====== §6 ====== **§ 6. Surgimento e declínio. O favor (philia) enquanto garantia recíproca de sua essência. Referência aos fragmentos 35 e 32** **a) Surgimento (physis), favor (philia) e encobrimento (kryptesthai)** A sentença physis kryptesthai philei exige que philein seja afastado tanto do significado sentimental de “amar” quanto da representação subjetiva de preferência, pois o favor (philia) nomeia uma relação essencial em que surgimento ([[lx>termos:p:physis|physis]]) e encobrimento (kryptesthai) concedem e preservam reciprocamente aquilo que cada um é, de modo que a própria essência do surgimento somente vigora na medida em que favorece o encobrimento e recebe deste, inversamente, a garantia de sua emergência incessante. * A tradução literal segundo a qual “a physis ama esconder-se” parece imediatamente compreensível porque introduz representações familiares de amor, prazer e inclinação, mas justamente essa familiaridade impede inicialmente escutar philein segundo o pensamento originário. * Philein encontra-se na mesma região verbal de philosophia e philosophoi, mas isso não autoriza entender o filosofar segundo o sentimento moderno da amizade ou segundo uma ligação afetiva entre sujeitos. * No fragmento 35, os homens que pertencem ao filosofar precisam ser historas de muitas coisas, isto é, aqueles que deixam entrar na visão aquilo que aparece e se mantêm junto ao que se mostra. * No fragmento 32, o hen, “um”, que unifica tudo, não quer e quer ao mesmo tempo ser chamado pelo nome de Zeus, indicando que o pensamento de Heráclito permanece na proximidade de uma unidade que não se deixa simplesmente fixar num nome. * Philein não designa um querer caprichoso nem uma preferência ocasional, mas um favorecer que concede ao favorecido a liberdade de permanecer naquilo que propriamente é. * Favorecer algo não significa fabricá-lo, produzi-lo ou acrescentar-lhe exteriormente uma qualidade, mas deixá-lo repousar em sua própria essência e resguardar aquilo que nele deve permanecer. * A essência do favorecer inclui uma preservação que mantém aquilo que é favorecido em sua propriedade e impede que seja arrancado de seu modo essencial de vigorar. * A relação entre favor e liberdade não deve ser entendida no sentido da livre escolha subjetiva, mas como deixar-ser que concede a uma essência o espaço para pertencer a si mesma. * O favorecimento autêntico não se reduz a complacência, amizade ocasional, engajamento ou disposição afetiva, porque pertence a uma necessidade essencial muito mais originária. * Philein, enquanto favorecer, aproxima-se do modo como algo é cuidado para que possa permanecer aquilo que é, mas esse cuidado não significa intervenção exterior ou tutela. * O favorecimento pertence ao pensamento porque o a-ser-pensado somente pode ser acolhido quando não é submetido à vontade de domínio, manipulação ou objetivação. * A educação oferece um exemplo de favorecimento quando não se converte em disciplina de adestramento nem em mera transmissão de informações, mas deixa o outro chegar ao próprio e assumir sua determinação essencial. * Uma educação que apenas molda segundo modelos exteriores pode afastar daquele favor originário que permite ao outro desdobrar-se a partir de si. * O pensamento, de modo correspondente, precisa favorecer aquilo que pensa em vez de capturá-lo segundo construções previamente impostas. * A sentença physis kryptesthai philei deve, por isso, ser ouvida como indicação de que o surgimento preserva e concede ao encobrimento sua própria vigência. * O favorecimento não se estabelece entre duas coisas previamente constituídas que depois entrariam em relação; a própria relação pertence à constituição essencial de surgimento e encobrimento. * Não se deve interpretar physis e kryptesthai como vivências, paixões ou comportamentos humanos projetados antropomorficamente sobre a “natureza”. * O conceito moderno de sujeito torna especialmente fácil interpretar philein psicologicamente, como se physis fosse uma entidade dotada de preferência, intenção ou sentimento. * A determinação moderna do homem como sujeito e daquilo que está diante dele como objeto pertence a uma época histórica muito posterior ao pensamento originário. * A psicologia, enquanto disciplina específica da subjetividade, pressupõe a transformação metafísica na qual psyche deixa de ser pensada originariamente e passa a constituir uma região interna do sujeito. * A expressão heraclítica não atribui à physis uma psicologia secreta nem personifica processos naturais; ela procura nomear a relação essencial pela qual surgimento e encobrimento se pertencem. * Interpretar o fragmento segundo as categorias do sujeito e objeto faria justamente perder o horizonte em que essas categorias ainda não determinavam a experiência dos entes. * A physis não “ama” o encobrimento como um homem ama alguma coisa, e o encobrimento não constitui objeto de uma inclinação do surgimento. * O favor deve ser entendido ontologicamente como modo de co-pertença em que cada termo preserva o outro em sua essência. * A palavra heraclítica exige, assim, abandonar tanto o sentimentalismo quanto a interpretação antropomórfica e deixar aparecer uma relação mais originária entre emergir e ocultar-se. **b) A philia, favor, canonização, como a relação vigorosa, essencial e recíproca entre surgimento e declínio (encobrimento). Physis como a essência do favorecimento (philia) do surgimento e seu encobrir-se** * Philein nomeia uma relação vigorosa em que surgimento e encobrimento não apenas coexistem, mas se oferecem reciprocamente aquilo que cada um necessita para permanecer em sua própria essência. * O favor do surgimento consiste em conceder ao encobrimento sua possibilidade própria, enquanto o encobrimento favorece o surgimento justamente ao resguardá-lo contra uma exposição contínua e indiferenciada. * Essa reciprocidade não deve ser compreendida como troca entre dois processos independentes, pois ambos já pertencem a uma unidade mais originária. * O favorecimento é aquilo que deixa surgir e encobrir-se sustentarem-se mutuamente, não como contrários reconciliados posteriormente, mas como dimensões originariamente co-pertencentes. * A referência a Parmênides e ao Eros, concebido como primeiro entre os deuses, oferece um aceno para uma região em que favor, vínculo e emergência ainda não foram reduzidos a sentimentos humanos. * Eros, pensado originariamente, não é simplesmente desejo subjetivo nem paixão, mas uma potência de relação pela qual aquilo que se pertence pode entrar em vigência. * Assim como philein não designa complacência, Eros tampouco deve ser psicologizado mediante categorias posteriores de desejo. * Na relação entre physis e kryptesthai, o favorecer não significa procurar dissolver a oposição, mas justamente preservar a tensão em que cada um pode permanecer aquilo que é. * O surgimento favorece o encobrimento porque não se transforma em pura exposição permanente; o encobrimento favorece o surgimento porque não o anula, mas resguarda sua possibilidade de voltar a emergir. * Essa relação pode ser aproximada da luta (eris) desde que luta não seja entendida como mera guerra destrutiva ou hostilidade entre adversários independentes. * A luta originária preserva aquilo que se contrapõe justamente na medida em que não permite que um termo simplesmente absorva ou elimine o outro. * O favor é, nesse sentido, aquilo que mantém a oposição em sua unidade vigorosa e impede que surgimento e encobrimento se degradem em simples termos logicamente excludentes. * A compreensão permanece difícil enquanto se pensa cada essência como objeto separado ao qual se acrescentaria posteriormente uma relação. * O pensamento compartimental representa primeiro duas coisas e depois procura explicar como elas se conectam, mas esse procedimento já destrói a unidade originária que se pretende compreender. * Surgimento e declínio não formam compartimentos separados entre os quais seria necessário construir uma ponte. * A relação entre ambos pertence à própria essência de cada um, de modo que surgir já implica uma relação com encobrir-se e encobrir-se já permanece referido ao surgir. * A experiência cotidiana do amanhecer e do entardecer pode servir apenas como indicação provisória: o dia emerge da noite e retorna à noite, mas nenhum dos dois constitui simples aniquilação do outro. * O amanhecer não é mera passagem mecânica de um estado para outro, pois nele algo se abre, torna-se claro e entra no aparecimento. * O entardecer tampouco constitui simples cessação, mas recolhimento pelo qual aquilo que aparecia entra novamente no encobrimento. * A divisão temporal em manhã, meio-dia, tarde e noite pode sugerir compartimentos sucessivos, mas o surgimento e o declínio não devem ser reduzidos a uma sucessão cronológica. * Vida e morte oferecem outro exemplo em que a compreensão compartimental tende a separar rigidamente aquilo que pertence a uma relação mais originária. * Viver não é simplesmente o oposto externo de morrer, como se ambos fossem estados fechados entre os quais se passasse apenas uma vez. * O viver inclui desde sempre a possibilidade do morrer, e o morrer somente possui sentido a partir da vigência da vida da qual constitui o limite e o retraimento. * A mesma dificuldade aparece quando se procura compreender nascer e morrer apenas como acontecimentos extremos de uma linha temporal, ignorando sua pertença ao modo de vigorar do vivente. * O pensamento do surgimento e encobrimento exige abandonar representações fixas e aprender a pensar relações em que cada momento somente é aquilo que é a partir do outro. * Philein nomeia precisamente essa garantia recíproca pela qual surgimento e encobrimento permanecem em sua respectiva propriedade sem perder sua unidade essencial. * O compartimento do surgimento não pode existir ao lado do compartimento do encobrimento, porque o encobrimento já vigora no próprio surgir como aquilo que o resguarda. * Do mesmo modo, o surgimento permanece no encobrimento como possibilidade preservada de nova emergência. * A tentativa de perguntar se o surgimento “termina” quando começa o encobrimento já pressupõe uma separação que a sentença heraclítica procura superar de modo mais originário. * To me dynon pote, aquilo que nunca declina, não significa uma vigência que exclui absolutamente o encobrimento, mas uma emergência incessante cuja própria essência exige o favorecer do recolhimento. * O que nunca declina não precisa ser aquilo que jamais se encobre, se o próprio encobrimento pertencer ao modo segundo o qual seu surgimento vigora. * A dificuldade central do fragmento 16 reaparece, portanto, numa forma mais profunda: o surgimento incessante e o encobrir-se não se excluem se forem compreendidos a partir do favor essencial que os mantém reciprocamente. * O pensamento comum, ao representar processos separados, não consegue alcançar essa relação e permanece preso à alternativa de que ou algo surge ou se encobre. * A perspectiva compartimental produz uma pseudo-oposição que somente pode ser superada quando se abandona a representação das essências como objetos isolados. * Pensar physis significa acompanhar o modo como surgir e encobrir-se emergem de uma mesma fonte, sem transformar essa fonte num terceiro ente situado atrás dos dois. * A referência à fonte é apenas um aceno: a fonte não precisa ser visível para que aquilo que dela brota permaneça sustentado por sua proveniência. * A essência não é algo oculto atrás dos fenômenos como uma realidade suprassensível, mas aquilo que vigora no modo próprio de seu aparecer e retraimento. * O visível não esgota a essência, mas o invisível tampouco deve ser transformado numa realidade separada localizada além daquilo que aparece. * A técnica cinematográfica pode tornar visível aquilo que antes permanecia invisível ao olho, mas esse tornar-visível não equivale a revelar a essência. * A transformação moderna da visibilidade em critério do real conduz ao perigo de confundir aquilo que pode ser mostrado tecnicamente com aquilo que propriamente vem à presença. * A insistência moderna no “aparecer no filme” exemplifica uma época em que o visível é cada vez mais produzido, assegurado e convertido em medida da realidade. * O que interessa no pensamento originário não é tornar visível o invisível mediante um dispositivo, mas pensar o modo como o aparecer e o encobrir-se se pertencem. * Physis e kryptesthai não devem ser transformados num espetáculo conceitual em que tudo seria tornado presente ao pensamento. * O próprio encobrimento precisa permanecer encobrimento, e o pensamento somente lhe faz justiça quando não procura suprimi-lo em nome de uma transparência absoluta. * A palavra heraclítica deve ser tratada sem jogatina metodológica, sem oscilações arbitrárias de significados e sem tentativas de produzir efeitos artificiosos mediante combinações linguísticas. * O jogo das palavras somente se justifica quando serve à essência da palavra e deixa emergir relações originárias que permaneciam encobertas. * Kryptesthai mantém proximidade com o alemão bergen, “abrigar”, “resguardar”, “guardar”, pertencendo a uma região em que encobrir não significa simplesmente ocultar algo deliberadamente. * Abrigar significa preservar algo em sua própria possibilidade e conceder-lhe proteção para que permaneça aquilo que é. * O encobrimento do fragmento 123 deve, por isso, ser compreendido como resguardo do surgimento e não apenas como desaparecimento negativo. * Quando o surgimento favorece o encobrimento, favorece aquilo que o abriga e, portanto, favorece sua própria preservação enquanto surgimento. * A reciprocidade alcança então seu sentido mais rigoroso: o encobrimento abriga o surgimento e o surgimento concede ao encobrimento a possibilidade de vigorar como resguardo. * O favor (philia) não é um terceiro elemento acrescentado à relação, mas o próprio modo segundo o qual surgimento e encobrimento se pertencem. * A essência da physis somente pode ser pensada quando se reconhece que ela não se esconde do homem por capricho ou inacessibilidade deliberada. * A sentença segundo a qual “a physis tem prazer em esconder-se” seria inadequada se sugerisse uma natureza que voluntariamente se oculta de um observador humano. * O homem não é o centro diante do qual physis decide aparecer ou desaparecer; seu surgimento e encobrimento vigem originariamente antes da oposição moderna entre sujeito e objeto. * O encobrimento não significa que a essência esteja guardada num além inacessível, mas que a própria emergência traz consigo o retraimento pelo qual aquilo que aparece permanece inesgotável. * A dificuldade de compreender physis deriva precisamente do hábito de procurar atrás dos fenômenos uma coisa oculta, quando sua essência está no próprio jogo entre aparecer e retrair-se. * Physis não se oculta ao homem; ela abriga em si mesma surgimento e encobrimento, e exatamente nessa co-pertença vigora aquilo que Heráclito deixa a-se-pensar. * O “surgimento incessante” somente pode ser compreendido quando se reconhece que aquilo que nunca declina não exclui o encobrimento, mas o favorece como condição essencial de sua própria emergência. **Repetição** **Sobre a relação essencial entre surgimento e declínio. Recusa das interpretações lógicas (dialéticas)** * A expressão to me dynon pote contém uma negação que não deve ser compreendida apenas como exclusão lógica, pois aquilo que “nunca declina” pode ser pensado positivamente como surgimento incessante. * Essa formulação positiva continua provisória enquanto não se esclarecer em que sentido o surgimento pode favorecer precisamente aquilo que parece seu contrário, o encobrimento. * O fragmento 123, physis kryptesthai philei, oferece a indicação decisiva de que surgimento e encobrimento não constituem termos exteriores. * A tradução “o surgimento favorece o encobrimento” procura conservar philein como relação essencial de concessão e preservação, evitando tanto o sentimentalismo de “amar” quanto a neutralização lógica. * A primeira aparência de contradição nasce somente quando se parte da pressuposição de que surgir significa pura presença e encobrir-se significa pura ausência. * O pensamento originário exige reconsiderar essa pressuposição e perguntar se a própria presença não vigora somente em relação com uma retração que a abriga. * A lógica tende a classificar como contraditório aquilo que afirma simultaneamente determinações mutuamente excludentes, mas essa classificação já pressupõe que as determinações em questão tenham sido corretamente compreendidas. * A dialética hegeliana procura ultrapassar a exclusão formal ao compreender a contradição como movimento pelo qual os opostos são conservados e superados numa unidade superior. * Embora mais profunda do que a lógica formal, essa interpretação continua pertencendo à metafísica e não pode ser tomada como chave automática para Heráclito. * A relação heraclítica entre surgimento e encobrimento não precisa ser uma contradição que se resolveria especulativamente, pois pode pertencer a um domínio anterior à separação dos termos em predicados opostos. * O favor (philia) indica precisamente essa pertença anterior, na qual cada essência concede à outra sua possibilidade e recebe dela sua própria garantia. * Surgimento e declínio não são primeiro dois polos para depois serem reconciliados; somente são pensáveis enquanto pertencentes reciprocamente. * A passagem do entendimento comum para o pensamento essencial exige suportar essa relação sem resolvê-la prematuramente mediante categorias disponíveis. * O pensamento somente começa a mover-se quando a aparente incompatibilidade deixa de ser tomada como objeção e passa a ser acolhida como indicação daquilo que precisa ser pensado. * A sentença heraclítica não conduz a uma conciliação indiferenciada em que surgir e encobrir-se se tornariam a mesma coisa, mas a uma unidade em que sua diferença permanece vigorosa. * O favorecer conserva a diferença precisamente porque impede que um dos termos absorva ou suprima o outro. * O surgimento somente surge enquanto deixa lugar para o encobrimento; o encobrimento somente encobre enquanto preserva a possibilidade do surgimento. * Physis, pensada como surgimento incessante, não é pura luz sem retração, e kryptesthai não é simples noite sem possibilidade de aparecimento. * O caminho aberto pelo fragmento 123 permite, assim, preparar uma compreensão mais originária do fragmento 16: aquilo que nunca declina pode manter-se justamente porque seu surgir favorece e abriga o encobrimento. * A relação essencial entre surgimento e declínio permanece, por enquanto, como questão orientadora, cuja resposta não deve ser antecipada por lógica, dialética, psicologia ou metafísica posterior. {{tag>GA55 Heráclito physis philia}}