====== §6 ====== **PRIMEIRA SEÇÃO** **A vida como âmbito originário da fenomenologia** **PRIMEIRO CAPÍTULO** **Demonstração da vida como esfera problemática da fenomenologia** **§ 6. Sobre o problema da dação do âmbito originário** O âmbito objetivo da filosofia científica precisa ser reiteradamente procurado e seus acessos continuamente reabertos, não por uma deficiência histórica ocasional da filosofia, mas porque a própria estrutura da investigação fenomenológica exige que sua esfera problemática não esteja simplesmente pré-dada, devendo ser metodicamente levada à [[lx>termos:g:gegebenheit|Gegebenheit]] (dação) mediante um processo motivado pela própria vida, no qual se distinguem a abertura radical inicial do campo originário, o esclarecimento fenomenológico do sentido dessa abertura e as diferentes possibilidades e graus pelos quais a esfera problemática pode ser progressivamente dada. * O caráter não imediatamente disponível do objeto filosófico pertence à própria filosofia e determina a complexidade específica de sua metodologia, de modo que não se pode supor um campo já constituído diante do qual bastaria formular perguntas. * A esfera problemática fenomenológica não está schlicht vorgegeben (simplesmente pré-dada), exigindo Vermittlung (mediação), o que obriga a esclarecer previamente o próprio sentido de “pré-dado”, “dado”, “mediar” e “levar à dação”. * Torna-se necessário compreender como algo pode ser inicialmente ausente da vida em si e, contudo, precisar ser dado mediante um processo cuja motivação deriva dessa mesma vida. * Nesse processo distingue-se, em primeiro lugar, a [[lx>termos:v:vorgabe|Vorgabe]] (pré-dação) radical e pura do campo problemático, que inclui simultaneamente o esclarecimento fenomenológico do sentido dessa própria pré-dação e das possibilidades nela contidas. * A própria sequência de constituição do campo exige determinar os graus principialmente necessários do avanço da [[lx>termos:g:gebung|Gebung]] (doação, dar-se), sem pressupor desde o início que todo dado possua a mesma estrutura. * Em segundo lugar, devem ser examinadas as diferentes formas possíveis de pré-dação e os múltiplos modos de iniciar, inserir-se e posicionar-se no interior delas. * Quando se procura liberar principialmente um campo de investigação, qualquer esquematismo classificatório e qualquer distribuição prematura dos problemas em disciplinas já existentes precisam ser evitados, porque uma ordem sistemática antecipada apenas simula soluções e impede que os problemas revelem sua articulação própria. * A aparente segurança produzida por classificações prontas deve ceder ao caráter inquietante e continuamente estimulante das perspectivas problemáticas genuínas. * As considerações históricas precedentes haviam indicado problemas aparentemente diversos — fundamentos lógicos das ciências, sistemas de valores, valores últimos como normas da interpretação da vida e da cultura, história do espírito e suas configurações, desenvolvimento da vida e seu fluxo infinito —, mas todos convergem de modos distintos para a tentativa de apreender a vida como tal. * As questões de cosmovisão foram recusadas enquanto respostas globais não científicas, mas o âmbito geral ao qual se dirigem não deve desaparecer; precisa tornar-se campo de uma ciência rigorosa. * As restrições da fenomenologia à psicologia e às vivências psíquicas também foram recusadas, não porque essas dimensões sejam irrelevantes, mas porque somente podem encontrar sua função adequada num horizonte mais amplo e talvez principialmente diverso. * A estrita manutenção da atitude científico-investigativa torna-se, assim, princípio metodológico indispensável contra as pretensões mundivisivas e contra a redução psicológica. * Vida, história do espírito, vivências, ciência e até ciência originária aparecem reunidas numa dificuldade fundamental: aquilo que deveria constituir o campo originário da investigação não está simplesmente dado e precisa ainda ser conquistado. * A constatação precedente permanece inicialmente ingênua, pré-científica e apenas indicativa, mas permite reconhecer o fato surpreendente de que o verdadeiro campo objetivo da filosofia científica enquanto fenomenologia não pode simplesmente ser encontrado no interior da vida em si. * Antes de perguntar como o âmbito originário deve ser dado e antes de esclarecer radicalmente os significados de “dar” e “pré-dar”, torna-se necessário investigar a esfera em que se funda a necessidade dessa doação metodicamente expressa do campo filosófico. {{tag>GA58 dação es-gibt}}