4 Si mesmo e outros

AHO, Kevin. Existentialism: an introduction. 2ed. Cambridge, UK ; Medford, MA: Polity, 2020.

O problema da substância

1. Desde os gregos, grande parte da filosofia adotou uma ontologia da substância segundo a qual os entes devem ser compreendidos a partir de uma essência ou propriedade permanente que subsiste através das mudanças, concepção que assume diferentes formas em Platão, Descartes e no naturalismo contemporâneo, mas que se torna problemática quando aplicada ao ser humano, cuja identidade não é previamente dada, pois se constitui mediante escolhas e ações capazes de conferir sentido à própria existência.

2. A existência humana diferencia-se fundamentalmente da existência dos demais entes naturais porque o ser humano não é uma coisa objetivamente presente nem possui uma natureza previamente determinada, mas se constitui continuamente pelas escolhas e ações mediante as quais cria, modifica e projeta sua própria identidade.

3. A ontologia da substância tende também a conceber o eu como mente ou vontade encapsulada, separada dos objetos, enquanto o existencialismo sustenta que a existência cotidiana já se encontra vinculada a situações significativas e que não existe uma esfera mental independente destacada do mundo exterior, pois somente no mundo se torna possível conhecer a si mesmo.

4. A concepção existencialista do eu dissolve ainda o dualismo cartesiano entre mente e corpo, no qual a mente aparece como sujeito soberano de crenças, pensamentos e percepções, enquanto o corpo é reduzido a organismo físico governado por leis causais e utilizado instrumentalmente pela mente para realizar suas intenções.

5. Quando se está absorvido nas práticas cotidianas, porém, o corpo não é encontrado objetivamente como máquina física, pois ao dirigir, beber café, digitar ou conversar ele se torna transparentemente integrado à situação, funcionando como capacidade pré-reflexiva de mover-se, agir e sintonizar-se afetivamente com os outros.

Corporeidade

1. As concepções existencialistas de corporeidade do século XX dependem amplamente da distinção husserliana entre Körper, o corpo físico quantificável, e Leib, o corpo vivido, distinção que separa o organismo considerado como objeto espacial da experiência corporal tal como é vivida em primeira pessoa.

2. Na concepção cartesiana, corpo significa aquilo que pode ser delimitado por uma forma, ocupar determinado lugar, preencher um espaço excluindo outros corpos e sofrer diferentes movimentos produzidos por causas externas.

3. Embora todo objeto físico possa ser considerado um Körper, essa definição não esclarece como o próprio corpo é vivido, sentido e experimentado, aspecto expresso por Leib, termo relacionado etimologicamente à vida e à experiência vivida.

4. Dizer que se é o próprio corpo significa que pensamentos, percepções, sentimentos e experiências são sempre situados e perspectivísticos, constituindo-se no mundo por meio da corporeidade.

O eu como tensão

1. O eu não é uma coisa, mas uma forma de agência corporal constituída por escolhas e ações significativas, concepção que recebe forte influência da distinção kantiana entre compreender o comportamento humano causalmente, como fenômeno natural determinado, ou moralmente, como ação de um agente livre e responsável.

2. O ser humano não responde sempre mecanicamente às necessidades e desejos imediatos porque, enquanto ser-para-si (être-pour-soi), pode avaliar seus próprios impulsos, relacionar-se reflexivamente com eles e considerar como sua realização participa da formação de determinada identidade.

3. Sem a capacidade de formar volições de segunda ordem, não haveria propriamente pessoa ou eu, mas aquilo que Frankfurt denomina wanton, alguém conduzido pelos desejos mais fortes sem se preocupar em avaliar se deseja realmente agir de acordo com eles.

4. Mersault, personagem de O estrangeiro, pode ser compreendido como uma figura próxima do wanton de Frankfurt, pois, embora seja consciente de si, parece agir segundo o impulso sensorial momentaneamente mais forte, sem avaliar se deseja efetivamente transformar esses impulsos em princípios de ação.

5. O eu é constituído temporalmente, mas o tempo existencial não deve ser compreendido como quantidade externa mensurável, acumulável ou desperdiçável, pois não simplesmente se possui tempo: vive-se temporalmente e é-se temporal.

6. A compreensão existencialista do eu como atividade contínua de autointerpretação influenciou amplamente a filosofia anglófona, as humanidades e as ciências sociais ao oferecer uma alternativa às concepções substancialistas e reducionistas herdadas da modernidade.

7. A concepção narrativa do eu foi desenvolvida por diversos filósofos anglófonos, mas Charles Taylor desempenhou papel decisivo ao formular o ser humano como animal autointerpretativo que cria a si mesmo mediante narrativas acerca de quem é e do que importa em sua vida.

8. A capacidade de conduzir uma vida por escolhas avaliativas entra frequentemente em conflito com a tendência persistente à conformidade com normas e expectativas públicas, pois, em vez de assumir posição diante da própria situação e construir uma narrativa própria, é possível simplesmente seguir a vida que os outros vivem.

9. Na cotidianidade, tende-se a desfrutar, ler, julgar, rejeitar e considerar escandalosas as mesmas coisas que os outros, de modo que o impessoal prescreve antecipadamente os modos ordinários de comportamento e compreensão.

10. Na vida cotidiana, portanto, frequentemente não se age como indivíduo autônomo em processo de autocriação, mas segundo padrões coletivos que afastam daquilo que efetivamente importa, tornando necessário reconciliar qualquer concepção narrativa da identidade com a tendência persistente de conformar-se ao impessoal.

Conformismo e autoengano

1. Em A época presente, Kierkegaard descreve a dificuldade de criar a si mesmo quando já se está imerso nas normas confortáveis e estáveis do público, que prescrevem aquilo que deve ser feito, acreditado e valorizado e aliviam o indivíduo do peso de assumir compromissos que definiriam singularmente sua existência.

2. Em A morte de Ivan Ilitch, Tolstói apresenta uma existência marcada por conformismo superficial, na qual carreira, casamento, filhos e organização da casa são determinados pela aprovação do círculo social e pelos padrões impessoais seguidos por todos.

3. Diante da proximidade da morte, Ivan Ilitch começa a suspeitar que sua vida possa ter sido absurda e vivida de maneira inadequada, embora tenha seguido corretamente todas as expectativas sociais, revelando a distância entre conformidade pública e apropriação singular da própria existência.

4. Por ter permanecido absorvida no impessoal e desconhecido aquilo que realmente lhe importava, a vida de Ivan Ilitch torna-se simultaneamente simples, ordinária e, precisamente por isso, aterradora.

5. Nietzsche também denuncia a superficialidade autoenganadora da vida pública e valoriza a capacidade de criar a própria existência independentemente do rebanho, pois a massificação reduz diferenças singulares a um denominador comum e enfraquece a expressão criativa necessária para tornar-se aquilo que se é.

6. Na crítica nietzschiana à mentalidade de rebanho, a grandeza associa-se à capacidade de sustentar diferença, independência e solidão diante das normas coletivas, recusando que a identidade seja inteiramente determinada pelos valores predominantes da massa.

7. Para Nietzsche, indivíduos capazes de criar a si mesmos podem ultrapassar a homogeneização promovida pela cultura de massa, enquanto valores igualitários modernos, mídia, publicidade, entretenimento, produção mecanizada e consumismo favorecem a formação do homem-massa descrito posteriormente por Ortega y Gasset, que se sente igual a todos e encontra satisfação nessa uniformidade.

8. Heidegger desenvolve essa problemática ao mostrar que a absorção no mundo público exerce uma função tranquilizadora, produzindo a impressão reconfortante de que tudo está em ordem quando simplesmente se faz aquilo que o impessoal prescreve.

9. Em Sartre, a análise da alienação e do autoengano assume forma mais conflituosa na concepção do ser-para-outro (l’être-pour-autrui), segundo a qual a consciência de si depende do olhar (le regard) do outro, que transforma o sujeito em ser-em-si, isto é, em objeto determinado.

10. O conflito torna-se ainda mais complexo porque frequentemente se participa ativamente da própria desumanização, aceitando identidades fixas tanto pela segurança que oferecem quanto pela possibilidade de evitar responsabilidade pelas próprias escolhas, processo que Sartre denomina má-fé (mauvaise foi).

11. Embora algumas análises existencialistas enfatizem conflito, alienação e autoengano nas relações humanas, existencialistas religiosos como Marcel, Buber e Dostoiévski defendem possibilidades mais profundas de comunhão e intimidade que permanecem encobertas pelas estruturas individualistas da sociedade moderna.

12. Apesar das divergências acerca das possibilidades do ser-com-os-outros, converge-se na compreensão de que conformismo e autoengano tendem a ocultar a luta pela autocriação, pois assumir passivamente identidades prontas fornecidas pelo mundo público produz alienação e inautenticidade, tornando as questões da liberdade e da autenticidade centrais para a investigação existencialista.