====== GA78 §6 ====== //Der Spruch Anaximander (1946) [2010]// **§ 6. A tradução literal de tà ónta como provocação para o pensamento** * A tradução literal de tà ónta por "os entes" (die Seienden) em lugar de "as coisas" (die Dinge) é apresentada como uma provocação inicial para o pensamento, na medida em que o termo "coisa" oculta a referência ao caráter verbal e participial do ente, enquanto "entes" mantém viva a questão do seu ser. * A escolha pela tradução literal não visa mera correção filológica, mas a fidelidade à palavra do pensador, que exige do pensamento um movimento de escuta e espera pelo que ainda está encoberto e precisa ser pensado. * A tradução por "entes" soa estranha e deselegante, mas tal estranheza é necessária para despertar a atenção para o que propriamente está em jogo no dito do pensador, diferentemente da tradução por "coisas", que se acomoda ao senso comum e à facilidade de compreensão. * O apelo ao "sentimento natural da linguagem" pode ser, nesse contexto, um indício de falta de pensamento, pois ele esquece justamente aquilo que os pensadores tentam pensar, recaindo na trivialidade. * A fidelidade à palavra, no traduzir, deve orientar o pensamento para o que é digno de ser pensado segundo o próprio dito do pensador, a saber, tà ónta, os entes, sobre os quais fala a primeira parte do fragmento. * A questão sobre a referência do pronome "eles" (sie) no segundo período do fragmento — "pois eles pagam pena e expiação" — remete aparentemente a "as coisas" (die Dinge) do primeiro período, mas essa identificação imediata é problemática. * O primeiro período do fragmento menciona, no neutro plural, não apenas os entes (tà ónta), mas também "de quais" (aus welchen) e "para estes" (zu diesen hin), indicando uma relação de proveniência e retorno que não pode ser simplesmente referida a "coisas", sob pena de se dizer que uma coisa perece em outra coisa, o que é absurdo. * A tradução corrente opta por "de onde", "do que" e "para lá", evitando a estranheza de "de quais" e "para estes", mas a tradução literal e incomum é necessária para permanecer na palavra do fragmento e no que nela permanece oculto e ainda por pensar. * O fragmento nomeia, além dos entes (tà ónta), "outros" (andere) — "de quais" e "para estes" — que são aqueles a partir dos quais o surgir e o perecer "é" para os entes, o que exige uma interpretação mais cuidadosa da relação entre os termos. * A referência do pronome "eles" (sie) no segundo período pode ser aos entes (tà ónta) do primeiro período, mas também pode ser a esses "outros" mencionados, sendo precipitado decidir definitivamente sobre essa referência antes de compreender o que significam "pagar" e "expiação". * A referência mais imediata do "eles" aos entes (toîs oûsi) do primeiro período é a que mais claramente mostra como os dois períodos, embora nomeiem coisas diferentes, falam do mesmo, a saber, dos entes (den Seienden). * Tà ónta nomeia aquilo de que fala o fragmento: o todo (das Ganze) a partir do qual o fragmento nos interpela; é o que nos toma em exigência (in den Anspruch nimmt) e para onde devemos ouvir previamente e constantemente. * Torna-se necessário considerar mais detidamente a palavra tà ónta e o que ela nomeia antes da interpretação dos dois períodos, pois ela é o fio condutor para a compreensão do dito do fragmento. * A advertência de que apenas o próprio fragmento pode dar a informação adequada sobre como as coisas se dão com os entes é correta, mas isso não dispensa a necessidade de uma interpretação prévia que elucide o que o fragmento diz sobre os entes. * A interpretação dos períodos do fragmento requer um olhar e uma escuta prévia para tà ónta, os quais precisam da clareza (Helle) adequada, que é tanto luz para o ver quanto som para o ouvir, e que é mais originária que ambos. * A elucidação (Erläutern) visa trazer à pureza (ins Reine) o que se tornou turvo e surdo, e por isso é necessário tentar dizer a palavra tà ónta de modo mais claro e pensante, sem consideração explícita pelo conteúdo do fragmento. * Pensar mais pensantemente essa palavra significa considerar que ela é uma palavra grega que nomeia, em nossa língua, "o ente" (das Seiende), o que já nos remete à sua relação com o ser. * A referência à gramática das formas de ón não é apenas para os que ignoram o grego, mas também para os filólogos, pois o pensamento do pensador grego exige mais que o mero domínio da língua. * O domínio da língua grega ou da própria língua materna não é suficiente para compreender os pensadores, pois a compreensão do pensamento exige um esforço que vai além da fluência linguística. * Há muito tempo, a gramática decidiu sobre a essência da linguagem e sobre o que, nela, é o dito (das Gesprochene), reduzindo o falado à significação compreensível da palavra e esquecendo o não-dito (das Ungesprochene). * O não-dito do dito é esquecido, e não há uma gramática do não-dito, pois tal gramática é, em essência, impossível, mas o não-dito pode ser justamente o que propriamente fala na linguagem, mesmo quando ela está "morta". * O domínio da gramática, apoiado e fortalecido continuamente, impede que o não-dito da linguagem chegue ao pensamento, tornando o pensamento mais refletido (nachdenklicher). * A gramática provém da "lógica" consolidada no helenismo tardio, na qual se sedimentou uma interpretação peculiar do lógos como "enunciado", "conceito", "juízo" e "razão", determinada pelo modo como o ente se manifesta no lógos. * O modo como o ente se manifesta no lógos decide-se a partir de como o ser mesmo se ilumina (sich lichtet) e "é", e a compreensão de "ser" como verbo auxiliar (Hilfszeitwort) é, por mais insignificante que pareça, algo de tão monstruoso (Ungeheures) que se relaciona com a dominação da técnica mecânica (Maschinentechnik) sobre a época atual. * "Ser" é tido como mero verbo auxiliar, apesar de todo o "grito do ser" (Seinsgeschrei) que circula nos meios filosóficos e literários, quando, na verdade, ele não é apenas o verbo por excelência, mas a palavra de todas as palavras, a palavra do "tempo", sendo que a própria palavra "tempo" é apenas a palavra-preliminar (Vorwort) para o ser mesmo. * A pergunta sobre o que nos importa a palavra "ser" e sua gramática revela que, embora se queira as coisas (Sachen) e a realidade (Wirklichkeit), essa fuga em direção ao real pode ser a fuga propriamente dita diante do ser, que não é apenas uma iniciativa humana, mas um recuo do próprio ser. * A fuga diante do ser, que não é apenas uma inclinação ou manifestação do ser, mas um traço fundamental de sua própria essência, mostra a necessidade de nos ocuparmos da gramática da palavra tà ónta, que se dirige a nós nos fragmentos dos pensadores gregos. * O ón, como particípio do verbo eînai ("ser"), carrega uma ambiguidade essencial que é decisiva para a compreensão do que ele nomeia, e que a gramática tradicional, ao reduzi-lo a um mero particípio, acaba por encobrir. * A palavra ón, na sua forma participial, diz tanto "ente" (das Seiende) quanto "sendo" (seiend), ou seja, refere-se tanto ao ente mesmo em seu ser quanto ao ser do ente (Sein des Seienden), e essa dupla significação não é um mero acaso linguístico. * A ambiguidade do ón, que participa tanto da declinação nominal (ptôsis) quanto da flexão temporal verbal (chrónos), revela que o nome "ser" (das Sein) é a nominalização tanto do "ser do ente" (seiendsein) quanto do infinitivo "ser" (eînai), de modo que ambos podem significar o mesmo, embora não se recubram completamente. * Pensar um ente mesmo (em seu ser) e pensar o ser do ente são coisas diferentes, embora num sentido oculto sejam o mesmo, e essa distinção não pode ser tratada com indiferença, pois ela é a própria questão que se coloca no pensamento. * A indiferença no uso dos termos "ser" e "ente" não é justificada pela correção factual de cada uso, pois ela encobre a distinção mesma, que não é apenas negligenciada, mas permanece velada como tal, sendo a negligência do não-conhecimento da distinção a causa do uso indiferente e confuso. * A história do pensamento ocidental, desde os gregos, caracteriza-se por uma negligência, que beira o inquietante, para com a distinção entre ente e ser, e essa negligência não pode mudar o fato de que o ón é, em sentido essencial, ambíguo, pois sempre que se pensa num dos significados, o outro se anuncia. * Essa ambiguidade essencial (Zweideutigkeit) é utilizada incessantemente pelo dizer irrefletido de toda fala, e também se move nela o dizer pensante dos pensadores, desde o início do pensamento ocidental até seu fim, desdobrado no pensamento de Nietzsche. * A ambiguidade essencial do ón não é apenas um problema de significado linguístico, mas um indício de que a distinção entre Ser e ente (Unterscheidung von Sein und Seiendem) é o âmbito não dito e ainda não pensado do pensamento ocidental, sendo a tarefa do pensamento vindouro pensar essa própria distinção. * A ambiguidade do ón é apenas um ensejo (Anlaß) para as questões sobre se o "duplo" (Zwiefache) que aparece na palavra reside na essência do ente ou no próprio ser, e se o "simples" (Einfache) que se desdobra nesse duplo é algo que pode ser pensado como primeiro. * Para o pensamento vindouro, já seria suficiente aprender a perguntar essas questões e a experimentá-las, mantendo-as em aberto como um aberto (Offenes) para a reflexão (Andenken), sem pretender respondê-las de imediato. * É preciso deixar em aberto se a ambiguidade essencial do ón já foi alguma vez pensada como tal, se sua abrangência foi experimentada, e se o pensamento já se viu lançado na sua mais extrema, ou seja, mais simples, perplexidade (Ratlosigkeit) diante do duplo. * A perplexidade diante do duplo, se alguma vez experimentada, poderia ser a própria distância (Ferne) em relação ao ser, e essa distância que se espalha poderia iluminar-se como a oculta proximidade (Nähe) ao ser. * O fragmento de Anaximandro, ao nomear aquilo de que fala — o todo (das Ganze) — por meio do particípio ón, nos adverte para a ambiguidade do ón, exigindo que mantenhamos esse fio condutor ao longo de toda a elucidação do fragmento, para que o enigma permaneça como enigma. * O fragmento fala no duplo (im Zwiefachen) que o ón nomeia, ou seja, da distinção entre ente e ser, mas não fala dela como tal distinção; ela permanece no fragmento o não-dito (das Ungesprochene), assim como em toda a história do pensamento ocidental. * Pensar na distinção (in der Unterscheidung) entre ente e ser é diferente de pensar a própria distinção como tal (die Unterscheidung selbst als solche); a filosofia, enquanto filosofia, move-se na primeira, pois ela sempre pressupõe o ente em seu ser, mas não pensa a distinção mesma. * A filosofia tem sua essência em realizar e desenvolver essa pressuposição do ente em seu ser, ou seja, em colocar (aufstellen) o ser do ente para a representação, mas sem se ocupar da distinção como tal. * O que permanece não-dito no fragmento, a distinção, quando é nomeada, já a experimentamos como tal, e dizemos mais do que o fragmento diz, mas esse "mais" não é introduzido no fragmento, e sim escutado (enthören) de sua própria palavra, da ambiguidade do particípio ón. * A distinção não-dita pertence ao fragmento, e escutá-la significa deixá-la lá onde ela pertence, ao contrário do conhecimento científico, que, ao ouvir, toma o ouvido para si, enquanto o ouvir autêntico é um ir em direção ao que é ouvido (ein Hingehen und Hingehören). * A pergunta sobre onde pertence a distinção não-dita entre ente e ser só pode ser respondida quando todo o fragmento for pensado, e a preparação para isso consiste em aprender a prestar atenção ao todo (das Ganze) de que fala o fragmento, sem esquecer que esse todo, tà ónta, é ambíguo segundo a essência participial do ón. * A tradução de tà ónta por "as coisas" (die Dinge) já perde definitivamente a oportunidade de atentar para a ambiguidade do ón e para a distinção entre ente e ser, pois "coisa" é apenas um substantivo, não um verbo; a tradução por "os entes" (die Seienden), embora nomeie apenas um lado da distinção, já basta para despertar a atenção para o outro e, assim, para a distinção mesma. * A tradução literal de tà ónta por "os entes" só torna acessível o nomeado no fragmento se pensarmos tà ónta a partir do ón como o particípio elucidado, ou seja, se já compreendermos a sua ambiguidade essencial. * A forma plural de tà ónta e a sua ambiguidade correspondente: "os entes" (die Seienden) – "o ente" (das Seiende), e a recusa da significação de tà ónta como "recorte" (Ausschnitt) do ente, apontando para a reunião (Versammlung) de todos os entes na unidade do ser como um outro não-dito do fragmento. * A forma plural de ón, tà ónta, nomeia vários "dos entes", e a pergunta sobre quantos e quais Anaximandro quer dizer leva a considerar se o plural no neutro, com o artigo determinante tà (toîs), quer dizer "todos os entes", o que não pode ser a mera soma, pois nenhum mortal pode abarcar a soma de todos os entes. * Se a totalidade (Allheit) não é a soma, talvez seja "o todo" (das Ganze), mas a pergunta sobre se o todo é mais acessível que a soma permanece, e se o todo dos entes é visado, ele deve ser pensado como uma unidade (Einheit) na qual os entes singulares não desaparecem, mas se relacionam entre si. * O segundo período do fragmento expressa claramente a relação dos entes entre si por meio do allēlois ("uns aos outros"), de modo que tà ónta, "os entes", são os entes singulares em sua relação uns com os outros, mas todos os singulares em sua unidade. * Se os entes singulares são pensados em sua unidade, eles o são a partir dessa unidade, mas "unidade" aqui não significa soma ou todo, e sim aquilo em que todos eles são unos, em que eles se reúnem e concordam (zusammen und überein kommen) como o que são. * Os entes só podem vir juntos e encontrar-se em seu unificador (Einigen) se já estiverem reunidos (versammelt) e, nessa reunião, repousarem unos; tà ónta são os entes singulares a partir de sua reunião (Versammlung) naquilo que eles são em seu estar-uns-com-os-outros (Zueinander). * A forma plural é aqui inequivocamente ambígua (eindeutig zweideutig), pois tà ónta nomeia tanto os entes singulares quanto os entes na unidade a partir de sua reunião, e o plural do neutro, desde o sânscrito, designa justamente os muitos singulares em sua unidade. * O plural tà ónta pode ser traduzido com razão pelo singular "o ente" (das Seiende), desde que este seja pensado como os entes singulares em sua reunião, cuja singularidade (Singularität) é ela mesma única, na medida em que repousa no uno do que unifica (Einenden Einen). * As palavras "reunião" e "unidade" não são ditas no fragmento, o que levanta a suspeita de que estamos interpretando algo essencial que não está nele, mas o fragmento ainda não foi pensado se o pensar é mais do que a primeira escuta do teor literal, no qual não se encontram palavras gregas para "uno" e "reunião". * Pensar "os entes" (tà ónta) como "o ente" (to ón) implica, dada a ambiguidade essencial deste nome, pensar o ente mesmo (das Seiende selber), e não um recorte dele, e isso significa pensar o ser do ente (Sein des Seienden), o que o particípio ón já nomeava. * Traduzir tà ónta por "o ente" (das Seiende) faz com que a palavra traduzida seja mais clara do que "as coisas" (die Dinge), pois tà ónta diz: o ente em seu ser, e isso já nos faz pensar o ente a partir da distinção entre ente e ser. * A tradução literal de tà ónta por "os entes" é um fio condutor, mas a literalidade mais estrita (wörtlichste Übersetzung) ainda não é a tradução fiel (wortgetreue) ao sentido, pois a simples correspondência de palavras em diferentes línguas não garante a fidelidade à palavra que diz o que propriamente há-de-ser-dito. * A tradução literal de eînai por "ser" e de ón por "sendo" está correta segundo o dicionário, mas o propósito é pensar o fragmento e perseguir o que era digno de ser pensado para o pensador primitivo, a saber, tà ónta, o ente, e mais claramente, o ente em seu ser.