VIDA (2014:III.1.1)

AGAMBEN, Giorgio. O Uso dos Corpos. Homo Sacer IV,2. São Paulo, Boitempo, 2017

Confirmando a falta de tecnicização do conceito “vida” no âmbito médico, os textos de Corpus [Hippocraticum] mostram, com relação àqueles literários e filosóficos, certa indeterminação da oposição zoe/bios.

* A genealogia do conceito de zoe deve partir da constatação de que, na cultura ocidental, “vida” não constitui originalmente uma noção médico-científica, mas um conceito filosófico-político, como demonstra o fato de que nos 57 tratados do Corpus hippocraticum, editados por Littré em dez volumes e compostos entre o final do século V e o início do século IV a.C., o termo zoe aparece apenas oito vezes e nunca com sentido técnico, embora os autores descrevam minuciosamente humores, saúde e doença, nutrimento, crescimento do feto, modos de vida diaitai, sintomas e a própria techne iatrike sem atribuir ao conceito de “vida” qualquer função específica.

* Das oito ocorrências de zoe no Corpus hippocraticum, três pertencem a textos apócrifos sem caráter médico — Carta a Damagete, Oratio ad aram e Tessali legati oratio — e, nas cinco restantes, três referem-se apenas à duração da vida diante da morte iminente, enquanto duas apresentam uso potencialmente relevante mas indeterminado, como em Cor., 7, onde os grandes vasos “trazem a vida ao homem”, e em Alim., 32, onde se distingue zoe da sensação ao mencionar “vida do todo e da parte”, sendo esta última a única passagem em que zoe parece adquirir sentido menos genérico.

* O verbo zen, “viver”, que aparece 55 vezes no Corpus hippocraticum, jamais assume significado técnico, designando genericamente os seres vivos ou a duração da vida, e surgindo frequentemente na fórmula ouk an dynaito zen para indicar impossibilidade de sobreviver em determinadas condições.

* O termo bios, entendido como forma de vida ou vida humana qualificada, ocorre 35 vezes no Corpus hippocraticum, sobretudo no célebre incipit dos Aforismos, Ho bios brachys, he de techne makre, e a comparação entre textos médicos e literários ou filosóficos revela uma indeterminação na oposição entre zoe e bios, como exemplificado em Flat., 4, confirmando a ausência de tecnicização do conceito de vida no âmbito médico.