====== GA78 §8 ====== //Der Spruch Anaximander (1946) [2010]// ** § 8. Excurso: A V Ode Ístmica de Píndaro ** ** a) O ouro como περιούσιος ἄλλων ("mais-essente que todos os outros") ** ** α) A experiência do Sein (ser) no brilho do ouro. "Sein" = iluminar, resplandecer, aparecer, (a-)presentar-se -- no refluxo em si mesmo ** * O termo περιούσιος é empregado para o ouro, e busca-se pensar o contexto no qual o χρυσός (ouro) é dito como περιούσιος em um dizer poético que porta a compulsão sagrada de trazer ao dizer o que precisa ser dito. * Interroga-se o que há no ouro ao ser aproximado da palavra mais própria do "Seienden" (ente) e chamado de "mais-essente" do que todo o resto que é. * A expressão corrente "nem tudo que reluz é ouro" porta a indicação de que o ouro é o genuinamente reluzente, de modo que o que mais reluz pode passar por ouro, embora esse aparecer seja mero Schein (aparência/brilho). * Permanece indeterminado na expressão corrente se o brilho do ouro é apenas uma propriedade particular do metal -- ausente no ouro fosco -- ou se o ser-ouro repousa em um resplandecer tal que nele até o ouro não-brilhante, enquanto é ouro, reluz. * O Glanz (brilho/resplendor) do ouro traz o nobre desse metal ao Scheinen (aparecer/brilhar), mas isso não significa apenas que esse resplandecer comunica o nobre ao "olho": o puro Leuchten (luzir) que não emana para fora, mas brota em si e se retém em si, é o próprio nobre; esse Schein é seu Sein. * "Sein" não quer dizer outra coisa senão esse aparecer que não oferece mero Anschein (aparência/semblante), mas aquilo em que o ouro, como ouro, desponta e, despontando, chega, presentando-se no brilho como ele mesmo. * O "ouro" é, em certo sentido, esse puro Anwesen (presentar-se) ele mesmo, de modo que nele o Seiende (ente) é "mais-essente", mas ao mesmo tempo de maneira que o Scheinen não se impõe separado do que aparece, permanecendo inteiramente retido nele. * Se ὄν significa Anwesendes (o que se presenta) em seu Anwesen (presentar-se), então o ouro como o reluzente, o aparecente, é mais-presentante do que outro tal -- περιούσιος ἄλλων. * Inversamente e em contato puro com a coisa experimentada de modo grego: se o ouro é mais-essente do que todo o resto, então o Seiendsein (ser-ente) repousa em seu puro Leuchten, que se dá no resplandecer do ouro. * O Leuchten é trazer-se ao Anwesung (presentação) como aquilo que, vindo de si, repousa em si; o Scheinen é Anwesen -- isso é o εἶναι do ὄν. * O Glänzen (resplandecer) repousa no Leuchten, que de modo duplo e uno deixa vir à tona o luminoso -- isto é, deixa-o an- e her-wesen (apresentar-se e advir) -- mas ao mesmo tempo retém o que chega em seu próprio que brota como fonte. * No ouro fosco luzem, isto é, resplandecem e se presentam o que em si se recolheu; o brilho é brilho, mas velado. * Apenas por isso o que relampeja tem uma distinção que não repousa no ofuscamento do apreender, mas no modo do Anwesen (presentar-se) a seu tempo e exatamente nesse tempo. * O περί que caracteriza o Anwesen do ouro não significa apenas que o brilho do ouro supera outros brilhantes em grau de iluminação, pois o sobressair e o saltar aos olhos não é o modo como o ouro como ouro vem à aparição e se destaca. * Seu Scheinen tem nisso o nobre: que se retém no Glänzen que repousa em si e, com toda a magnificência a partir da qual se traz ao aparecer, permanece um resplandecer sereno. * Esse "superar" no aparecer que é próprio do ouro não consiste em nenhuma medida especial de intensidade de imposição do mero ofuscamento em relação ao olho apreensivo humano; antes, o περί, enquanto significa um "além-para-fora", repousa no modo do Anwesen aparecente em relação ao outro co-presente. ** β) Distinção da experiência grega do ouro em face da representação atual do ouro como "valor" ** * Ao pensar o ouro como o Seiende que é em sua relação ao outro Seiende, impõem-se representações inadequadas ao estado de coisas experimentado de modo grego, facilmente induzindo ao equívoco do que Píndaro diz poeticamente, por meio de uma interpretação que, justamente por ainda ser em certo sentido correta, nos ilude quanto a reconhecer as conexões essenciais ditas em sua própria simplicidade. * Para os modernos, o ouro ainda aparece em seu brilho, mas o Goldsein (ser-ouro) não mais repousa em seu Glänzen; o Glanz como essência do próprio Sein se apagou; o resplandecer à maneira do brilho do ouro tornou-se uma mera propriedade do Seiende. * O ouro, para os modernos, é ouro como metal valioso, e mesmo esse "valor" não mais decorre do metálico: o valor do ouro se determina a partir do "valor-ouro" (Goldwert), cujo caráter de valor provém de valorações e estimativas inteiramente outras; o valor é valor como Valuta (moeda/valuta). * O Sein do ouro é Wirklichkeit (realidade/efetividade) no sentido da Wirksamkeit (eficácia) no interior das possibilidades do agir e do produzir em todo tipo de "empreendimento" e "poder" humanos. * O Goldsein (ser-ouro) do ouro dissolveu-se em uma eficácia no interior da circulação do tráfico de pagamentos, de modo que o ouro ele mesmo não mais precisa estar presente; o ser-ouro consiste no que ele produz no interior dos "cursos" (cotações). * Píndaro diz no segundo verso que o ouro é, na opinião dos homens, μεγασθενής ("poderoso em grande escala"), mas a questão permanece se aqui se exprime uma avaliação do ouro e como o ouro é experimentado para que tenha esse "assentimento" dos homens. * Coloca-se a questão: é o ouro περιούσιος, "mais-essente", porque é μεγασθενής, ou é μεγασθενής porque é περιούσιος ἄλλων? * Interpretar no sentido da primeira possibilidade é fundar as palavras gregas nas representações modernas do ouro e na compreensão do Sein como Wirklichkeit e Wirksamkeit: porque o ouro tem grande poder -- porque com dinheiro se pode fazer tudo -- é mais eficaz e por isso mais real e "mais-essente". * Tanto Píndaro quanto os gregos sabem que "o dinheiro faz o homem", mas esse "Sein" é experimentado como aparecer no dinheiro e como dinheiro, e desmascarado como mero Schein que não deixa o Seiende despontar em sua Unverborgenheit (des-velamento/não-ocultamento), isto é, em seu próprio Scheinen, em seu Sein. * Píndaro menciona na Ístmica II, 11 a expressão χρήματα χρήματ' ἀνήρ -- "como dinheiro presentifica-se o homem no dinheiro" --, mas isso é uma "saga" (ῥῆμα) que apenas supostamente "caminha mais próxima da Unverborgenheit" (ἀλαθείας ἄγχιστα βαῖνον) [Ístmica II, 10]. * O "agir" (Wirken), quando assim pensado, repousa no "aparecer" (Scheinen), seja no Anwesen (presentar-se) que vem à tona, seja no mero Anschein (semblante); por isso μεγασθενής não pode ser compreendido a partir da eficácia de uma força atuante. * Sendo estas ainda palavras gregas de um dizer grego -- e de um poético, que presumivelmente pertence a uma relação privilegiada com o Seiende como tal -- devem ser pensadas de modo grego. * Se o primeiro pensamento é correto para os modernos, mas inteiramente inadequado à experiência do Sein dos gregos, resta apenas a possibilidade de pensar o περιούσιος ἄλλων como fundamento do μεγασθενής. * Essa possibilidade torna-se necessidade ao atentar cuidadosamente para a estrutura interna dos três versos: seu dizer só se arredonda com as palavras περιώσιον ἄλλων e com elas ao mesmo tempo retorna à primeira palavra Μᾶτερ Ἁλίου -- "Mãe de Hélio" -- ; o que há a pensar no "Seiendsein" (ser-ente) do ouro pertence ao que o nome mais próprio da Mãe do Luminoso nomeia, à θεία (divindade/brilho divino) ela mesma. * O ouro é περιούσιος ἄλλων -- em seu Glänzen tão aparecente que supera em brilho tudo o mais, ao circundar-lhe com seu brilho, retendo no seu, do ouro, aparecer o outro em torno e assim deixando-o primeiro co-resplandecer e assim aparecer, isto é, presentar-se. * Ao mencionar o ouro no contexto do "Dasein" (ser-aí/existência) dos homens e dos deuses, não se deve pensar no metal que existe como mineral ou entesourado como barra em bancos; como o ouro é aqui nomeado o presentante em sentido privilegiado, deve-se respeitar seu Scheinen no meio do Anwesenden. * O ouro reluz em estátuas e templos, em utensílios e armas, em carros e vasos, em diadema e arreios; assim aparecendo, sobrebritha, circunda e atravessa com seu brilho tudo; reúne em si o brilho de modo que, luzindo, aponta para além de si e deixa o outro co-resplandecer. * O enfeite e o adorno em sua essência própria não são o que apenas brilha por si e atrai o olhar para si e para longe do outro; são antes aquilo em que o enfeitado primeiro é "elegante" -- isto é, imponente --, tendo um aspecto e se destacando, vindo ele mesmo ao Scheinen; onde algo está apenas carregado de enfeite, o enfeite não orna, o que implica que ele recua deixando o enfeitado aparecer -- e isso o ouro é capaz antes de qualquer outro. * O ouro em seu Leuchten é "mais-presentante em torno de todo o outro" na medida em que deixa esse outro co-aparecer cada um em seu próprio; e somente porque o ouro é de tal modo mais-presentante, περιούσιος, é também μεγασθενής. * Pensando a partir do Anwesen próprio como esse Scheinen, pensa-se também o significado de μεγασθενής de modo grego pela primeira vez: μέγας significa antes de tudo o "vasto", o "que se estende ao longe", o "de largo alcance"; o "grande" é o que impera na vastidão, aparecendo nela em toda parte sem todavia presentar-se em cada lugar possível da vastidão aberta. * σθένος significa a força, mas não como força de impacto que produz pressão em um nexo causal de efeitos, e sim como Ge-Walt (poder/violência) no sentido do irradiar coletado de um imperar; em tal sentido, potentemente impera o Leuchten como deixar-aparecer que resplandece. * O ouro não é de modo algum apenas nomeado como uma coisa reluzente entre outras que as supera gradualmente em intensidade de brilho; antes é nomeado porque, pensado de modo grego, a essência do Sein repousa no Scheinen, de modo que esse Seiende que se chama "ouro" é ele mesmo, em certo sentido, o Sein do Seiende. * No ouro, a essência do Sein se reuniu de modo peculiar tal que o Sein pode aparecer no ser desse Seiende como ele mesmo; experimentar isso, os modernos são pouco exercitados, pois não mais estão familiarizados com essa essência do Sein e mal conseguem reconhecer ainda sua sombra como tal. * Mesmo onde os modernos ainda "vivenciam" o Glanz e o Glänzen, por exemplo no "estético", ele não mais tem para eles o poder daquele Scheinen que deixa primeiro o Anwesendes (o que se presenta) chegar, isto é, aparecer e "ser" como o aparecer; e mesmo quando se encontra o caminho para pensar o aparecer como o próprio Sein, interpreta-se o aparecer como "mostrar-se" e este como tornar-se perceptível -- mas pensado de modo grego, o aparecer presenta-se no Schein como o Leuchten iluminante; o Schein presenta-se como despontar, sobressair para a luz. * (Ainda que essa conexão essencial entre Glänzen, Scheinen e Anwesen exista de algum modo e possa mostrar-se no "ouro" e em seu Sein, Píndaro ele mesmo diz em suas próprias palavras o exato oposto do que se ouviu: o Scheinen do ouro não é o Sein do Seiende, mas o brilho do ouro apenas induz os homens a tomá-lo pelo mais-essente, o que em verdade não é. * As palavras de Píndaro são: μεγασθενῆ νόμισαν χρυσὸν ἄνθρωποι περιώσιον ἄλλων -- e se traduz νόμισαν ἄνθρωποι por "os homens apenas creem" que o ouro é "excessivo"; ou ainda: aos homens "parece" apenas o ouro "mais poderoso" do que outro. * Segundo essa interpretação, o ouro não seria em si "mais-essente do que todo o resto", mas apenas em razão de uma opinião dos homens que em verdade é um erro; mas isso Píndaro não pode dizer nesses versos.) * νομίζειν significa também crer, ter por, parecer, mas significa propriamente: destinar ao Seiende, ao Anwesenden, o que a ele pertence, isto é, deixar-lhe pertencer o que lhe é devido; respeitar o Anwesendes naquilo que e como é, e deixar esse próprio Sein primeiro mostrar-se no respeitar -- mostrar-se, a saber, no próprio despontar e resplandecer; tal respeitar deixa o Anwesende avançar como ele mesmo; tal respeitar é Er-achten (estimar/considerar) no sentido rigoroso da palavra. * O "dünken" (parecer) pertence ao "denken" (pensar): "mich dünkt" significa: pensando a própria coisa, encontro nela isso e aquilo -- ela mesma em seu aparecer me acomete de tal e tal modo; assim me acometendo, a própria coisa se conduz "ao ânimo". * Ἄνθρωποι νόμισαν não quer dizer: os homens apenas opinam que o ouro é mais-essente, mas eles respeitam e acertam o próprio Sein próprio desse Seiende ao estimá-lo assim, a saber, como περιώσιον ἄλλων, "mais-presentante do que todo o outro".