===== A.10 Historicidade ===== **A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA** **X. HISTORICIDADE DA DETERMINAÇÃO DA COISA** X. A determinação aparentemente «natural» da coisa como suporte de propriedades, assim como a concepção da verdade situada na proposição enquanto junção de sujeito e predicado, revela-se historicamente constituída e não imediatamente evidente por si mesma, de modo que a pergunta «O que é uma coisa?» deve ser compreendida como uma questão historial, na qual fala uma tradição antiga que continua atuando no presente e cuja compreensão exige interrogar não apenas teorias passadas, mas as posições fundamentais do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] historial diante do ente em sua totalidade. * Chama-se «natural» aquilo que, dentro do horizonte cotidiano de inteligibilidade, parece compreender-se por si mesmo, mas essa aparência varia conforme épocas, povos e formas de vida. * Para um engenheiro italiano, a estrutura de um grande bombardeiro pode parecer imediatamente inteligível, enquanto para um habitante abissínio de uma aldeia montanhosa distante tal coisa não possui nada de «natural», pois não pode ser esclarecida por comparação imediata com aquilo que já lhe é familiar. * No século das Luzes, considerava-se natural aquilo que podia ser demonstrado segundo princípios de uma razão fundada em si mesma e, por isso, válido para todo ser humano em geral. * Na Idade Média, natural era aquilo que recebia de Deus sua essência e sua natureza e podia, em virtude dessa proveniência, formar-se e conservar-se dentro de certos limites sem nova intervenção divina. * O que o século XVIII tomava como natural — a racionalidade universal de uma razão autônoma — não teria parecido natural ao homem medieval, mostrando que o «natural» nunca é simplesmente natural, mas sempre historial. * Surge daí a suspeita de que também a determinação da coisa como suporte de propriedades, embora hoje pareça evidente, tenha sido historicamente formada e tenha dependido de pressupostos determinados. * Essa formação pode ser acompanhada em seus traços principais em Platão e Aristóteles, justamente no mesmo contexto em que a proposição é descoberta enquanto tal e a verdade passa a ser determinada como conformidade com a coisa e localizada na proposição. * Também o conceito aparentemente «natural» de verdade, empregado para fundamentar a determinação da essência da coisa, mostra-se assim historicamente produzido e não evidente por si mesmo. * A chamada «concepção natural do mundo» deixa, por isso, de poder ser tomada como fundamento indiscutível, pois aquilo que nela parece espontâneo pode ser resultado de uma interpretação secular da coisidade que continua dominando o modo atual de ver. * É possível que as próprias coisas já venham ao encontro de maneira diversa daquela prescrita por essa interpretação tradicional, embora se continue falando delas segundo conceitos herdados. * A pergunta «O que se chama aqui natural?» impede, assim, que a pergunta «O que é uma coisa?» seja considerada prematuramente resolvida e transforma-a propriamente numa questão historial. * Quando se afirma espontaneamente que as coisas são suportes de propriedades, talvez não seja simplesmente o observador atual que vê e fala, mas uma tradição historial antiga que continua falando através dele. * O fato de essa tradição poder parecer praticamente inofensiva — já que o trem elétrico continua funcionando, o giz continua sendo giz, a rosa continua sendo rosa e o gato continua sendo gato — não elimina sua força determinante sobre o modo de compreender as coisas. * Desde o início, a filosofia foi caracterizada como um pensamento com o qual não se pode fazer nada imediatamente, mas permanece a possibilidade de que ela atue mediatamente, abrindo caminhos e condições cuja origem filosófica já não se percebe diretamente. * Uma consideração pensante da situação interna das ciências naturais contemporâneas e da relação entre a técnica das máquinas e o Dasein pode revelar que o saber científico alcançou limites nos quais falta um acesso originário às coisas. * O progresso das descobertas e dos êxitos técnicos pode inclusive simular esse acesso originário, ocultando a questão acerca daquilo que são propriamente os animais, as plantas e os demais entes investigados. * Zoologia e botânica podem operar corretamente segundo seus métodos e, ainda assim, permanecer aberta a pergunta acerca de saber se aquilo que investigam ainda é efetivamente o animal e a planta, ou se já são concebidos antecipadamente como máquinas organizadas a priori às quais apenas posteriormente se concede certa superioridade. * É possível evitar esse esforço de pensamento e permanecer naquilo que parece «natural», convertendo a ausência de questionamento em medida das coisas; entretanto, as decisões essenciais não se dão no âmbito dos bondes ou motocicletas, mas no domínio da liberdade historial. * Nessa liberdade historial, um Dasein historial decide acerca de seu próprio fundamento, da maneira como nele se estabelece, do grau de liberdade do saber que escolhe e daquilo que entende por liberdade. * Essas decisões variam segundo épocas e povos e não podem ser produzidas pela força, pois cada povo estabelece o nível de seu próprio ser-aí mediante o grau de liberdade do saber que assume, isto é, mediante a inexorabilidade de seu questionar. * Os gregos reconheceram na capacidade de questionar a nobreza de seu Dasein e fizeram dela a medida de sua distinção em relação àqueles que não podiam ou não queriam perguntar, aos quais chamavam bárbaros. * Também é possível abandonar a questão acerca do saber das coisas à esperança de que algum dia tudo se resolva por si mesmo, admirando-se apenas as conquistas das ciências naturais e da técnica sem investigar como elas se tornaram possíveis. * A ciência moderna somente pôde emergir mediante uma confrontação com o saber antigo, com seus conceitos e princípios, e essa confrontação nasceu da paixão originária pelo questionamento. * Pode-se ignorar inteiramente essa proveniência e comportar-se como se as conquistas do presente tivessem simplesmente sido concedidas prontas, mas isso não altera sua dependência de decisões e interrogações anteriores. * Em sentido contrário, pode-se reconhecer a inevitabilidade de um questionamento ainda mais amplo, profundo e rigoroso do que os anteriores, pois somente mediante ele se poderá dominar aquilo que, enquanto aparência de evidência espontânea, exerce domínio sobre o próprio pensamento. * As decisões não se realizam por discursos, mas pelo trabalho efetivo do questionamento, que pode permanecer durante décadas apenas enquanto questionamento incômodo e persistente. * Nesse horizonte, Nietzsche pôde exigir uma forma inaudita de autoconhecimento, não enquanto indivíduo isolado, mas enquanto humanidade, convocando a rememoração pelos pequenos e grandes caminhos. * O percurso aqui assumido corresponde apenas ao pequeno caminho da pequena pergunta «O que é uma coisa?», mas já mostra que as determinações tomadas como autoevidentes não são simplesmente «naturais». * As respostas aparentemente espontâneas provêm de tempos antigos, de modo que mesmo quando se pergunta pela coisa de maneira pretensamente não preconceituosa já fala na pergunta uma opinião prévia sobre sua [[lx>termos:c:coisidade|coisidade]]. * A história fala, portanto, no próprio modo de formular a questão, e é por isso que a pergunta pela coisa deve ser considerada historial. * Chamar essa pergunta de historial não significa apenas constatar que ela possui um passado, que recebeu diferentes respostas ao longo dos séculos ou que surgiram diversas teorias acerca da coisa, da proposição e da verdade. * A informação histórica comum fixa o passado como algo encerrado, ao passo que a história propriamente dita é acontecimento ([[lx>termos:g:geschehen|Geschehen]]). * Perguntar historialmente significa interrogar aquilo que ainda acontece, mesmo quando sua aparência é a de algo passado, permanecendo atento a esse acontecer para que ele possa primeiro desenvolver-se em sua força própria. * A investigação não visa alinhar cronologicamente opiniões, concepções e proposições antigas sobre a coisa como peças numa coleção, nem se limita a reunir fórmulas e definições históricas de sua essência. * Tais fórmulas são apenas sedimentos e depósitos de posições fundamentais assumidas pelo Dasein historial diante do ente em sua totalidade e incorporadas à sua maneira de ser. * O verdadeiro alvo são essas posições fundamentais, o acontecimento que nelas se dá e os movimentos de fundo que atravessam o ser-aí, mesmo quando parecem já ter passado. * O fato de um movimento não ser mais constatável não significa necessariamente que tenha cessado, pois ele pode encontrar-se em repouso. * Aquilo que aparece como passado, enquanto acontecimento aparentemente terminado, pode subsistir justamente sob a forma de repouso. * Esse repouso pode possuir uma plenitude de ser e de realidade superior à realidade daquilo que apenas se apresenta como atual. * O repouso do acontecimento não significa ausência de história, mas uma forma fundamental de sua presença. * Aquilo que ordinariamente se conhece como passado costuma corresponder apenas ao que anteriormente era atual, ao que fazia sensação ou produzia tumulto, sem que por isso constitua a história autêntica. * O simples passado não esgota aquilo que foi, porque aquilo que foi continua sendo, e seu modo de ser consiste num repouso próprio do acontecimento, determinado por aquilo que ainda acontece. * O repouso é, assim, movimento retido em si mesmo e pode ser, justamente por isso, mais inquietante do que o movimento imediatamente visível. {{tag>GA41 coisalidade Dasein historicidade}}