====== §1 ====== **CONSIDERAÇÃO PRELIMINAR** **Panorama histórico como constatação exotérica da disposição esotérica da consciência fenomenológica do problema** **§ 1. Indicação prévia da fenomenologia como ciência originária da vida em si** **a) O sentido da ideia de ciência originária** A fenomenologia somente se determina radicalmente quando se compreende como ciência originária (Ursprungswissenschaft) da vida em si, isto é, não como uma disciplina filosófica entre outras que recebe de fora seu objeto, seus conceitos, seu método e seu ideal de cientificidade, mas como investigação que, ao produzir concretamente sua própria tarefa e realizar as tendências que nela operam, precisa alcançar a compreensão originária de si mesma a partir da própria vida, assumindo por isso a paradoxia originária de uma ciência cujo objeto inclui seu próprio acontecimento investigativo e cuja fundamentação exige que método, problema, evidência, expressão e cientificidade sejam continuamente reconduzidos às fontes vivas de que emergem. * Os “problemas fundamentais da fenomenologia” convergem para o problema mais originário, persistente e definitivo da própria fenomenologia, compreendida como ciência do princípio absoluto do espírito em si e para si, equivalente à “vida em si e para si”, embora essas expressões permaneçam inicialmente vazias enquanto não forem legitimadas no próprio exercício da investigação. * A fenomenologia pertence ao seu próprio campo de investigação porque sua manifestação como ciência constitui também uma manifestação da vida que pretende esclarecer; essa circularidade não representa deficiência metodológica, mas o caráter específico da vitalidade de suas perguntas, de sua articulação (Fügung), de seus modos de solução e do desenvolvimento de sua problemática. * A vocação mais íntima da filosofia, reconhecível em suas grandes manifestações históricas em Platão, Kant e Hegel, precisa ser trazida novamente à vida a partir de uma nova situação fundamental, sem que a renovação possa consistir na reprodução escolar de doutrinas ou sistemas anteriores. * A primeira determinação da ciência originária exige que ela somente chegue ao entendimento de si por meio da geração efetiva de sua tarefa e da realização autêntica de seus motivos próprios na investigação esclarecedora, fazendo da autocompreensão fenomenológica resultado e simultaneamente momento do próprio Vollzug (realização, execução) fenomenológico. * A fenomenologia encontra continuamente a paradoxia originária da vida em si e para si porque, ao investigar a vida, encontra-se ela própria inserida nessa vida e não pode instalar-se num exterior neutro de onde pudesse objetivá-la sem participar do acontecimento investigado. * Toda tentativa de imobilizar a fenomenologia mediante construções conceituais abstratas, sistemas formais ou resultados objetivados precisa ser recusada quando interrompe o movimento vivo de retorno à origem e de emergência renovada a partir dela. * Somente a realização concreta das tendências que operam na fenomenologia conduz ao seu domínio próprio de problemas; tal domínio somente se deixa abordar quando a própria investigação participa da tendência fundamental que o constitui. * A fenomenologia precisa manifestar-se autenticamente para compreender-se como manifestação, de modo que sua autocompreensão não antecede exteriormente seu exercício, mas cresce no interior dele. * Uma segunda determinação da ciência originária mostra que sua efetivação concreta está incluída na ideia de “ciência”, razão pela qual conhecimento, problema e método não podem ser pressupostos como conceitos evidentes nem simplesmente transferidos de outras disciplinas. * A fenomenologia não pode deixar que ciências especializadas imponham sua problemática e metodologia, porque ambas precisam crescer originariamente da própria origem mediante geração sempre renovada, comprovação e preenchimento evidente das tendências investigativas. * A exigência de fundamentação alcança a própria ideia de ciência, conhecimento, expressão, evidência, prova e fundamentação, impedindo que mesmo uma concepção formalizada ou generalizada de cientificidade seja simplesmente tomada como modelo prévio. * Termos como “ciência”, “problema”, “método”, “origem”, “ideia”, “vida”, “conceito”, “significado”, “esclarecimento” e “expressão” conservam inicialmente um caráter formal e apenas indicativo, devendo ser reconduzidos aos motivos mais originários da vida, que não possuem necessariamente caráter teórico-científico. * Cada autêntica questão metodológica da fenomenologia constitui já um problema objetivo interno à própria fenomenologia e, quando rigorosamente perseguida, conduz necessariamente à origem. * A própria possibilidade de apreender a vida mediante conceitos torna-se problemática quando se reconhece que a linguagem ordinária e seus significados se encontram em larga medida configurados para a relação cotidiana com o mundo circundante, o espaço e as relações espaciais. * A referência a Bergson reconhece a importância de sua percepção das deformações introduzidas por esquemas espacializantes na compreensão da vida e do tempo, embora tal motivo não possa ser transformado em moda cultural nem substituído por construções grandiosas como as de Oswald Spengler. * O que se exige são problemas efetivos e radicalmente fundamentados, não ceticismos engenhosos que acumulam materiais, iluminam-nos segundo perspectivas arbitrárias e terminam contradizendo suas próprias pressuposições. **b) A questão do começo** * A questão do começo torna-se inevitável quando a fenomenologia precisa esclarecer originariamente suas próprias perguntas: não basta perguntar onde se deve começar, pois é necessário compreender o que significa começar numa ciência e, mais radicalmente, numa ciência originária. * Toda questão referente à própria fenomenologia deve ser fenomenológica e precisa ser resolvida fenomenologicamente, impedindo que uma teoria externa do conhecimento forneça antecipadamente critérios para aquilo que só pode esclarecer-se no próprio exercício fenomenológico. * A imagem corrente do começo como ponto inicial de uma linha objetiva falsifica o problema, porque o investigador já se encontra no movimento vital que pretende esclarecer e não pode deslocar-se para uma posição exterior à linha a fim de instalar-se num suposto primeiro ponto absoluto. * As dificuldades associadas ao começo surgem sobretudo quando este é objetivado no tempo objetivo e tratado como um quê determinado já disponível diante da investigação. * A alternativa de simplesmente “começar de fato” não resolve o problema se o método for concebido como instrumento técnico separável do caráter do objeto, que poderia ser aprendido, exercitado e depois aplicado mecanicamente à fenomenologia. * O começo fenomenológico somente pode acontecer quando problemática, campo investigado e modo de acesso se determinam reciprocamente no próprio movimento de pesquisa, em vez de serem reunidos exteriormente após terem sido previamente fixados. **c) O problema do método** * O método fenomenológico não constitui técnica independente que possa ser escolhida antes da investigação, pois método autêntico somente cresce do caráter fundamental do domínio investigado e de sua problemática, conforme Husserl tornou decisivamente consciente. * A afirmação de que o método cresce da problemática ainda permanece insuficiente enquanto não se perguntar de que modo a própria problemática emerge e se os problemas já se encontram prontos numa região objetiva à espera de serem recolhidos pela investigação. * Os problemas surgem no modo da própria colocação da questão e, portanto, no método, em referência ao domínio investigado, fazendo com que método e problemática se constituam reciprocamente. * O campo objetivo não pode ser considerado simplesmente dado de antemão, pois “dado” e “dadidade” (Gegebenheit), palavras decisivas na fenomenologia, precisam elas próprias tornar-se problemas em vez de funcionar como fórmulas mágicas supostamente autoevidentes. * A investigação fenomenológica deve evitar tanto a “não-metodologia do pressentimento e do entusiasmo” quanto a arbitrariedade da fala profética, mas igualmente a estreiteza burguesa e a rotina do trabalhador científico que transforma pesquisa em profissão mecânica. * Exige-se uma consciência viva do problema (Problembewußtsein), originária, constantemente renovada até seus fundamentos e incapaz de repousar em resultados adquiridos, recuperando uma ideia de ciência perdida pelo século XIX e não restaurável por demonstração exterior. * A ciência autêntica precisa ser novamente vivida como questão de ser e criação pessoais, o que confere ao radicalismo fenomenológico uma significação existencial e investigativa simultaneamente. * A ideia da ciência originária exige radicalismo absoluto da pergunta e da crítica, impedindo que a fenomenologia aceite sem exame qualquer pressuposição transmitida pela história do espírito ou pela filosofia contemporânea. * A compreensão histórica autêntica não conduz à veneração passiva das realizações do passado, mas torna a fenomenologia mais implacável diante delas justamente porque permite vê-las em sua proveniência, seus motivos e seus limites. * O radicalismo precisa voltar-se sobretudo contra a própria fenomenologia e contra tudo aquilo que se apresenta como conhecimento fenomenológico, pois nenhuma posição interna ao movimento pode adquirir autoridade simplesmente por pertencer a uma escola reconhecida. * Não existe na pesquisa científica um iurare in verba magistri, um juramento às palavras do mestre; uma geração autêntica de pesquisadores precisa retornar repetidamente às fontes originárias dos problemas e conduzi-las mais profundamente, em vez de limitar-se às margens de questões especializadas. * A continuidade da pesquisa fenomenológico-filosófica não deve imitar o modelo cumulativo de progresso das ciências particulares, especialmente o da ciência matemática da natureza. * A exigência husserliana de “filosofia como ciência rigorosa” torna-se equivocadamente compreendida quando se identifica rigor fenomenológico com reprodução do ideal metodológico das ciências naturais matemáticas. {{tag>GA58 fenomenologia}}