AHO, Kevin. Existentialism: an introduction. 2ed. Cambridge, UK ; Medford, MA: Polity, 2020.
Ser-em
1. A rejeição existencialista do distanciamento e da objetividade decorre de sua incapacidade de apreender as necessidades e os compromissos situados que importam à existência individual, pois a busca de uma perspectiva da eternidade abandona os significados concretos que constituem a vida e obscurece o fato de que já se está inserido e envolvido em um mundo compartilhado.
-
Ser-em não significa inclusão espacial de uma coisa dentro de um recipiente, mas o modo concreto pelo qual alguém se encontra envolvido em práticas e atividades significativas.
-
Estar em sala de aula como professor significa participar das práticas que constituem o mundo acadêmico, como lecionar, avaliar trabalhos, atender estudantes e responder a mensagens.
-
O ser-em não é uma propriedade acidental que possa ou não pertencer ao ser humano, mas uma determinação constitutiva de sua existência.
-
Mundo não designa um recipiente espacial nem a totalidade dos objetos existentes, mas o âmbito público e significativo no qual se vive.
2. Por constituir a própria existência humana, o ser-em mostra que não se é uma mente desinteressada contemplando o mundo de fora, mas alguém sempre já envolvido em uma situação concreta, manejando instrumentos, realizando tarefas, relacionando-se com outros e inserindo-se em significados e valores socio-históricos que condicionam a compreensão das coisas e de si mesmo, permitindo ao existencialismo desmontar diversos dualismos tradicionais mediante as concepções de ser-no-mundo desenvolvidas particularmente por Heidegger e Merleau-Ponty.
Desfazendo dualismos
1. Ao conferir primazia ao ser-no-mundo, o existencialismo contesta o modelo sujeito–objeto característico de grande parte da filosofia moderna, segundo o qual o ser humano seria um sujeito encerrado na mente e precisaria determinar se suas percepções e ideias internas representam adequadamente objetos externos.
-
O modelo representacional origina a dúvida cética acerca da possibilidade de conhecer com certeza qualquer realidade exterior à consciência.
-
A separação entre fenômenos mentais e físicos conduz às posições concorrentes do realismo e do idealismo.
-
O realismo afirma a existência de um mundo material independente da mente, enquanto o idealismo restringe a certeza às ideias existentes na própria mente.
-
O problema comum às duas posições consiste em demonstrar a existência de um mundo independente da mente quando apenas os conteúdos mentais parecem imediatamente certos.
-
Kant qualificou como escândalo o fato de a filosofia moderna ainda não ter demonstrado a existência do mundo exterior.
-
A crítica existencialista é mais radical ao considerar que o próprio problema interior–exterior nasce de uma concepção equivocada da existência humana, de modo que o verdadeiro escândalo, para Heidegger, reside na insistência em exigir repetidamente tais provas.
2. Realismo e idealismo são rejeitados porque a experiência cotidiana não apresenta uma separação originária entre interior e exterior, eu e mundo, uma vez que já se está aberto aos entes e envolvido praticamente com eles antes de qualquer representação reflexiva.
-
A controvérsia entre realismo e idealismo pressupõe erroneamente um ser humano constituído fundamentalmente como mente encerrada em si mesma.
-
Nas práticas cotidianas, as coisas já são compreendidas segundo seus usos e finalidades práticas.
-
Um computador não é primeiro contemplado segundo propriedades objetivas para somente depois ser utilizado, pois seu sentido funcional já é compreendido dentro das práticas acadêmicas em que se está inserido.
-
O uso orientado de instrumentos ocorre pré-reflexivamente, sem necessidade de uma representação mental que anteceda cada ação.
3. A compreensão situada da existência permite também contestar o dualismo moderno entre fato e valor, segundo o qual fatos objetivos pertenceriam ao mundo físico independente da mente, enquanto significados, finalidades e valores seriam apenas projeções subjetivas decorrentes de gostos individuais, contextos culturais ou aparatos sensoriais.
-
O ideal científico tradicional procura eliminar valores para alcançar fatos quantificáveis referentes a propriedades como massa, peso, movimento e localização espaço-temporal.
-
A separação entre fato e valor conduz à impossibilidade de fatos morais e reduz significado, importância e finalidade a projeções socioculturais.
-
Na experiência cotidiana, porém, nunca se encontram primeiramente objetos quantitativos isolados, mas coisas já inseridas em contextos significativos.
-
A significação não é acrescentada posteriormente por um ato interno de consciência, pois as coisas já aparecem envolvidas em relações significativas reveladas pela compreensão prática do mundo.
4. Embora seja objetivamente verdadeiro que um computador possui determinado peso, ele não é encontrado ordinariamente como mero objeto simplesmente dado (vorhanden), mas como instrumento à mão (zuhanden), disponível e funcional dentro da rede de atividades, projetos e instrumentos que constituem uma determinada identidade prática.
-
O computador adquire importância no interior de atividades como comunicação com estudantes, pesquisa, contato com editores e elaboração de manuscritos.
-
Essas atividades participam da autocompreensão de alguém como professor responsável e dedicado.
-
A distinção entre fato e valor deriva, portanto, de um modo de ser mais originário em que ambos permanecem inseparáveis no interior de contextos compartilhados de significação.
-
Essa estrutura pode ser aprofundada mediante a análise heideggeriana do mundo do trabalho (Werkwelt).
O mundo do trabalho
1. Na análise do martelar apresentada em Ser e Tempo, Heidegger mostra que um martelo somente possui sentido em relação a outros instrumentos, materiais e atividades — como pregos, tábuas, luvas, construir um armário ou instalar uma porta —, de maneira que nenhum instrumento pode ser compreendido isoladamente.
-
O instrumento só é significativo dentro de um contexto prático relacional.
-
É a familiaridade prévia com a totalidade desse contexto que permite que o martelo apareça como martelo.
-
A compreensão dos instrumentos não se constitui pela contemplação distanciada, mas pelo ato de segurá-los, manipulá-los e utilizá-los.
-
A reflexão mental explícita pode inclusive perturbar o desempenho espontâneo das práticas ordinárias.
-
Heidegger utiliza
Verhalten, comportamento ou conduta, para designar essas práticas sem pressupor uma mediação mentalista.
2. Abrir uma porta não exige refletir previamente sobre as propriedades físicas da maçaneta, pois, no fluxo cotidiano, simplesmente se estende a mão e se realiza a ação, fazendo com que as propriedades objetivas da porta desapareçam da atenção enquanto ela funciona adequadamente.
-
Somente quando ocorre uma ruptura prática, como uma porta que não abre, o instrumento deixa de se integrar transparentemente ao contexto e se destaca como objeto.
-
Nessas situações, o instrumento inutilizado torna-se desmundanizado (
entweltlich), separando-se temporariamente de sua rede relacional.
-
A pressuposição de que uma mente medeia constantemente toda relação cotidiana com as coisas desconhece, para Heidegger, a estrutura ontológica fundamental da existência.
-
Quando os instrumentos funcionam normalmente, não se permanece consciente deles como objetos porque a atenção está absorvida na atividade e em seu contexto significativo.
-
Abrir uma porta pressupõe uma compreensão pré-reflexiva de uma totalidade referencial que inclui corredores, luzes, maçanetas, escadas e demais elementos relacionados.
-
As coisas intramundanas adquirem estrutura e sentido pelas relações que mantêm entre si e pelo envolvimento prático humano nessa rede.
3. A concepção heideggeriana do mundo como contexto unificado de significações contesta tanto a representação científica do mundo como recipiente espaço-temporal ou soma de objetos quanto a pressuposição naturalista de que o valor seja mera projeção subjetiva de gostos individuais.
-
As coisas já importam porque expressam significações compartilhadas nas quais se está envolvido.
-
Uma mesa não aparece originariamente como objeto plano, retangular ou cúbico, mas como mesa de escrever, de comer, de brincar, de tomar decisões, de produzir trabalhos ou de celebrar acontecimentos.
-
Seu significado emerge de sua inserção em uma rede social, prática, histórica e afetiva.
-
Merleau-Ponty desenvolve essa compreensão do significado situado deslocando o ponto de partida das relações instrumentais do mundo do trabalho para a percepção do corpo vivido.
O mundo perceptivo
1. Em Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty propõe um retorno ao mundo da experiência efetiva anterior ao mundo objetivo, contestando o distanciamento teórico que reduz a realidade a um recipiente espaço-temporal composto de objetos exteriormente relacionados como partes fora de partes.
-
O mundo não é espaço geométrico nem soma de objetos, mas campo fenomenal, isto é, o fundo concreto no qual se existe.
-
A noção de campo indica uma região prática de interesses e envolvimentos, e não algo colocado diante de um observador exterior.
-
Os envolvimentos perceptivos situados são condição para que posteriormente seja possível adotar uma perspectiva científica.
-
O conhecimento científico permanece derivado de um mundo prévio que o antecede e que suas esquematizações apenas representam abstratamente.
2. A diferença entre Merleau-Ponty e Heidegger aparece no modo de acessar o ser-no-mundo: enquanto Heidegger privilegia a manualidade e as relações instrumentais do mundo do trabalho, Merleau-Ponty toma o mundo perceptivo como fundo unificado que situa e orienta os projetos humanos.
-
A percepção possui primazia porque o mundo percebido antecede toda reflexão teórica e constitui o fundamento pressuposto de racionalidade, valor e existência.
-
Percepção não significa uma coleção atomística de sensações posteriormente reunidas por uma operação mental.
-
Aquilo que se percebe já aparece como totalidade estruturada, na qual cada elemento se apresenta no interior de um campo.
-
Não existem impressões sensoriais absolutamente isoladas, pois cada sensação somente adquire sentido em relação às demais dentro dessa unidade.
3. A crítica merleau-pontyana da percepção rejeita simultaneamente realismo e idealismo, pois ambos partem de sensações discretas e adotam o mesmo modelo científico distanciado de um espaço geométrico ocupado por objetos em interação causal.
-
O realismo pressupõe um mundo independente da mente que estimula causalmente os órgãos sensoriais.
-
O idealismo parte da mente e de suas regras e conceitos como aquilo que constitui e organiza o mundo percebido.
-
Ambos permanecem presos a estruturas teóricas previamente estabelecidas e por isso não alcançam o núcleo vivo da percepção anterior às explicações dos mecanismos da experiência.
4. A investigação de Merleau-Ponty começa pelas percepções vividas em que se está corporalmente circundado, envolvido no mundo e situado aqui e agora, pois a orientação perceptiva limitada oferece diferentes aspectos de um fundo unificado que constitui o horizonte dos horizontes de toda experiência.
-
A unidade perceptiva não é produzida nem mediada pelo intelecto, mas dada imediatamente no ver, ouvir e tocar.
-
As perspectivas não são experiências isoladas posteriormente conectadas pela mente, pois cada uma passa diretamente à outra dentro de um mesmo fundo unificado.
-
As coisas adquirem significado por suas relações internas com outras coisas e pela perspectiva corporalmente situada da qual são percebidas.
-
Uma árvore vista da janela aparece imediatamente como aquela árvore específica associada à sombra, à leitura, ao escritório, à calçada, às estações, ao gramado e à identidade situada de quem a percebe.
5. O significado não consiste em uma ideia ou representação mental, mas emerge espontaneamente das percepções situadas e envolvidas, da orientação no espaço público e do uso corporal das coisas.
-
O exemplo do fumante e do cinzeiro mostra que o significado do instrumento não é uma ideia intelectual, mas se manifesta corporalmente na familiaridade hábil com que é segurado e manipulado.
-
A significação não resulta de um mecanismo psicofisiológico causal que produza sensações discretas.
-
Corpo, consciência e mundo formam uma trama estruturada e unificada na qual o sentido já se encontra incorporado.
-
As coisas cotidianas são significativas tanto por sua posição num contexto referencial quanto pelas maneiras situadas de utilizá-las e manejá-las.
6. O ser humano não pode ser compreendido como combinação de duas substâncias independentes, mente e corpo, porque constitui uma unidade cuja relação conceitual com as coisas depende da sinergia contínua entre consciência encarnada e mundo.
-
Merleau-Ponty denomina esquema corporal (schéma corporel) a apreensão sensório-motora pré-reflexiva que se possui do mundo.
-
A fenomenologia das origens retorna às experiências pré-conceituais que sustentam o pensamento objetivo.
-
Essas experiências revelam a rede de relações que confere às coisas seus significados.
-
O mundo constitui um campo ambíguo e pré-objetivo no qual já se está entrelaçado e no qual as próprias experiências se cruzam entre si e com as experiências dos outros.
7. A concepção de ser-no-mundo oferece uma crítica ao naturalismo dominante em grande parte da filosofia anglófona contemporânea, fortalecido pelos avanços das ciências empíricas e da neurociência e sustentado por pressuposições epistemológicas e metafísicas específicas.
-
A pressuposição epistemológica concede prioridade ao ponto de vista teórico distanciado e aos procedimentos das ciências empíricas como melhor via de conhecimento das coisas e do próprio ser humano.
-
A pressuposição metafísica concebe o mundo, inclusive pensamentos, crenças e intenções, como constituído por objetos físicos submetidos a relações causais.
-
A interpretação naturalista tende a reduzir processos mentais a processos corporais análogos às demais funções fisiológicas.
-
Esse modelo assume sem exame suficiente o ponto de vista do distanciamento teórico e negligencia o mundo experiencial dos envolvimentos cotidianos.
-
Nesse mundo, não se encontram primariamente objetos neutros separados de sujeitos, mas coisas já carregadas de sentido.
-
Esse sentido é revelado pelo manejo, uso e manipulação pré-reflexivos das coisas, e não originariamente pela análise teórica ou conceitual.
8. Heidegger e Merleau-Ponty mostram que a relação primordial com as coisas não é de distanciamento e objetividade, mas de envolvimento situado e habilidoso numa rede referencial de significações que nunca pode ser inteiramente explicitada teoricamente.
-
Heidegger caracteriza a perspectiva naturalista como desmundanizada por abstrair os sentidos situados e finalísticos do ser-no-mundo.
-
Essa crítica não implica hostilidade à ciência, pois
Merleau-Ponty utiliza amplamente evidências empíricas e estudos neurológicos em sua análise da percepção e da agência corporal.
-
O alvo da crítica é a atribuição irrefletida de primazia ao distanciamento metodológico e à objetividade.
-
O predomínio do teórico oculta a familiaridade corporal com as coisas e os significados situados do mundo experiencial que já fundamentam qualquer pensamento científico.
-
A ciência deve retornar ao mundo sensível e aberto que a antecede, ao solo corporal da experiência do qual suas abstrações dependem.
Aspectos da alteridade
1. Uma contribuição decisiva da concepção existencialista de ser-no-mundo consiste em tornar possível a consideração de perspectivas historicamente marginalizadas, pois, se toda compreensão parte de uma orientação situada e corporal, essa orientação também é configurada por formas de alteridade como loucura, diferenças raciais e sexuais e deficiência física.
-
Essas diferenças não apenas configuram modos corporais de existir, mas podem interromper a integração habitual entre eu e mundo.
-
Frantz Fanon amplia e critica
Merleau-Ponty a partir de sua experiência como homem negro nascido na Martinica colonial e submetido ao racismo.
-
O esquema corporal entendido como domínio sensório-motor pré-consciente do mundo não opera da mesma maneira para pessoas colonizadas.
-
O esquema histórico-racial designa a confusão e a alienação produzidas pela exclusão forçada dos significados e práticas que constituem o mundo europeu branco.
-
A pessoa colonizada negra não compartilha a mesma compreensão pré-objetiva do mundo pressuposta pela experiência europeia.
-
A análise merleau-pontyana do esquema corporal precisa, portanto, ser modificada para apreender a particularidade do ser do homem negro.
2. Fanon identifica uma camada ainda mais profunda de alienação, denominada esquema epidérmico-racial, na qual o olhar julgador do europeu branco transforma a pessoa negra em objeto e rompe sua relação espontânea com o mundo.
-
A objetificação pode produzir imobilização e incapacidade, dificultando o movimento no espaço, o manejo de instrumentos e a participação em atividades públicas.
-
A sinergia pré-consciente entre corpo e mundo torna-se inacessível quando a motilidade e a autocompreensão são restringidas pela cor da pele.
-
Essa experiência modifica o modo de ocupar o espaço vivido e pode incorporar vergonha na postura, no caminhar, na posição dos ombros, no olhar e na fala.
-
A náusea exprime a experiência de aprisionamento produzida pela internalização dos juízos objetificantes e desumanizadores do mundo colonial.
-
O episódio em que uma criança branca aponta para Fanon no trem condensa pressupostos socioculturais que o transformam imediatamente em objeto ameaçador e bestializado.
-
O esquema corporal colonizado é assim atravessado por alienação e objetificação até produzir a experiência paralisante de estar encerrado pela própria cor da pele.
3. Iris Marion Young, apoiando-se em Beauvoir e Merleau-Ponty, identifica uma estrutura análoga na motilidade e na orientação espacial femininas, sustentando que existe um estilo corporal característico da existência feminina produzido não por diferenças biológicas essenciais, mas pela opressão exercida num mundo patriarcal.
-
O feminino é constituído socialmente como Outro, correlato inessencial do homem, objeto e imanência.
-
Homens tendem a ocupar o espaço físico com maior confiança, projetando-se corporalmente em direção aos obstáculos.
-
Mulheres frequentemente se relacionam com atividades físicas mediante timidez, incerteza e hesitação.
-
O fluxo unificado e finalístico do ser-no-mundo é, assim, incorporado diferentemente por mulheres que aprendem a experimentar-se como coisas frágeis ou objetos.
-
As diferenças entre homens e mulheres na ocupação do espaço manifestam-se em movimentos, posturas e orientações corporais aprendidos socialmente.
4. O estilo corporal feminino é positivamente aprendido à medida que a menina compreende socialmente que é uma menina, adquirindo hábitos como caminhar, inclinar a cabeça, ficar em pé ou sentar-se de maneiras culturalmente reconhecidas como femininas, e quanto mais assume esse estatuto, mais pode compreender-se como frágil e imóvel e realizar ativamente sua própria inibição corporal.
5. Filósofas feministas latinas como Gloria Anzaldúa, Mariana Ortega e Ofelia Schutte ampliam a problematização do ser-no-mundo ao examinar a experiência vivida de imigrantes, exilados e pessoas marginalizadas que habitam zonas fronteiriças ambíguas, possuem identidades múltiplas ou transitórias e, por estarem entre culturas, não encontram um pertencimento pleno ao mundo.
-
A condição liminar faz com que esses sujeitos frequentemente sejam percebidos como ameaça ao paradigma cultural dominante.
-
A multiplicidade cultural e identitária impede a integração completa tanto no mundo dominante quanto nas culturas de origem.
-
Diferentes formas de opressão podem coexistir sem serem idênticas, possibilitando relações de empatia e identificação entre grupos marginalizados.
6. A experiência de não pertencer plenamente nem ao mundo dominante nem às próprias culturas de origem reúne diferentes formas de opressão sob a condição comum de não se ajustar às estruturas estabelecidas, condição que pode transformar sujeitos marginalizados em ameaça para a ordem cultural dominante e favorecer a identificação solidária entre experiências distintas de exclusão.
7. Existir entre mundos produz um sofrimento específico marcado pela ansiedade, pelo risco de violência e pela ausência de pertencimento, contrastando com a descrição heideggeriana da cotidianidade média como compreensão pré-reflexiva fluida e familiar do mundo.
-
O sujeito mestiço pode experimentar confusão e desorientação crônicas.
-
A vida cotidiana é atravessada por rupturas recorrentes que impedem uma integração espontânea e irrefletida ao mundo.
-
A experiência de não-estar-à-vontade torna-se persistente e modifica estruturalmente o modo de ser-no-mundo.
8. As análises da alteridade enriquecem a compreensão da existência ao mostrar que o ser-no-mundo assume formas profundamente diferentes e pode ser desorganizado por opressões estruturais e violências relacionadas a raça, gênero e etnia, abrindo ainda novas investigações sobre doença, deficiência, identidade sexual, corporeidade e transtornos mentais.
-
Estudos fenomenológicos da doença e da deficiência examinam a ruptura do ser-no-mundo e a contração do espaço vivido.
-
Investigações sobre identidades queer e transexuais mostram como corporeidade, identidade e performatividade são configuradas por mundos da vida que podem inibir determinados modos de existir.
-
Pesquisas sobre esquizofrenia, depressão e anorexia nervosa descrevem alterações da orientação espaço-temporal, da motilidade e dos significados afetivos normalmente pressupostos na integração cotidiana com o mundo.
9. O ser-no-mundo designa primeiramente a existência concreta e situada que antecede toda teorização distanciada, pois a filosofia nunca começa a partir de lugar nenhum, mas de uma situação corporal particular já inserida em um mundo unificado no qual se está inevitavelmente envolvido.
10. O significado das coisas não é produzido por associações cognitivas, mas por suas relações com outras coisas no interior da totalidade estruturada em que já se está envolvido, de modo que nada é encontrado isoladamente e cada coisa adquire sentido por sua inserção nos projetos práticos e na trama contextual de corpo, consciência e mundo.
11. O envolvimento no mundo implica uma compreensão pré-reflexiva que possibilita manejar coisas e mover-se de maneira fluida, fazendo com que a maior parte das ações cotidianas ocorra sem intenções mentais explicitamente autorreferenciais.
-
A consciência reflexiva de percepções e ações pressupõe um modo não reflexivo e não autorreferencial de ser-no-mundo.
-
A existência de ações deliberadas não é negada, mas elas não constituem a forma predominante da atividade cotidiana.
-
A familiaridade corporal com o mundo prático permite agir habitualmente sem pensar tematicamente em cada movimento.
-
Essa concepção exerceu influência importante sobre a filosofia da mente e as ciências cognitivas ao questionar a pressuposição de que toda ação humana precisa ser previamente representada na mente.
12. A experiência de dirigir longas distâncias em estado de automatismo mostra que é possível manter o automóvel na estrada, frear, acionar a embreagem e executar outras ações adequadas sem consciência explícita do que se está fazendo, evidenciando uma competência prática que não depende continuamente de representações conscientes.
13. Grande parte da vida cotidiana transcorre nesse estado pré-reflexivo de absorção prática, tornando inadequada a concepção cartesiana segundo a qual toda ação corporal seria causada por uma intenção mental autorreferencial, pois a própria inserção situada no mundo já incorpora uma familiaridade fluida com as coisas que dispensa consciência temática constante.
14. A partir de Hubert Dreyfus e de sua crítica pioneira ao modelo computacional da mente, o existencialismo forneceu bases para questionar a concepção tradicional das ciências cognitivas segundo a qual o cérebro funcionaria como um computador e a mente como um conjunto de programas regidos por regras.
-
O modelo computacional reduz a inteligência humana a processos formais que manipulam representações mentais do mundo.
-
Essa pressuposição orientou grande parte das primeiras pesquisas em inteligência artificial.
-
O representacionismo pressupõe um mundo composto de fatos discretos e independentes que poderiam ser internamente representados e formalizados segundo valores lógicos de verdade e falsidade.
-
Heidegger e
Merleau-Ponty mostram, ao contrário, que a compreensão das coisas depende de uma familiaridade tácita e pré-reflexiva com redes de significação.
-
A inteligibilidade pressupõe um nexo prévio de instrumentos, instituições e práticas que constitui o mundo e sustenta a compreensão de si.
-
As coisas não são compreendidas como objetos isolados, mas pelas relações funcionais que mantêm entre si, com o mundo e com os projetos significativos da vida cotidiana.
-
Processos computacionais regidos exclusivamente por regras não reproduzem integralmente o caráter corporal, contextual e ambíguo do ser-no-mundo.
-
A explicitação existencialista do entrelaçamento estrutural entre ser humano e mundo tornou-se, por isso, relevante para os debates contemporâneos em ciência cognitiva e filosofia da mente.