AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.
Perturbações temporais e colapso do significado
1. A dificuldade inicial para compreender fenomenologicamente a angústia (Angst) decorre de sua heterogeneidade e da necessidade de distinguir entre emoções ansiosas agudas, episódicas e dirigidas a objetos ou situações determinados e uma angústia mais difusa, duradoura e global, experimentada como estado de ânimo que colore afetivamente o horizonte inteiro da existência.
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Transtorno de pânico, agorafobia e angústia social podem apresentar respostas mais situacionais e momentâneas.
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Estados de ânimo são mais indeterminados, difusos e persistentes do que emoções específicas.
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A angústia generalizada aproxima-se de uma atmosfera afetiva semelhante a uma névoa que envolve negativamente tudo.
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Torna-se possível distinguir estar ansioso acerca de algo e encontrar-se existencial ou globalmente ansioso.
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A angústia crônica pode manifestar-se como fundo permanente de preocupação, ameaça e temor.
2. Embora o DSM descreva extensamente critérios diagnósticos, fatores de risco, diagnósticos diferenciais e consequências funcionais, pouco esclarece acerca da experiência em primeira pessoa, sobretudo no que diz respeito às alterações da agência, da autointerpretação e da experiência temporal.
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A angústia modifica os ritmos fisiológicos e cognitivos.
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Perturba também os ritmos corporais da vida social cotidiana.
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Sua consequência mais profunda pode ser a contração da experiência do futuro.
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Quando o futuro se estreita, diminuem as possibilidades projetivas mediante as quais normalmente se constrói e interpreta a própria identidade.
Perturbações da corporeidade e da cognição
1. A fenomenologia da psicopatologia tem mostrado que a temporalidade é uma dimensão fundamental da experiência humana, e Heidegger permite compreendê-la como horizonte vivido que articula passado, presente e futuro e abre o espaço de significação no qual as coisas podem afetivamente importar.
2. Na saúde e no envolvimento cotidiano, a unidade temporal é incorporada de maneira transparente por meio de ritmos corporais como respiração, batimentos cardíacos, temperatura, postura e motilidade, que organizam silenciosamente a experiência sem se tornarem objetos explícitos de atenção.
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A invisibilidade funcional do corpo acompanha sua integração fluida ao ser-no-mundo.
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Os ritmos fisiológicos e motores permanecem normalmente sincronizados.
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Na doença mental, essa sincronização pode romper-se.
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Fuchs denomina dessincronização a perturbação em que o funcionamento corporal deixa de permanecer oculto e emerge de forma explícita e incômoda.
3. Enquanto a depressão tende a manifestar-se por lentificação dos ritmos corporais, a angústia costuma ser vivida como aceleração, inquietação e aumento de velocidade, embora ambas possam coexistir e produzir simultaneamente lentidão e agitação.
4. A coexistência de angústia e depressão pode ser experimentada como uma combinação paradoxal em que o corpo parece lento e enevoado, enquanto pensamentos, movimentos e fala são vividos como acelerados, fragmentados e difíceis de coordenar.
5. A aceleração temporal da angústia pode manifestar-se por palpitações, taquicardia, sudorese, tremores e dificuldade respiratória, fazendo com que funções corporais antes transparentes apareçam como estranhas e resistentes.
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O corpo deixa de funcionar apenas como meio silencioso da experiência e passa a impor-se como coisa corpórea.
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Coração, pulmões, mãos e pele tornam-se objetos explícitos de atenção.
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Até a respiração pode perder sua familiaridade e ser vivida como ameaçadora.
6. A angústia também pode acelerar o fluxo cognitivo mediante pensamentos corridos ou congestionados, nos quais ideias, percepções e lembranças surgem de maneira descontrolada e desarticulada.
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A concentração diminui e a mente pode tornar-se momentaneamente vazia.
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A unidade da consciência depende da articulação entre retenção, voltada ao passado imediato, e protensão, orientada ao futuro.
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Na angústia, essa articulação pode romper-se.
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O pensamento salta rapidamente entre conteúdos e a fala pode tornar-se acelerada, desorganizada e pouco coerente.
7. A velocidade interna do pensamento ansioso pode superar a capacidade da linguagem, fazendo com que ideias, memórias, emoções e associações apareçam tão rapidamente e de forma tão interligada que as palavras conseguem expressar apenas fragmentos desse processo.
8. A desorganização do fluxo de pensamento dificulta controlar conteúdos ansiosos e pode produzir um ciclo repetitivo de preocupações e hipóteses ameaçadoras.
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Sem a unidade temporal entre retenção e protensão, os pensamentos parecem adquirir movimento próprio.
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Quanto mais se tenta suprimi-los, mais insistentes podem tornar-se.
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A pessoa pode ficar aprisionada numa espiral de perguntas do tipo “e se?”.
9. A tentativa de não pensar num determinado conteúdo pode paradoxalmente mantê-lo presente, pois é necessário continuar consciente dele para lembrar aquilo que se procura evitar, produzindo um circuito ruminativo autoalimentado.
10. A desorganização cognitiva repercute ainda nos ritmos psicomotores, manifestando-se como agitação, inquietação persistente e impulsividade.
11. O esquema corporal constitui o sistema sensório-motor unificado que ancora o indivíduo no mundo e orienta pré-reflexivamente posição, movimento e relação com os eixos espaciais, mas a angústia rompe essa familiaridade corporal e produz sensação de tensão e inquietação.
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O corpo normalmente situa o indivíduo de modo transparente no espaço vivido.
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Na angústia, essa orientação pode transformar-se em desconforto e agitação.
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A pessoa pode ter dificuldade de permanecer imóvel e sentir necessidade contínua de mover-se.
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Esses fenômenos revelam que os ritmos corporais já estão inscritos num mundo relacional e social.
12. A intercorporeidade mostra que a existência se constitui em abertura e sincronização com os corpos, gestos e movimentos dos outros, de modo que a identidade cotidiana depende da incorporação de ritmos compartilhados.
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O impessoal (das Man) constitui o sujeito efetivo da cotidianidade.
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Caminhar, esperar, comer ou conversar envolve coordenação temporal tácita com outras pessoas.
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A angústia produz uma urgência temporal que faz os ritmos sociais parecerem excessivamente lentos.
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Essa urgência pode aparecer como fala apressada, impaciência, caminhada acelerada, alimentação rápida, irritação no trânsito e incapacidade de esperar.
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Heidegger relaciona a vida moderna à curiosidade (
Neugier), inquietação (Unruhe) e aceleração (Schnelligkeit), marcadas por distração, pressão temporal e incapacidade de permanecer em quietude.
13. A aceleração e a urgência temporal não constituem por si mesmas uma psicopatologia, mas, quando se tornam extremas, podem romper profundamente o tempo intercorporal e desencadear crises intensas em situações públicas.
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Agorafobia, transtorno de pânico e angústia social podem tornar transportes, filas e espaços fechados experiências de aprisionamento.
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A repetição dessas experiências favorece comportamentos de evitação.
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Projetos profissionais, viagens, contatos familiares e atividades cotidianas podem ser restringidos.
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Em casos graves, a pessoa pode permanecer quase inteiramente confinada em casa ou depender de acompanhante para sair.
14. A angústia pode reorganizar profundamente a vida cotidiana, levando a evitar elevadores, telefonemas, conversas, encontros sociais e contatos com desconhecidos, de maneira que família, trabalho e relações passam a ser condicionados pela antecipação ansiosa.
15. Essa contração existencial pode desgastar vínculos sociais e afetivos, produzindo isolamento, vergonha e culpa, que por sua vez intensificam a própria angústia.
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Pode surgir uma sensação de esterilidade ou vazio afetivo.
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Projetos e compromissos deixam de aparecer como significativos.
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O futuro se revela como região hostil e ameaçadora.
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Procrastinação, retraimento e medo de agir tornam-se formas de defesa.
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A perda do horizonte de possibilidades compromete a própria capacidade de compreender quem se é.
Angústia como fechamento narrativo
1. Os estados de ânimo não se dirigem a objetos isolados, mas ao mundo como um todo, constituindo atmosferas afetivas que revelam como escolhas, relações e compromissos importam, enquanto o Dasein permanece simultaneamente lançado numa situação e projetado em possibilidades futuras.
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A unidade entre estar-já-em e estar-à-frente-de-si forma um horizonte temporal de significação.
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O eu pode ser compreendido narrativamente como aquilo que se constitui nas interpretações e histórias mediante as quais articula sua existência.
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A identidade depende da coerência entre projetos futuros e significados da situação presente.
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A angústia crônica pode corroer essa capacidade de autocriação narrativa.
2. A especificidade da angústia consiste em não abrir possibilidades significativas, mas em fechar o horizonte de sentido e fazer o mundo aparecer como ameaçador, estranho e esvaziado de valor.
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Trabalho, relações e compromissos permanecem presentes, mas deixam de oferecer orientação.
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Os elementos que sustentavam uma narrativa coerente perdem importância.
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A capacidade de ser pode então ser comprometida.
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Heidegger relaciona esse colapso ao morrer (
Sterben), entendido ontologicamente como possibilidade da impossibilidade da existência.
3. Essa experiência aproxima-se do fechamento narrativo, no qual os recursos interpretativos necessários para construir uma história coerente da própria vida ficam afetivamente indisponíveis.
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A intensidade desse fechamento pode variar.
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A expectativa apreensiva característica da angústia generalizada projeta constantemente a possibilidade de que algo ruim aconteça.
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Projetos futuros passam a aparecer como ameaçadores ou destituídos de realização possível.
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A angústia permanece difusa, generalizada e não localizada num objeto específico.
4. A preocupação pode espalhar-se simultaneamente por saúde, família, dinheiro, trabalho, envelhecimento, morte e acontecimentos cotidianos insignificantes, fazendo com que a ameaça se torne ubíqua e indefinida.
5. A unidade narrativa depende de um para-quê (das Worumwillen), isto é, de uma orientação implícita para a futuridade (zukünftig), por meio da qual a pessoa compreende quem é segundo a direção de sua própria história, mas a angústia pode fazer essa história parecer encerrada ou sem destino.
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O futuro dominado por dúvida e apreensão esvazia o sentido da narrativa.
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A morte do desejo narrativo elimina tanto a significação da história pessoal quanto a vontade de continuar recriando-a.
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Projetos e compromissos passam a parecer inúteis.
6. Quando o futuro é antecipado apenas como pobreza, abandono, incapacidade de trabalhar, dissolução das amizades, fracasso, solidão, deterioração e perda de pertencimento, a projeção temporal deixa de abrir possibilidades e se transforma numa antecipação predominantemente negativa.
7. A angústia também retroage sobre o passado, fazendo com que lembranças, relações e experiências anteriormente significativas apareçam como marcas de fracasso, oportunidades perdidas e promessas não cumpridas.
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Passado e futuro passam a ser afetivamente contaminados pela mesma tonalidade.
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A capacidade temporal de revelar mundo pode ficar paralisada.
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A pessoa permanece imobilizada em dúvida constante acerca de suas ações presentes e passadas.
8. A noção de futuro encurtado presente em descrições do transtorno de estresse pós-traumático oferece um paralelo clínico para esse colapso temporal.
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O futuro aparece dominado por expectativas negativas persistentes.
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O mundo é vivido como perigoso e as pessoas como não confiáveis.
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A projeção do perigo restringe as possibilidades futuras.
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Essa estrutura aproxima-se da expectativa apreensiva da angústia crônica.
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O mundo aparece como cenário de falha e ruptura incompatível com uma narrativa de vida aberta e progressiva.
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Tratamentos dos sintomas fisiológicos e comportamentais podem não alcançar inteiramente o colapso do horizonte temporal.
9. Quando a angústia atinge a própria temporalidade, não basta tratar apenas sintomas físicos ou comportamentais, sendo necessário um diálogo capaz de reabrir possibilidades narrativas e permitir que a pessoa reinterprete a si mesma diante do colapso de mundo.
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O trabalho terapêutico pode tornar novamente acessíveis recursos e significados antes obscurecidos.
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Heidegger denomina poetizar (
Dichten) ou dizer projetante (entwerfende Sagen) uma forma de expressão capaz de trazer ao mundo aquilo que permanecia indizível (Unsagbare).
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A abertura discursiva de novas interpretações pode permitir que um futuro obscurecido volte gradualmente a apresentar significado.
10. A reconstrução narrativa traz, contudo, o risco de substituir o colapso anterior por uma nova identidade rígida e fechada, fundada no desejo de segurança e completude.
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Essa tendência à clausura produz a ilusão de que a identidade foi finalmente estabilizada.
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Narrativas de doença podem cristalizar-se, por exemplo, na figura do sobrevivente invencível.
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Nenhuma nova identidade elimina a vulnerabilidade estrutural da existência.
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O colapso de significado pode ocorrer mesmo sem causa claramente identificável.
11. As autointerpretações permanecem sempre em processo e precisam ser continuamente revistas à medida que escolhas e ações encontram os limites da situação, de modo que identidades narrativas podem morrer e ser reconstruídas repetidamente ao longo da vida.
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A atitude adequada não consiste em negar essa possibilidade, mas em antecipá-la.
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Heidegger denomina resolução (
Entschlossenheit) a disposição de permanecer aberto e não rigidamente fechado numa identidade.
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A resolução exige flexibilidade diante das possibilidades factuais presentes.
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O processo terapêutico deve ajudar a reconhecer a vulnerabilidade de toda identidade narrativa.
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A recuperação implica abrir novas possibilidades, mas também abandonar identidades que deixaram de ser habitáveis.
12. A relação entre doença mental, instabilidade do eu e colapso de mundo conduz à concepção heideggeriana de morte e morrer, pois a perda de significação pode produzir uma morte ontológica na qual já não se dispõe de um mundo inteligível capaz de sustentar identidade e sentido de si.
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Essa morte não corresponde a uma entidade médica discreta eliminável apenas por intervenção química.
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Ela pertence à constituição ontológica do
Dasein.
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Pode ocorrer repetidamente ao longo da vida.
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O colapso não possui apenas sentido negativo, pois pode também abrir possibilidades de transformação.
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A fragilidade e a impermanência das identidades podem conduzir a uma revisão crítica das escolhas e ações mediante as quais se constitui quem se é.