ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]
* A irreflexão como impossibilidade de ver e sondar raízes e motivos do MAL em um agente banal e superficial, observado no julgamento de Eichmann em Jerusalém e contrastado com a tradição que imagina o MAL como demoníaco, invejoso, fraco ou movido por ódio e cobiça, expõe uma visibilidade factual de atos monstruosos sem correspondente profundidade motivacional e mostra a função social de clichês e códigos padronizados como proteção contra a exigência de atenção do pensamento aos fatos existentes, distinguindo Eichmann por nunca reconhecer tal exigência [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
* A ligação entre ausência de pensamento e a possibilidade de fazer o MAL formula-se como questão sobre uma faculdade de distinguir certo e errado conectada ao pensar, recusando a identificação do bem com ensino de virtude e situando moral e ética no domínio de mores e ethos como hábitos desaprendíveis, enquanto a irreflexão aparece como fenômeno não reduzível a esquecimento de boas maneiras, estupidez ou “insanidade moral” e visível também fora de decisões éticas [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
* A atividade do pensamento como hábito de examinar o que acontece, independentemente de resultados e conteúdos, apresenta-se como condição possível para abstenção do MAL e como base semântica da consciência entendida como saber consigo e por si mesmo, reforçada pela assimetria em que “boa consciência” aparece como atributo apreciado por criminosos enquanto “pessoas boas” carregam má consciência, levando ao exame de legitimidade de um conceito sob linguagem kantiana de quaestio juris [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
* O julgamento de Eichmann como gatilho do tema e as questões morais oriundas de experiência real que chocam com respostas tradicionais de ética e com respostas filosóficas para “o que é o pensar?” reativam dúvidas ligadas ao estudo sobre a vita activa, cujo próprio termo, adotado para tratar da Ação, foi cunhado por homens de vida contemplativa que julgavam os modos de vida desde esse ponto de vista [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar Introdução].
* O pensamento, dependente do discurso para tornar-se manifesto e até para ativar-se, entra em tensão com a metáfora da visão ao não poder culminar em intuição autoevidente contemplativa, tornando a “verdade” buscada inefável e fugidia porque palavras não se fixam na imobilidade de um objeto contemplado, conforme a descrição de Bergson sobre filósofos que veem o objeto ao alcance escapar e a imagem do significado como algo que “foge” quando se tenta vê-lo e capturá-lo [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 13].
* O espanto admirativo como início da filosofia exclui a existência factual de desarmonia, feiura e MAL e explica a ausência do tema do MAL em Platão, salvo a inquietação do Parmênides diante de coisas hediondas e “objetos corriqueiros e baixos” como cabelo, lama e sujeira, cujo estatuto não recebe Ideias em Sócrates e leva ao recuo por medo de contrassensos, enquanto Parmênides indica que a juventude de Sócrates e o cuidado com o que o mundo pensa impedem o enfrentamento pleno, restando a doutrina das Ideias vinculada à beleza como condição de surgimento da noção de Ideia [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 15].
* A tradição de consolação filosófica que culmina em Epiteto e se intensifica no fim do Império Romano aparece em Boécio, preso e à espera de execução, cuja Consolação da Filosofia desloca a relativização ciceroniana para aniquilação violenta da realidade por “imensos espaços de eternidade” e pela Fortuna, introduzindo a questão do MAL ao negar sua existência última por falta de causa final em Deus-bem supremo e por reduzir o MAL a ilusão sensível dissolúvel pelo pensamento, de modo que o pensamento torna irreal e atua como ação sobre si mesmo quando todo agir externo se torna fútil [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 16].
* O pensamento como vento invisível que se manifesta em conceitos e valores possui a peculiaridade de varrer suas próprias manifestações anteriores, desfazendo o que a linguagem congelou em pensamentos-palavras e produzindo um efeito corrosivo sobre critérios estabelecidos de bem e MAL, deixando perplexidades partilháveis como melhor resultado quando o sono do uso automático de conceitos é sacudido [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 17].
* A busca de significado como Eros socrático define o pensamento como amor desejante ao que falta, orientando-o a objetos dignos de amor como beleza, sabedoria e justiça e excluindo MAL e feiura como deficiências sem raízes próprias, de modo que conceitos negativos dissolvem-se até o nada para o ego pensante, sustentando a tese de que ninguém faz o MAL voluntariamente e reforçando em Demócrito o conselho de silenciar sobre maus atos para reduzir o MAL a semblância sem sombra, com exclusão semelhante do MAL no espanto afirmativo de Platão e em quase toda a filosofia ocidental [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 17].
* A conexão entre ausência de pensamento e MAL conduz à ideia de que apenas os inspirados por eros, as “naturezas nobres” de Platão, seriam confiáveis e incapazes de fazer o MAL voluntariamente, mas o MAL costuma ser praticado por quem nunca decidiu fazer bem ou MAL, exigindo localizar qualquer poder impeditivo do pensamento em uma propriedade inerente à atividade e não em seus objetos supostamente visíveis e inefáveis aos olhos da mente treinada [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18].
* As afirmações positivas de Sócrates em Górgias emergem em um diálogo sobre retórica que permanece aporético e termina em mitos politicamente dirigidos à multidão, revelando em Platão o reconhecimento de que homens cometem atos maus voluntariamente e a ausência de tratamento filosófico satisfatório desse fato, com preferência platônica por ameaças apesar da incerteza sobre ignorância e ensino de virtude [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18].
* As duas sentenças de Sócrates — preferir sofrer o MAL a cometê-lo e preferir discordância com multidões a discordância consigo mesmo — introduzem o paradoxo do eu dividido e recebem de Cálicles a defesa do padrão grego que despreza sofrer o MAL como condição de escravo e acusa Sócrates de loucura eloquente, ligando a segunda sentença ao núcleo do “sendo um” frequentemente omitido e à diferença entre eus para os quais o mesmo evento é bem ou mal [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18].
* A perspectiva do mundo e da cidadania desloca o foco do agente e da vítima para o fato de o MAL ter sido feito e para a injúria à cidade, justificando códigos legais que distinguem crimes de interesse público de transgressões privadas e impõem punição independentemente do perdão da vítima, porque a comunidade como um todo foi violada [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18].
* A fala socrática como fala do homem devotado ao pensamento, e não do cidadão, vincula a preferência por sofrer o MAL à condição de um mundo dividido entre fortes e fracos e ao pressuposto de eros pela sabedoria e pelo investigar, retomando Tucídides sobre fortes que fazem o que podem e fracos que sofrem o que têm de sofrer [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18].
* A visão grega pré-filosófica que exalta a grandeza do extraordinário para o bem ou para o MAL convive com o tempo cíclico enquanto pano de fundo homérico e antecede a descoberta filosófica da perenidade do Ser, sendo rastreável em Aristóteles ao tratar de eudaimonia em termos de altos e baixos recorrentes e de atividades excelentes em torno das quais o esquecimento não cresce [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1].
* A filosofia cristã enfraquece a recusa de reconhecer a Vontade como faculdade distinta ao abandonar a recorrência cíclica e adotar tempo retilíneo baseado em acontecimentos únicos entre Adão e Cristo, ligando a preparação para a vida futura à descoberta da Vontade e de sua Liberdade em Paulo e distinguindo um fim biográfico necessário de um futuro pessoal além da morte [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1].
* A recusa cartesiana de duvidar da liberdade experimentada interiormente afirma a evidência vivida da Vontade sem compreensão plena e contrasta a ascendência do cogito sobre o volo me velle em ambiente de teorias que negam ou enfraquecem a liberdade por especulações sem apelo à experiência, enquanto a ligação entre vontade livre e problema do MAL reaparece em Agostinho ao abrir De libero arbitrio voluntatis com a pergunta se Deus é autor do MAL e em Paulo ao formular a questão da causa do MAL em sua complexidade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 4].
* A dificuldade filosófica diante do MAL produz estratégias que negam sua realidade, o reduzem a deficiência do bem ou a ilusão de ótica dependente de um todo justificante, frequentemente apoiadas na tese hegeliana de que apenas o todo tem realidade própria, enquanto o MAL, como a liberdade, é classificado por Duns Scotus entre coisas quase incognoscíveis mesmo para espíritos inventivos [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 4].
* O insight antiplatônico de Aristóteles de que a razão por si só não move coisa alguma conduz à pergunta sobre o que origina movimento na alma e à análise da incontinência em que desejos desobedecem à razão, preparando a distinção posterior entre vontade e inclinação e ilustrando em Mestre Eckhart a separação entre inclinação para pecar e vontade de pecar, onde a vontade do MAL pode ser julgada tão grave quanto matar sem ação externa [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 7].
* A descoberta paulina de um dois-em-um em luta permanente mostra que o querer o correto coincide com o MAL à mão e que a lei, ao ordenar “Não cobiçarás”, desperta concupiscência, fazendo do pecado algo morto sem lei e tornando a visibilidade do MAL dependente do comando legal [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8].
* O conflito entre velle e nolle torna o resultado dependente de um ato e exclui persuasão típica do conflito razão-desejos, aproximando Romanos 7:19 de Ovídio e Eurípides e distinguindo Aristóteles por ver autocontradição na escolha do pior, enquanto a atribuição do fenômeno à livre escolha da Vontade permanece ausente em Eurípides, Ovídio e Aristóteles [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8].
* A consciência paulina do risco de concluir “façamos o MAL para que venha o bem” e o obstáculo filosófico de conciliar Deus onisciente e onipotente com a “monstruosidade” da Vontade articulam-se em Romanos 9:19 sobre resistir à vontade divina, enquanto a formação de Paulo como cidadão romano e conhecedor de pensamento grego não impede a permanência de uma resposta marcada por continuidade judaica [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8].
* A interioridade descrita em termos de incitações da Vontade contrasta Paulo, para quem a Vontade é impotente, e Epiteto, para quem é todo-poderosa, definindo bem e MAL na vontade e removendo-os do que não está sob seu controle, com interesse especial na ausência de suportes metafísicos estoicos tradicionais como a bondade intrínseca da natureza [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
* A terapia estoica de Epiteto desloca o medo da morte e da dor para o medo interior e propõe eliminar impressões aterradoras para evitar o que se pensa de MAL, convertendo o pensamento em técnica de desativação afetiva que opera sobre lembranças e impressões [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
* A doutrina estoica de apatheia como invulnerabilidade e indiferença à realidade para bem ou MAL é refutada por Agostinho ao denunciá-la como truque de desejar o possível e ao mostrar a contradição entre desejo natural de felicidade e ausência de crença em ressurreição corporal, concluindo que mortais não podem ser felizes e que o máximo é tornar-se indiferente à vida e à morte [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
* A ética epictetiana funda a conduta correta no consentimento da vontade consigo mesma e define a única força capaz de obstruir esse consentimento como a própria vontade, reforçando um dois-em-um volitivo em luta permanente e uma vigilância de si contra si como contra inimigo, com base na ideia de deus interior e na distância histórica em relação ao insight aristotélico sobre amizade consigo como matriz da amizade com outros [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9].
* A investigação agostiniana da causa do MAL em De libero arbitrio voluntatis parte do princípio de que o MAL necessita de causa e de que Deus é bom e não pode causá-lo, relata tormento juvenil e desvio maniqueísta, conduz a um diálogo argumentativo que culmina na dúvida sobre o livre-arbítrio como condição do pecado e no adiamento da resposta, retomando depois o tema como propósito da Vontade e propósito do homem [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
* A interpretação agostiniana da doutrina da graça enfrenta a inferência “façamos o MAL para que o bem frutifique” ao descrever uma estrutura da alegria em que reencontro e recuperação intensificam gozo após dor e perigo, estendendo o modus de alegria e dor do anjo ao verme e até à alegria divina por pecador arrependido, tornando visível um padrão universal válido para coisas vis e nobres, mortais e divinas [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
* A ontologia agostiniana do Ser sustenta que estar vivo implica desejar continuar vivo e que a infelicidade diminui o grau de existência ao afastar do quod summe est, tornando verdadeiro o temor da morte contra a opinião de querer não existir e concluindo que tudo o que é é bom inclusive MAL e pecado por não permitir querer a não-existência absoluta, sem exigir a submissão eckhartiana de querer o pecado se Deus o quis [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
* A crítica agostiniana ao maniqueísmo amplia o conflito para múltiplas vontades em luta dentro do ego volitivo, mostrando decisões banais e criminosas como circos, teatro, roubo e adultério em simultaneidade impossível e concluindo que vontades más e boas podem igualmente dilacerar o eu quando os objetos são incompatíveis no tempo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10].
* A diferença entre escritos monásticos e a reflexão agostiniana situa-se na relação íntima desta com experiências pessoais descritas em detalhe e na ausência de apelos eruditos a autoridades mesmo ao tratar de origem do MAL, contrastando uma história das ideias dependente de monastérios com uma filosofia enraizada em vivências [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 11].
* A conceituação tomista torna o bem e o Ser conversíveis em pensamento e idênticos realiter, definindo o MAL como falta de plenitude de Ser e como privação essencial, exemplificada pela cegueira como privação da visão, distinguindo ausência negativa não-má e negando a possibilidade de MAL radical por impossibilidade de ausência total de bem, pois um MAL pleno destruiria a si mesmo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 11].
* A tradição da privação do MAL antecede Tomás em Aristóteles e persiste como argumento contra realidade do MAL ao explicar que o bem do fogo causa MAL à água por acidente, enquanto a coerência dessa tese cresce em Tomás porque o Ser é seu primeiro princípio e porque atribuir a Deus a criação do MAL equivaleria, como observa Gilson, a dizer que Deus criou o nada, mantendo mesmo Kant cético quanto a inferir vilania da ausência de amor e deixando em aberto a escolha volitiva entre querer e não-querer [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 11].
* A posição de Scotus sustenta que a Vontade pode suspender inclinações naturais e até descartar a felicidade como projeto, admitindo apenas que ninguém quer ser desgraçado, e evita resposta definitiva sobre ódio a Deus por sua ligação com o MAL, negando em geral que o homem queira o MAL como MAL mas reconhecendo passagens que sugerem a possibilidade oposta [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12].
* A distinção scotista entre vontade natural ut natura e vontade livre ut libera descreve a primeira como gravidade que segue conveniência e tornaria o homem um bonum animal, enquanto a vontade livre designa fins por si mesmos e produz seu próprio ato, mas deixa indeterminado qual é o ato livremente designado, mantendo em aberto a descrição plena dessa atividade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12].
* A impossibilidade de a Vontade querer retroativamente e parar a roda do tempo fundamenta em Nietzsche uma genealogia do MAL que deriva rancor, vingança, punição e sede de poder da impotência diante do passado, ao mesmo tempo em que o olhar retrospectivo do pensamento faz o ocorrido parecer necessário e o repúdio da Vontade alivia uma responsabilidade intolerável, motivando experimentos com o Eterno Retorno [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14].