===== §3 ===== **PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)** **PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)** **§ 3. Discussão geral das dificuldades de um sistema da liberdade** **a) Reflexão preliminar sobre a indiferença atual em relação ao sistema. A rejeição do pensamento sistemático em Kierkegaard e Nietzsche** * A questão da compatibilidade entre liberdade e sistema só tem peso se o sistema for uma necessidade inadiável e se a liberdade for a necessidade mais íntima e a medida extrema do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] (existência); na atualidade, nem uma nem outra coisa são sentidas como necessidade. * A época atual, de transição do século XIX para o XX, é caracterizada pelo niilismo, que, segundo Nietzsche, é a desvalorização dos valores supremos, a perda da força vinculante das respostas ao "porquê" e "para quê", deixando o homem sem centro e sem rumo. * O niilismo é uma condição histórica que só pode ser superada se for conhecida cada vez mais profundamente, não pela simples fuga ou negação; a reflexão e o conhecimento impiedoso (rücksichtsloses Wissen) são indispensáveis. * A indiferença contemporânea em relação à questão do sistema é uma consequência necessária do niilismo dominante, em que o pensamento e o querer-saber são vistos como um esforço sem perspectiva diante da realidade em movimento. * A recusa do sistema por Nietzsche, expressa em aforismos como "A vontade de sistema é uma falta de retidão" ([[lx>termos:m:mangel|Mangel]] an [[lx>termos:r:rechtschaffenheit|Rechtschaffenheit]]), não é uma negação filosófica do sistema, mas sim uma crítica ao sistema prematuro que ainda não superou o niilismo. * A posição de Kierkegaard contra o sistema, por outro lado, é de natureza religiosa, focada no sistema hegeliano, e não filosófica; sua oposição não é uma crítica fundamentada na essência do sistema. * A indiferença e a falta de orientação contemporâneas em relação ao sistema não são um argumento contra a questão do sistema em si, mas sim um sintoma da falta de seriedade e coragem para a reflexão ([[lx>termos:b:besinnung|Besinnung]]), que é o primeiro passo para a superação do niilismo. **b) O que significa "sistema" em geral? Significado da palavra e uso entre os gregos e na Idade Média** * A palavra grega σύστημα ([[lx>termos:s:systema|systema]]) significa, fundamentalmente, "com-posição" ([[lx>termos:z:zusammenstellung|Zusammenstellung]]), mas esse significado abrange desde a mera reunião exterior e arbitrária ([[lx>termos:a:anhaufung|Anhäufung]]) até a articulação interna e essencial ([[lx>termos:i:innere-fuge|innere Fuge]]) que dá fundamento e sustento à coisa. * Entre esses extremos, sistema pode significar também um "marco" ou "moldura" (Rahmen), uma ordem que não é totalmente interior nem totalmente exterior. * No uso grego, o termo é aplicado a estruturas internas (como o sistema do mundo, σύστημα ἐξ οὐρανοῦ καὶ γῆς), a ordens políticas (σύστημα τῆς πολιτείας) e a disposições militares (σύστημα τῆς φάλαγγος), além de significar mera acumulação (como em medicina, para congestão de humores). * Na filosofia e no conhecimento, o conceito de sistema também carrega essa ambiguidade fundamental, podendo significar tanto uma ordem verdadeira (echtes System) quanto uma mera construção exterior e arbitrária (unechtes System). * Embora a filosofia grega (Platão, Aristóteles) não tenha produzido um "sistema" no sentido moderno, ela era, no entanto, profundamente "sistemática", orientada por uma ordem interna de questionamento que é a pré-condição para qualquer sistemática. * As "Sumas" da teologia medieval não são sistemas filosóficos, mas livros didáticos (Lehrbücher) para o ensino, com uma ordenação externa do conteúdo; compará-las a sistemas modernos ou a catedrais góticas é um equívoco histórico e conceitual. * O sistema, em seu verdadeiro sentido, não é uma mera ordenação de material de ensino, mas a articulação interna do próprio cognoscível (das Wißbare), o desdobramento fundamentador e a configuração da própria fuga do ente em sua entidade ([[lx>termos:s:seiendheit|Seiendheit]]). **c) Condições principais da primeira formação de sistemas na Idade Moderna. A vontade de sistema racional-matemático** * A possibilidade do sistema como uma configuração histórica determinada surge apenas na Idade Moderna, quando o Dasein histórico do homem no Ocidente entra em novas condições que levam à nova fundamentação da posição do homem em meio ao ente. * As principais condições para a formação de sistemas na Idade Moderna são: * A predominância do matemático (das Mathematische) como medida para o conhecimento, exigindo uma fundamentação autoiniciante a partir de princípios primeiros. * A auto-fundamentação do conhecimento como exigência matemática, com o primado da certeza ([[lx>termos:g:gewissheit|Gewißheit]]) sobre a verdade ([[lx>termos:w:wahrheit|Wahrheit]]), e o primado do método ([[lx>termos:m:methode|Methode]]) sobre a coisa ([[lx>termos:s:sache|Sache]]). * A fundamentação da certeza como auto-certeza ([[lx>termos:s:selbstgewissheit|Selbstgewißheit]]) do "eu penso" (ego cogito) em Descartes, que se torna o solo para todo conhecimento. * O pensamento (ratio) como tribunal (Gerichtshof) para a determinação da essência do Ser ([[lx>termos:s:seyn|Seyn]]), de modo que o Ser só é aceito como verdadeiro se for pensável e certo. * O rompimento com a autoridade exclusiva da doutrina da Igreja na ordenação da verdade e do conhecimento, com a consequente transferência dos temas da experiência cristã para o novo questionamento. * A libertação do homem para a conquista criativa (schöpferische Eroberung) e dominação do ente, onde o "gênio" (Genie) se torna a lei do ser-humano ([[lx>termos:m:menschseins|Menschseins]]) e a "soberania" (Souveränität) orienta a nova política. * Essas condições estão interligadas e expressam uma transformação fundamental do Dasein europeu, cuja lei interior (Gesetz der Geschichte) permanece obscura, mas que exige a compreensão do Ser (Seyn) como um sistema. * O sistema, nesse contexto, não é uma invenção de mentes excêntricas, mas a lei existencial mais íntima (innerstes Daseinsgesetz) dessa época, a "vontade de poder saber dispor do Ser em sua fuga" (Wille zur wissenden Verfügung über das Seyn in seinem Gefüge). **d) Retrospecção sobre as condições da formação de sistemas na Idade Moderna. O sistema como lei do Ser ([[lx>termos:s:seynsgesetz|Seynsgesetz]]) do Dasein moderno** * As condições para a possibilidade do sistema na Idade Moderna são também as pré-condições para a ciência moderna: * A predominância do matemático como medida do conhecimento. * A auto-fundamentação do conhecimento como primado da certeza (Gewißheit) sobre a verdade (Wahrheit) e da metodologia sobre a coisa. * A fundamentação da certeza como auto-certeza do "eu penso". * O pensamento ([[lx>termos:r:ratio|ratio]]) como o tribunal que determina a essência do Ser (Seyn). * O rompimento com a autoridade exclusiva da fé eclesiástica, com a simultânea apropriação da experiência cristã do todo do ente. * A libertação do homem para a conquista e dominação criativa do ente. * O princípio fundamental dessa transformação permanece obscuro, mas pode-se compreender que, onde ocorre a libertação criativa do homem em meio ao ente, o ente em sua totalidade deve estar previamente disponível para ser dominado. * A vontade de dispor do ente em sua totalidade, de forma livre e dominadora, projeta ([[lx>termos:e:entwurf|entwirft]]) o sistema como o "[[lx>termos:g:gefuge|Gefüge]]" do Ser (Seyn), que é, ao mesmo tempo, matemático e racional. * O sistema, portanto, é um "sistema racional-matemático" (mathematisches Vernunftsystem), a lei do Ser ([[lx>termos:s:seynsgesetz|Seynsgesetz]]) do Dasein moderno, e o caráter sistemático caracteriza a posição transformada do conhecimento em sua essência e alcance. * A história da formação dos sistemas não mostra uma linha contínua de desenvolvimento ou declínio, mas sim uma desproporção entre a clareza e a profundidade da vontade sistemática e sua realização. {{tag>GA42 Schelling liberdade sistema}}