====== §8 ====== **PRIMEIRA SEÇÃO** **A vida como âmbito originário da fenomenologia** **PRIMEIRO CAPÍTULO** **Demonstração da vida como esfera problemática da fenomenologia** **§ 8. Nova abordagem: o caráter de relevo da vida em si** A análise da vida em si precisa ser retomada a partir de seu Reliefcharakter (caráter de relevo), pois a multiplicidade das tendências vitais não deve ser compreendida como mera infinidade de conteúdos variáveis, mas como riqueza de estilos direcionais que se sobrepõem, entrelaçam e interpenetram, formando relevos internos móveis pelos quais determinados âmbitos, relações e tendências se destacam sem abandonar o próprio fluxo da vida, de modo que mundo circundante, mundo compartilhado, mundo próprio, estabilizações habituais e orientações científicas, artísticas, religiosas, políticas e econômicas constituem diferentes modalidades de acentuação e domínio no interior da autossuficiência vital. * A caracterização anterior da vida permanece insuficientemente diferenciada e precisa ser novamente apresentada a partir das estruturas que nela se deixam destacar. * As tendências vitais aparecem em múltiplas formas atuais e habituais de superposição, entrelaçamento e interpenetração, cada uma realizando-se segundo estilos particulares de [[lx>termos:v:vollzug|Vollzug]] (realização, execução). * A expressão “multiplicidade incalculável” permanece excessivamente formal e já pressupõe uma tendência construtiva voltada para a formação de conceitos e para o tratamento teórico da totalidade da realidade. * Reduzir a vida a uma multiplicidade de conteúdos impede compreender a estrutura autêntica da experiência do mundo circundante e favorece a falsa impressão de que o decisivo esteja na simples alternância material das coisas vividas. * O elemento fundamental encontra-se menos na quantidade e diversidade dos conteúdos do que na Variationsreichtum des Richtungsstils (riqueza de variação do estilo direcional) segundo o qual a vida se move. * Reliefcharakter nomeia o movimento pelo qual certas acentuações surgem e recuam no interior da vida plena, permanecendo funcionalmente integradas ao seu próprio curso. * Um primeiro conjunto desses relevos encontra-se nos caracteres de [[lx>termos:u:umgebung|Umgebung]] (ambiente circundante), [[lx>termos:u:umkreis|Umkreis]] (círculo circundante) e [[lx>termos:u:umwelt|Umwelt]] (mundo circundante), que normalmente não são tematizados e justamente por isso aparecem como uma espécie de destaque recuado e não expressamente atendido. * A Umwelt mais próxima, a [[lx>termos:m:mitwelt|Mitwelt]] mais próxima e a [[lx>termos:s:selbstwelt|Selbstwelt]] mais próxima formam um patrimônio relativamente instável, um fundo de compreensibilidades e acessibilidades imediatas dentro do qual a vida se orienta sem necessidade de tematização constante. * Um segundo relevo encontra-se no próprio viver nesse mundo, na existência mundana cuja configuração não deriva da simples soma de Umwelt, Mitwelt e Selbstwelt, mas de sua peculiar interpenetração. * As relações dessa interpenetração possuem caráter fundamentalmente não teórico e emocional, de modo que a existência vivida não se constitui originalmente a partir de um observador que contempla cientificamente a si mesmo e seu mundo. * A vida não se encontra primariamente diante de si como espectadora ou sujeito teorizante, mas já se acha inserida e implicada nas relações mundanas que a constituem. * Um terceiro momento de relevo é a Stabilisierung (estabilização), que não significa imobilização das tendências vitais, mas seu tensionamento e fixação relativa em orientações mais ou menos claras e duradouras. * Os relevos da vida cotidiana normalmente não chegam a destacar-se explicitamente no fluxo, acompanhando-o de maneira neutra e sendo carregados com ele, o que confere à vida sua coloração cinzenta, discreta e pouco perceptível característica da [[lx>termos:a:alltaglichkeit|Alltäglichkeit]] (cotidianidade). * Em contraste com essas acentuações discretas, determinadas tendências mostram maior tenacidade, veemência e impulso de expansão, aproximando-se de uma configuração dominante ou mesmo de uma espécie de tirania sobre a vida. * A vida científica, artística, religiosa, política e econômica constitui exemplos dessas tendências fortes, que procuram realizar-se em maior pureza, repelir elementos considerados estranhos ao seu próprio mundo e ampliar progressivamente seu domínio. * Essas formas intensificadas não atuam apenas nas experiências atuais, mas também por meio de interpretações teóricas e mundivisivas pelas quais procuram organizar a totalidade da vida segundo seu próprio estilo direcional. * O Reliefcharakter mostra, assim, que a vida não é uma corrente homogênea nem uma justaposição de conteúdos, mas uma estrutura móvel de intensidades, destaques, recuos, estabilizações e tendências dominantes cuja compreensão prepara uma determinação mais originária de sua esfera problemática. {{tag>GA58 vida}}