====== 26. Meditar ====== //Besinnung (1938/39), ed. F.-W. von Herrmann, 1997, XIV, 438p.// 80. O [[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]] (acontecimento apropriador) consiste no [[lx>termos:a:austrag|Austrag]] (auseinandertragen, o levar-a-cabo em separação) da [[lx>termos:e:entgegnung|Entgegnung]] (contraposição) e do [[lx>termos:s:streit|Streit]] (disputa) até a decisão de uma história do [[lx>termos:d:da-sein|Da-sein]], sendo essa trazida a termo ([[lx>termos:a:austragen|Austragen]]) a [[lx>termos:w:wesungsstille|Wesungsstille]] (quietude essencial) cuja voz, partindo do [[lx>termos:s:seyn|Seyn]], deixa emanar toda determinação, de modo que o [[lx>termos:a:ab-grund|Ab-grund]] (abismo) carregado pelo [[lx>termos:a:aus-trag|Aus-trag]] faz surgir a liberdade do dizer pensante-poetizante. 81. O Austrag é definido como a zu-eignung (apropriação) entrückend-lichtend (que arrebata e clareia) e contrária de si mesma daquilo que, na Entgegnung e no Streit, é trazido ao [[lx>termos:e:eigentum|Eigentum]] (propriedade) do ente em seu conjunto, sendo o Seyn a via de acesso à [[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]] (clareira) do abismo aberto por essa capacidade de trazer a termo, cuja [[lx>termos:v:verweigerung|Verweigerung]] (recusa) faz brotar a necessidade da apropriação contrária que constitui o Eigentum, essenciado a partir da divindade, da humanidade, do mundo e da terra. * O [[lx>termos:a:aus-tragen|Aus-tragen]] significa tanto preservar até a maturidade da decisão essencial quanto tomar a própria decisão, elevando a queda ao [[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]] e entregando o [[lx>termos:e:er-eignis|Er-eignis]] ao seu próprio ser, sendo seu caráter essencial o de fundar clareando, libertando o livre e reconduzindo o afastar-se e o aproximar-se uns dos outros * O que é trazido a termo são a Entgegnung e o Streit, ambos de essência apta ao Austrag e entrelaçados em seus arrebatamentos recíprocos; nessa [[lx>termos:e:er-eignung|Er-eignung]], primeiramente são apropriados em seu ser os contrapostos (deus e homem) e os que disputam (mundo e terra), acontecendo então, nesse apropriar, a história como fundação da clareira no Da-sein do homem 82. O Er-eignis, ao apropriar-se no Da, constitui a recusa (Verweigerung) do ser enquanto entidade ([[lx>termos:s:seiendheit|Seiendheit]]) e a negação de todo representar herstellend-berechnend (produtor-calculante), destruindo o predomínio do [[lx>termos:l:logos|λόγος]] e arrancando o ente da machenschaft (maquinação) para essenciá-lo como Eigentum, o que coloca o pensar diante da decisão entre tornar-se o pensar-apropriador do Seyn ou nada mais ser. * O ser essência do Er-eignis só pode ser indicado até o "lugar" do pensar de onde se torna possível o projeto que se lança a si mesmo como um lançado, sendo a própria ocorrência do Ereignis um dom deste * A clareira arrebatadora aponta para algo que jamais se deixa representar como processo de um ente e que, mesmo assim, supera em essenciação todo ente, mostrando apenas o caráter abissal do ser e a essenciação do abismo, o qual recusa todo refúgio no subsistente e, nessa recusa, doa a atribuição à necessidade de pertença * Aquilo que metafisicamente chamamos "deus", "homem", "mundo", "terra" pertence historicamente ao Seyn, na medida em que o nomeado essencia-se abissalmente como Eigentum, cada um remetido, de modo diferenciado, à pertença ao Ereignis * Nem coerção nem arbítrio, mas a liberdade como libertação do fundamento no abismo é o modo do projeto histórico-do-ser, no qual o ser-lançado do projeto, enquanto apropriado, deve entrar no âmbito de seu próprio saber * A indicação a partir do "tempo" arrebatador-clareante como "verdade" (abertura do projeto) do ser só pode, de início, dar um aceno a partir da defesa, de que o "ser" não pode ser encontrado na representação como um ente diluído e esvaziado até tornar-se o conceito "mais geral" * O ser, essenciando-se no "tempo", anuncia-se como o "entretanto" ([[lx>termos:i:inzwischen|Inzwischen]]) do ente, entretanto que exige um vínculo essencialmente transformado consigo mesmo, a instância do [[lx>termos:d:da-sein|Da-sein]], exigência esta que é apenas um vínculo representacionalmente apreendido e mal interpretado para o fato de que o Seyn, como Ereignis, apropria o Da-sein como essenciação de sua fundação de verdade 83. A [[lx>termos:s:seiendheit|Seiendheit]] (entidade) associa-se à [[lx>termos:m:machenschaft|Machenschaft]], cujo desdobramento constitui a unidade de história, técnica e discurso, desdobramento que se dá como abandono ao esquecimento do ser ([[lx>termos:s:seinsverlassenheit|Seinsverlassenheit]]), esse mesmo esquecimento sendo uma recusa ([[lx>termos:v:verweigerung|Verweigerung]]) do Seyn cuja essenciação, por meio da [[lx>termos:e:ent-eignung|Ent-eignung]] (desapropriação), acena para a Er-eignung levada ao Austrag, no qual o Er-eignis se essencia como a clareira do Seyn, e essa essenciação constitui a história, junto ao Seyn e ao abismo do entretanto, essenciação do nada que não provém da entidade nem, contudo, da mera "negação". 84. O nada é pensado como o abismo da clareira da recusa, cujo fundamento é abissal justamente por essa recusa, sendo esta uma Er-eignung na instância da espera ([[lx>termos:e:er-harrung|Er-harrung]]) que se converte em Ent-eignung, fundamento essencial de uma negação ainda não redutível ao mero enunciado objetivante sobre presença e ausência, de modo que a negação originária permanece como constância de uma guarda em que a recusa pode e deve clarear-se, sem por isso entregar sua essência plena. 85. O nada admite três modos de pensamento distintos e crescentemente mais próprios: o conceito metafísico do nada em Hegel como indeterminado imediato, o conceito metafísico pensado historicamente como o nadificante, e o conceito histórico-do-ser do nada como o abismo enquanto essência do Seyn, sendo apenas neste último que o "nada" perde toda aparência de mera negatividade, pois o abismo é a essenciação da recusa enquanto Er-eignung da doação. 86. O dito inicial de Parmênides, de que Seyn e clareira são o mesmo, no outro início já não remete à entidade como presença aberta que se pertence à percepção, mas ao próprio abismo dessa pertença como o que inaugura, o Seyn sendo a Er-eignung do entretanto que se clareia e, ao mesmo tempo, doa e recusa a própria clareira como sua essência, de modo que a decisão pelo Seyn recoloca todo ente em outra vinculação e outra essenciação, o Seyn essenciando a clareira que se apropria no entretanto do Austrag entre [[lx>termos:e:entgegnung|Entgegnung]] e Streit. 87. A verdade é a clareira pertencente ao Seyn como Er-eignis, clareira que traz a termo a Entgegnung e o Streit no aberto de seu cruzamento, o que implica que a [[lx>termos:a:aletheia|ἀλήθεια]] (não-velamento), enquanto abertura e clareira, é um nexo histórico determinado pelo Seyn, e não algo definível arbitrariamente ao alcance do entendimento cotidiano. * A clareira jamais é uma abertura vazia e indeterminada, tampouco pressupõe algum ente previamente admitido, mas preserva o "ser" da [[lx>termos:a:austragung|Austragung]] e, num só movimento, da Entgegnung e do Streit; apenas muito além, no litígio do "mundo", no ente intramundano, a essenciação da clareira aparece como o mostrar-se do ente, mostrar-se que já pressupõe o ser inicial da clareira * No pensamento grego-metafísico, a experiência e o saber da ἀλήθεια dirigem-se inteiramente ao desvelado como tal, sendo essa desvelação a presença do permanente, mas o próprio caráter temporal dessa presença e a [[lx>termos:v:verbergung|Verbergung]] (velamento) que a acompanha não são interrogados, o [[lx>termos:e:einai|εἶναι]] sendo apenas posto em relação com o [[lx>termos:n:noein|νοεῖν]] * Que a desvelação seja presença e, ao mesmo tempo, um desvelar que implica resguardo e velamento, permanece fora do alcance do pensar grego; por isso a compreensão da não-velamento como abertura do ente é, em sentido estrito, não-grega, pois só assim o inicial do pensar do ser se torna propriamente pensável para nós como algo que nos foi apropriado * A transformação da ἀλήθεια em [[lx>termos:h:homoiosis|ὁμοίωσις]] e [[lx>termos:a:adaequatio|adaequatio]], desta em [[lx>termos:c:certitudo|certitudo]] e certeza da consciência, e desta em saber absoluto e "espírito", culminando na experiência técnico-histórica e no "vivenciar", retirou definitivamente da metafísica qualquer possibilidade de pensar a ἀλήθεια na direção da presença e do desvelamento velante * Somente a partir de uma Not (necessidade/carência) pode advir a necessidade de interrogar agora o caráter temporal da presença e a essência do velamento e desvelamento, necessidade que pertence ao excesso não libertado da essenciação do próprio Seyn, determinando o instante de nossa história 88. Para a metafísica, o ser enquanto [[lx>termos:s:seiendheit|Seiendheit]] é imediatamente [[lx>termos:a:arche|ἀρχή]] e, portanto, medida, calculada a partir do ente e para ele como o Absoluto ou o Incondicionado, ao passo que o Seyn nunca é medida, pois sua verdade diz antes de tudo que não há medida alguma no ente, já que este é apropriado como [[lx>termos:e:eigentum|Eigentum]] na questionabilidade das decisões do Ereignis, únicas que concedem a proximidade e a distância dos deuses e, a partir delas, a luta silenciosa pela transformação essencial do homem. 89. A história do Seyn consiste na Er-eignung da verdade como clareira, sendo que, no primeiro início, à doação segue-se necessariamente uma recusa, porque o ser enquanto entidade é posto a serviço do predomínio do ente, recusa que se desdobra como inversão da essência da verdade em ὁμοίωσις, retidão, certeza e justiça, culminando no nivelamento da verdade à entidade como maquinação e na abertura maquinal do ente como "publicidade" ([[lx>termos:ö:offentlichkeit|Öffentlichkeit]]). 90. A Er-eignung e a [[lx>termos:s:stimmung|Stimmung]] (disposição afetiva fundamental) não vieram a constituir explicitamente o primeiro início, mas foram pensadas, desconhecidas em sua essência, sob outras figuras, ocultando-se a apropriação na pertença de [[lx>termos:n:nous|νοῦς]] e [[lx>termos:l:logos|λόγος]] ao ser, pertença que, não superada por falta de saber da verdade, acabou deslocando a entidade (como objetividade) para o homem (como sujeito), de modo que a questão do ser se esconde atrás da problemática [[lx>termos:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]] até culminar na maquinação como predomínio. * A [[lx>termos:p:physis|φύσις]] do primeiro início converte-se em maquinação, e a pertença mútua de νοεῖν e εἶναι converte-se na relação entre "vida" e "vivência", relação que se apoia no "orgânico" mas que, sob esse nome, esconde o cálculo e planejamento maquinais mais puros * A disposição afetiva fundamental pertence à Er-eignung; como voz do Seyn, ela dispõe o apropriado numa [[lx>termos:g:grundstimmung|Grundstimmung]] que se torna fundamento de uma fundação da verdade do Seyn no Da-sein, não sendo mero sentimento, faculdade anímico-subjetiva, "fundamento" de comportamentos, nem simples [[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]] (encontrar-se afetivo) * A interpretação tentada em "Ser e Tempo", embora pense a partir da questão histórico-do-ser do Da-sein e para ele, ainda contém o equívoco de deslocar a disposição afetiva para o "lado" do ser do homem, em vez de levar a sério seu caráter de Ereignis, permanecendo como obstáculo a interpretação metafísico-inicial da disposição como [[lx>termos:p:pathos|πάθος]] e [[lx>termos:a:affectio|affectio]] 91. O "[[lx>termos:d:da|Da]]" nunca é "aí" como nome para a presença, mas aquilo em que semelhante presença se essencia, das-sendo clareira para todo possível onde e quando; esse Da se clareia no Da-sein, o qual se essencia como a constância ([[lx>termos:b:bestandnis|Beständnis]]) do entretanto ([[lx>termos:i:inzwischen|Inzwischen]]), constância fundada na pertença à Ereignung, sendo o entretanto a unidade originária do estar-em-meio e do ínterim, a partir da qual disputa e contraposição cruzam suas trajetórias na clareira. 92. O Da-sein não é condição de possibilidade nem fundamento de condição da possibilidade do "homem" enquanto algo presente, mas a pertença abissal na clareira do Seyn, de modo que, embora "Sein und Zeit" e "Vom Wesen des Grundes" ainda falem em termos metafísicos, o pensamento ali contido já pensa de outro modo, sem contudo libertar-se plenamente no aberto de seu próprio abismo, o que torna a comunicação ambígua sem tornar impossível seu pensar posterior. 93. O genitivo em "Da-sein des Menschen" deve ser pensado histórico-do-ser, pois o Da-sein é "do" homem no sentido de uma transformação essencial previamente determinada pelo Seyn e a ele apropriada, sendo o Da-sein o lugar essencial da subversão do homem para a guarda vigilante da verdade do Seyn, nada tendo de "humano" como feitura, atitude ou comportamento, mas apenas no sentido de que o Da-sein reivindica o homem para essa transformação essencial. 94. Ainda dentro da metafísica, a posição do homem como ente em meio ao ente enquanto tal é indicada pelo "[[lx>termos:s:seinsverstandnis|Seinsverständnis]]" (compreensão do ser), que, à luz da questão pela verdade do Seyn, significa antes o projetar dessa verdade, sendo essa compreensão do ser não uma propriedade nem a distinção essencial do homem em sentido propriedades-ôntico, mas o fundamento essencial do homem já determinado para a transformação essencial. * O projetar é ele mesmo lançado, posto na instância do aberto do projeto do Seyn, e essa posição provém do deslocamento ([[lx>termos:v:versetzung|Versetzung]]) que, como disposição afetiva da voz do silêncio, provém do próprio Seyn, sendo, portanto, apropriado pela Er-eignung * O "Seinsverständnis" é assim uma determinação ambiguamente transicional, apontando ainda para a direção da razão e do sujeito, mas sendo já, a partir de um saber claro, a destruição de toda subjetividade do homem e, simultaneamente, a superação da omissão do primeiro início * O que significam a propriedade ([[lx>termos:e:eigentlichkeit|Eigentlichkeit]]) e a impropriedade ([[lx>termos:u:uneigentlichkeit|Uneigentlichkeit]]) do Da-sein não constituem categorias de uma "nova" antropologia, mas indicam que a essenciação do próprio Seyn afina o Da-sein para a apropriação da verdade do Seyn ou para sua perda 95. O Da-sein permanece incomparável e não admite ser subsumido a nenhum âmbito de explicação já conhecido, sendo pensável apenas histórico-do-seyn como a fundação, apropriada a partir da essência do Seyn, de sua verdade própria, permanecendo essa fundação instantemente como saber do Seyn enquanto Er-eignis. * O Da-sein não é, em nenhum sentido, determinação de um ente, seja objeto seja sujeito, nem sequer de qualquer ente de algum modo pensado, pertencendo unicamente à essenciação do Seyn, que abandona a entidade e advém, a partir de sua própria verdade, ao saber e à palavra * Por isso o Da-sein não é encontrável nem demonstrável em nenhum ente, seja subsistente seja no homem, e por isso é "hermenêutico" desde o início, isto é, pensável apenas como o projetado de um projeto distinto, a saber, o projeto do ser sobre seu "sentido", ou seja, sua verdade como clareira * O primeiro apontamento em "Sein und Zeit" costuma ser mal interpretado como se aquilo "demonstrado" já estivesse pressuposto e apenas fosse mostrado posteriormente como se fosse pura descoberta, quando na verdade o que ali se nomeia é justamente o projeto, aquilo de que tudo depende * O Da-sein é o fundamento histórico apropriado a partir do Ereignis para a clareira do Seyn, sendo o ressoar silencioso da voz do Ereignis como instância da quietude, sendo por isso igualmente essencial para o deus e igualmente determinado pelo vínculo com mundo e terra, ainda que, no sentido da meditação apropriadora, o vínculo do Da-sein com o homem tenha um primado que exige que o próximo projeto do Da-sein passe pelo homem * Se o homem já não é mais a "imagem e semelhança" do deus criador judaico-cristão, disso não se segue que seja imagem de si mesmo; a única conclusão para o pensamento histórico-do-ser é que o homem não é imagem de outro algo, mas de essência própria e distinta em virtude do vínculo com o Seyn, sendo a propriedade dessa essência não egoísmo de uma autoposição arbitrária, mas pertença ao que há de mais singular 96. O dito de que o Da-sein é sempre meu ("[[lx>termos:j:je-meines|je meines]]") não indica individualismo subjetivista, mas significa que a instância no Da só pode ser assumida e realizada pura e unicamente no [[lx>termos:s:selbst|Selbst]] (si-mesmo), de modo que a verdade do Seyn só pode ser garantidamente também tua e vossa quando é, plena e unicamente, a minha, sendo o Selbst do Da-sein não a interioridade do sujeito e do "eu", mas a resolução ([[lx>termos:e:entschlossenheit|Entschlossenheit]]) na clareira do Seyn, à qual está apropriada a desapropriação (Enteignung) de toda arbitrária e ocasional sede de eu no próprio Er-eignis. {{tag>GA66 Besinnung}}