===== §5 ===== **PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)** **PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)** **§ 5. A nova abordagem no Idealismo Alemão: a filosofia como intuição intelectual do Absoluto** **a) O passo para além de Kant. O conhecimento no sentido da intuição intelectual** * A filosofia, para Kant, é a teleologia da razão humana; para o Idealismo Alemão, ela é a intuição intelectual (intellektuelle [[lx>termos:a:anschauung|Anschauung]]) do Absoluto, um conhecimento não sensível do ente em sua totalidade (Deus, mundo, homem). * Se as ideias de Kant (Deus, mundo, homem) não são meras ficções, elas devem ser conhecidas por um tipo de conhecimento que não as toma como objetos ([[lx>termos:g:gegenstand|Gegenstände]]) dados pelos sentidos, mas como algo não-objetual (ungegenständlich), embora não seja um nada ([[lx>termos:n:nicht-nichts|nicht nichts]]). * Esse conhecimento do todo do ente é um saber que não tem o Absoluto como objeto fora de si, nem como um pensamento dentro de si (no sujeito), mas é um conhecimento no qual o Absoluto é tanto o que conhece quanto o que é conhecido, em uma unidade originária. * A intuição intelectual é a faculdade de ver o universal no particular, o infinito no finito, unidos em uma unidade viva; é a "evidência em toda evidência, a verdade em toda verdade" (Schelling), que supera a oposição entre pensar e ser. * A exigência da intuição intelectual não é um retorno ao dogmatismo pré-crítico, pois, para o Idealismo Alemão, o Absoluto não é uma substância dada, mas se mostra no saber absoluto, que é a unidade do pensar e do ser no conhecimento. * O Idealismo Alemão, portanto, não nega a crítica kantiana, mas a radicaliza ao mostrar que o conhecimento do Absoluto não é um conhecimento de objetos, mas um saber que é, ele mesmo, o Absoluto em sua manifestação. **b) Retrospecção sobre o trabalho no "sistema"** * A questão fundamental para o Idealismo Alemão é a do sistema, e os primeiros escritos de Fichte, Schelling e Hegel giram em torno dela, cada um buscando a forma de fundar o sistema a partir de si mesmo. * A filosofia é agora concebida como intuição intelectual do Absoluto, superando as dificuldades kantianas, pois o Absoluto não é um objeto, mas a própria unidade do pensar e do ser, que se manifesta no saber. * Esse saber não é um conhecimento de objetos ([[lx>termos:d:ding|Dinge]]), mas a verdadeira "trabalho" ([[lx>termos:a:arbeit|Arbeit]]) do espírito sobre si mesmo, uma auto-configuração do Absoluto. * A filosofia do Idealismo Alemão supera o dogmatismo não por negar o Absoluto, mas por compreendê-lo como a unidade do ser e do pensar no saber, onde o Absoluto não está nem fora (como objeto) nem dentro (como pensamento subjetivo), mas é a própria relação. **c) A história como caminho do saber absoluto para si mesmo** * A história, para o Idealismo Alemão, torna-se pela primeira vez um objeto metafísico de compreensão: não mais uma sucessão de eventos ou opiniões, mas o caminho do saber absoluto para si mesmo, a auto-realização do espírito. * A história da filosofia é compreendida como o movimento necessário do espírito, e os próprios filósofos do Idealismo Alemão se veem como épocas necessárias nessa história. * Essa compreensão da história como a auto-configuração do espírito é uma grande descoberta da época, que transforma a filosofia em uma compreensão de seu próprio movimento histórico. {{tag>GA42 Schelling filosofia intuição}}