AHO, Kevin. Contexts of suffering: a Heideggerian approach to psychopathology. London New York (N.Y.): Rowman & Littlefield International, 2019.
Perturbações do corpo, do humor e do eu
1. A crítica de Marcia Angell à biopsiquiatria sustenta que a mídia, a indústria farmacêutica e profissionais médicos contribuíram para fabricar uma crise de saúde mental ao aceitar sem suficiente exame a hipótese de que transtornos como a depressão decorrem de desequilíbrios químicos cerebrais corrigíveis por antidepressivos, enquanto a reação de psiquiatras defensores da legitimidade médica da depressão e da eficácia desses medicamentos permaneceu concentrada na validade bioquímica e terapêutica, deixando em segundo plano a experiência vivida das próprias pessoas deprimidas.
2. Embora as ciências sociais já tenham recorrido amplamente a relatos experienciais para criticar o complexo psicofarmacêutico e examinar fatores históricos e socioeconômicos associados à depressão, a investigação proposta é estritamente fenomenológica e procura descrever como a depressão se manifesta por si mesma, sem pressupor previamente sua natureza ontológica.
Movimento e espaço vivido
1. A abordagem fenomenológica da doença mental revela os limites da concepção neuroquímica do eu porque a redução da pessoa deprimida a um sistema causal de circuitos neurais não oferece acesso ao modo como ela efetivamente sente e experiencia sua condição.
2. O caráter enigmático do corpo vivido consiste em sua habitual invisibilidade, pois, quando se está saudável e absorvido nas atividades cotidianas, vive-se através dele sem tematizá-lo reflexivamente.
3. Nos relatos em primeira pessoa da depressão, aparece repetidamente a ruptura desse esquema mediador, em que o espontâneo “eu posso” é substituído por um incapacitante “eu não posso”, e a integração fluida entre corpo e mundo se torna lenta, pesada e restritiva.
4. Em quadros graves, a incapacidade corporal pode chegar ao ponto de tornar praticamente impossível atravessar um quarto mesmo diante de uma recompensa extremamente desejável, revelando que não se trata simplesmente de falta de motivação, mas de uma ruptura profunda da capacidade incorporada de agir.
5. Outros relatos descrevem o colapso do esquema corporal como uma forma de invalidez física e dependência integral de outras pessoas, na qual a doença é vivida como algo que efetivamente incapacita.
6. A ruptura do vínculo transparente entre corpo e mundo faz com que a própria corporeidade se imponha como algo pesado, desajeitado e estranho, transformando-se em obstáculo ao envolvimento prático.
7. A perda de interesse pode atingir alimentação, sexualidade, leitura, caminhada e outras atividades anteriormente valorizadas, até que o mundo apareça como inteiramente desprovido de razões para agir ou mover-se.
8. Essa perda de sentido relaciona-se a outra característica fundamental da depressão: a incapacidade de ser afetivamente tocado pelo mundo, na qual projetos e atividades que antes importavam deixam de mobilizar a pessoa, produzindo não apenas tristeza, mas um sentimento de não sentir.
A depressão como tédio profundo
1. A análise heideggeriana dos estados de ânimo permite compreender a dimensão afetiva da depressão porque a existência humana não é estruturada apenas por aquilo que se conhece, mas sobretudo pelo modo como as coisas importam e como se está situado diante delas.
2. A análise heideggeriana do tédio (Langeweile), especialmente a distinção entre formas ordinárias e tédio profundo, oferece um modelo para compreender a tonalidade afetiva da depressão.
3. No tédio profundo, o desinteresse envolve o mundo inteiro, de modo que nada se destaca como significativo e tudo parece possuir o mesmo valor ou ausência de valor.
4. A experiência pode tornar-se temporalmente contínua e sem contraste, de modo que anos inteiros retrospectivamente pareçam mergulhados numa única tonalidade negra e indistinta.
5. Outros relatos descrevem a depressão como experiência monocromática, processo mental negro ou garoa cinzenta de horror, reforçando a perda de diferenciação afetiva do mundo.
6. Imersa nessa atmosfera, a percepção perde suas qualidades afetivas e aquilo que antes aparecia como vivo, belo ou caloroso torna-se morto e indiferente.
7. A visão de uma árvore intensamente colorida pode permanecer perceptivamente intacta enquanto deixa de produzir qualquer ressonância afetiva, revelando uma separação radical entre reconhecimento perceptivo e capacidade de ser tocado pelo que se percebe.
8. Em casos graves, a perda de afetividade pode levar a experiências de desrealização ou despersonalização, nas quais o mundo parece irreal e a própria presença parece esvaziada.
9. A experiência de desrealização pode atingir inclusive a percepção de pessoas íntimas, que continuam externamente reconhecíveis, mas deixam de ser vividas com a familiaridade afetiva habitual.
10. O próprio corpo pode ser percebido como sem vida, opaco ou irreal, comparável a objetos inanimados, produzindo uma ruptura da familiaridade corporal ordinária.
11. Esses relatos indicam que a depressão pode ser vivida como desconexão profunda e totalizante e também esclarecem por que antidepressivos nem sempre são experienciados como simples produtores de felicidade, mas como meios que podem permitir reentrada afetiva no mundo.
12. A melhora medicamentosa pode ser vivida como recuperação da capacidade de experimentar tristeza, desapontamento e preocupação em sua proporção ordinária e transitória, sem que esses afetos se tornem totalizantes.
13. Outros relatos descrevem a recuperação como saída de um túnel e retorno ao mundo familiar, no qual lugares, objetos e atividades voltam a adquirir reconhecimento afetivo e significado.
14. A restauração do envolvimento afetivo com o mundo revela também algo acerca da constituição do eu, pois a depressão não compromete apenas movimento e afetividade, mas pode enfraquecer a capacidade especificamente humana de autointerpretação e autocriação.
O problema da transcendência
1. A afirmação heideggeriana de que a essência do Dasein reside em sua existência significa que não há uma essência previamente constituída determinando quem se é, embora existam fatos que compõem a facticidade (Faktizität), como corporeidade, localização, condições fisiológicas e identidades contextuais.
2. A depressão, enquanto elemento da facticidade, pode restringir possibilidades futuras, mas ainda poderia ser interpretada de diferentes maneiras mediante a capacidade de assumir uma posição diante do próprio sofrimento.
3. Uma possibilidade de interpretação consiste em abandonar a expectativa de superar completamente a depressão e incorporá-la à própria existência como condição duradoura, aceitando seus limites sem esperar seu desaparecimento.
4. Outra possibilidade consiste em recusar a interpretação da depressão como mero destino desadaptativo e compreendê-la como fonte de aprendizado, profundidade e autoconhecimento.
5. Nessa interpretação, a depressão pode ser acolhida como experiência capaz de ensinar algo sobre a própria vida, desde que seja integrada em vez de simplesmente rejeitada.
6. Em ambas as possibilidades, a identidade se constitui mediante escolhas interpretativas que conferem valor e significado à experiência, de modo que a depressão só adquire sentido existencial na medida em que é incorporada a uma determinada autocompreensão.
7. A própria depressão, contudo, coloca em questão a concepção heideggeriana da transcendência quando ocorre um colapso global do ser-no-mundo e do significado afetivo, pois a capacidade de escolher, interpretar e assumir posição pode ficar profundamente comprometida.
8. A pessoa deprimida pode reconhecer abstratamente a possibilidade de pedir ajuda e até imaginar uma conversa, mas permanecer incapaz de realizar o gesto corporal mínimo necessário para alcançar um telefone, mostrando a ruptura entre compreensão cognitiva e capacidade efetiva de agir.
9. A concepção heideggeriana parece pressupor que, mesmo diante de intenso sofrimento psíquico, sempre permanece alguma capacidade de refletir, interpretar e agir, mas a depressão grave põe em dúvida essa pressuposição justamente porque compromete os atos de escolha e significação.
10. Atividades elementares como levantar-se, tomar banho ou organizar os passos necessários para uma ação simples podem tornar-se empreendimentos quase impossíveis, evidenciando uma perda da capacidade prática e interpretativa.
11. A depressão pode problematizar até mesmo a ideia do suicídio como escolha livre, porque esse ato exige planejamento, energia e decisão, capacidades que podem estar profundamente reduzidas.
12. Em estados vegetativos profundos, podem desaparecer esperança e sentido de futuro, restando um presente dominado quase exclusivamente pelo registro passivo do sofrimento e por extrema paralisia corporal.
13. Esses relatos sugerem que a capacidade estrutural de transcendência do Dasein pode ser menos constante do que supõe Heidegger, problema que se torna ainda mais claro quando se considera a temporalidade da depressão.
14. Para Heidegger, o Dasein é temporalidade, estendendo-se do presente ao passado e ao futuro, pois já se encontra lançado numa situação facticial e simultaneamente se projeta em possibilidades futuras.
15. Na experiência depressiva, passado e futuro podem ser absorvidos pelo presente, tornando difícil recordar claramente um período de melhora ou imaginar um futuro diferente, de modo que a depressão assume caráter atemporal e elimina pontos de vista alternativos.
16. Na névoa depressiva, o passado deixa de ressoar com significado e o futuro deixa de oferecer esperança, projetos ou modos possíveis de vida, restando apenas a paralisia desorganizada do presente.
17. Compreender a existência temporalmente mostra que o mundo não é apenas cenário significativo da vida cotidiana, mas espaço aberto de possibilidades, e a depressão pode fazer esse espaço contrair-se até impedir novas autointerpretações.
18. A depressão revela um limite da concepção heideggeriana do Dasein ao mostrar que a ideia do ser humano como agente permanentemente autoconstituinte pode ser excessivamente reificada, pois o colapso depressivo pode fechar o horizonte temporal e enfraquecer radicalmente a capacidade de tomar decisões voltadas ao futuro.
19. A reflexão fenomenológica procura suprir aquilo que frequentemente falta nos debates médicos sobre depressão: uma descrição do que significa e de como é vivida por quem efetivamente sofre, em contraste com discussões centradas quase exclusivamente na questão de sua natureza bioquímica.
20. A virtude da abordagem fenomenológica consiste em suspender inicialmente juízos científicos e morais acerca daquilo que a depressão é ou de como deveria ser tratada, permitindo que a experiência se revele em seus próprios termos.