo que si mesmo e a vida a expressão desse atraso originário
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Husserl, contudo, não assume essas consequências, concebendo a intencionalidade pulsional como suscetível de retomada numa atividade voluntária, reinscrevendo a facticidade no horizonte teleológico de sua pesquisa
O alcance da descoberta do desejo como forma originária da intencionalidade não se limita a questionar o objetivismo husserliano, permitindo antes conceber a continuidade entre viver e conhecer
A questão do ser do sujeito intramundano remete a uma negatividade específica correspondente à distância constitutiva em relação ao mundo, dinâmica fundamental que dá conta dos movimentos vivos constitutivos da percepção
A tradição estabelecida por Goldstein tomou como ponto de partida o reconhecimento da especificidade do sujeito vivo, caracterizado pelo fato de existir como totalidade, um comportamento específico só fazendo sentido em relação ao conjunto orgânico
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o meio ambiente sendo constituído pelo próprio organismo, que desdobra seu mundo no movimento mesmo pelo qual avança em direção aos estímulos que este contém
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a lei biológica fundamental de Goldstein, segundo a qual a possibilidade de se afirmar no mundo preservando sua singularidade está ligada a um certo debate entre o organismo e o mundo circundante
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a citação de Goldstein segundo a qual se chama consciência um modo de comportamento determinado do ser humano, não havendo um receptáculo com conteúdos determinados
Erwin Straus mostra que a percepção nunca é referida ao seu sujeito efetivo, o ser humano vivo, inscrevendo a experiência perceptiva na existência vital que caracteriza o sujeito perceptivo
Para chegar ao que caracteriza o sujeito vivo é preciso ultrapassar o nível do indivíduo, respeitando o princípio de que o mais perfeito nunca se compreende a partir do menos perfeito, mas o contrário
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a citação de Goldstein segundo a qual cada criatura exprime ao mesmo tempo uma perfeição e uma imperfeição, sendo o organismo dotado de perfeição relativa
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a separação do indivíduo em relação à totalidade sendo correlativa de sua individualidade, essa separação sendo em princípio insuperável
O organismo é o único ser que existe no modo da incompletude, podendo ser apenas permanecendo separado de si mesmo, excluído de sua própria essência, sendo o cumprimento dessa perfeição, para o sujeito vivo, sinônimo de sua desaparição
O sujeito vivo é um ser cujo ser consiste em estar em relação a uma totalidade originária, o todo do ser de Goldstein, mas de tal modo que nessa relação a totalidade sempre desaparece, sendo a falta de ser do sujeito vivo e a negação constitutiva da totalidade mutuamente opostas
Segue-se dessa análise que o sujeito vivo é essencialmente desejo, o desejo não sendo forma derivada ou sublimada da necessidade, mas nomeando o próprio modo de existir do sujeito vivo como inconsistência essencial
Toda experiência é prova de um limite no sentido em que dentro do limite se manifesta a possibilidade de sua superação, nascendo conjuntamente dentro do limite tanto o mundo quanto o que o nega
A solução consiste em conceber a determinação do percebido como negação, compreendendo-o como limitação de uma totalidade prévia e a percepção como modalidade de uma relação mais originária
É porque é sujeito do desejo, ou antes desejo como sujeito, que o sujeito vivo é capaz de percepção, desdobrando num único ato o percebido determinado e a totalidade, a negação e o que ela nega
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Von Weizsäcker exprimindo bem isso ao afirmar que perceber é fundamentalmente sempre passar a outra coisa
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o percebido sendo o superado, mas o movimento de superação permanecendo ainda retido nas manifestações perceptivas, sendo esse movimento que Straus caracteriza pelo conceito de aproximação
Ao caracterizar o sujeito da aparição como vivo e seu modo de existir como desejo, satisfazem-se as condições da aparição estabelecidas anteriormente, sendo o desejo o que relaciona a manifestação finita e a co-manifestação do mundo que ela pressupõe
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dizer que a percepção é desejo equivalendo a dizer que todo ser só aparece como manifestação de um aparecente último que ele mesmo nunca aparece
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a doação por escorços encontrando aqui seu verdadeiro fundamento, o desejo abrindo a profundidade do mundo ao mesmo tempo que essa profundidade permanece dissimulada na manifestação
O desejo nomeia essa negatividade concreta correspondente ao sentido de ser do mundo como identidade imediata do negativo e do positivo, sendo tal a verdadeira significação do quiasma pelo qual
Merleau-Ponty definiu em última análise a fenomenalidade
Essa determinação da fenomenalidade conduz a uma teoria renovada da ipseidade, da dualidade psicofísica e do inconsciente, a autoafecção que caracteriza o sujeito só tendo sentido e realidade como heteroafecção
O inconsciente, enraizado no desejo, tem como conteúdo não mais a representação mas o próprio mundo, estando diante de nós e não em nós, correspondendo a essa totalidade não totalizável que cada percepção simultaneamente atualiza e perde
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a relação do inconsciente ao recalque vista sob nova luz, sendo o recalque inerente ao próprio desejo e não devido a um processo exterior a ele, a outra cena que define o inconsciente não sendo senão a cena do mundo