===== §§8-15 ===== //Terceiro Capítulo: Justificação da Caracterização do Perguntar Abrangente por Mundo, Finitude, Isolamento como Metafísica. Origem e História da Palavra “Metafísica”// **8. A palavra “Metafísica”. O significado de φύσις** Os conceitos filosóficos fundamentais da metafísica mostraram-se como conceitos abrangentes ([[lx>termos:i:inbegriffe|Inbegriffe]]) – conceitos nos quais sempre se pergunta pelo todo e que sempre incluem no perguntar aquele que concebe. Por isso, o perguntar metafísico é determinado como perguntar abrangente. Filosofia e metafísica, pensar filosófico e metafísico foram equiparados. As disciplinas conhecidas da filosofia – lógica, ética, estética, filosofia da natureza e da história – surgiram de um ensino escolar da filosofia. A intenção da consideração preliminar é justamente destruir essa representação da metafísica como uma disciplina fixa. A pergunta de como se pode reivindicar o título “Metafísica” para o perguntar abrangente só pode ser respondida por uma breve discussão da história da palavra e seu significado. * A palavra “Metafísica” não é uma palavra originária ([[lx>termos:u:urwort|Urwort]]), ou seja, não surgiu de uma experiência essencial e originária da humanidade como sua expressão. * Ela remonta à sequência de palavras grega μετά τὰ φυσικά (τά μετὰ τὰ φυσικά), que serve para designar a filosofia. * Para a clarificação, parte-se da palavra [[lx>termos:p:physika|φυσικά]], que contém [[lx>termos:p:physis|φύσις]]. Φύσις não é traduzida como natureza no sentido estrito moderno, mas como o “vigor que se forma a si mesmo do ente no todo” (sich selbst bildende Walten des Seienden im Ganzen). Esse vigor abrange não apenas o crescimento de plantas e animais, mas também a mudança das estações, dia e noite, os astros, tempestades e o destino humano. * O ser humano, enquanto existe, sempre se pronunciou sobre a φύσις, sobre o todo vigorante. Esse pronunciar-se é o [[lx>termos:l:legein|λέγειν]] (falar); o vigor pronunciado é o [[lx>termos:l:logos|λόγος]]. A função fundamental do λόγος é retirar o vigorante do ocultamento ([[lx>termos:v:verborgenheit|Verborgenheit]]). O oposto de λέγειν é [[lx>termos:k:kryptein|κρύπτειν]] (ocultar, manter no ocultamento). O λόγος é o desocultamento ([[lx>termos:e:entbergen|Entbergen]]). * Heráclito diz: “O vigor das coisas tem em si mesmo a inclinação a se ocultar” (φύσις κρύπτεσθαι φιλεῖ). O λόγος diz o desoculto (ἀληθέα). [[lx>termos:a:aletheia|Ἀλήθεια]] (verdade) é o não-oculto, o desabrigado. A verdade é compreendida pelos gregos como um roubo que precisa ser arrancado do ocultamento, uma luta do ser humano com o ente no todo, não a mera correção de proposições. * A verdade está enraizada no destino do ser-aí humano; ela mesma é algo oculto e, como tal, o superior. A harmonia que não se mostra (oculta) é mais alta e poderosa do que a que está aberta. * O conceito grego de verdade (ἀλήθεια) é uma palavra originária, pois testemunha que a verdade é um destino da finitude humana e nada tem a ver com a inocuidade de proposições provadas. Pertence originariamente à experiência fundamental da φύσις. * Φύσις tem duas significações básicas iniciais: a) o vigorante em seu vigor (o ente mesmo); b) o vigor como tal (a essência, a lei interna da coisa). Essas duas significações não se excluem, mas se mantêm juntas no perguntar filosófico. **9. As duas significações de φύσις em Aristóteles. O perguntar pelo ente no todo e o perguntar pela essência (o ser) do ente como a dupla direção do perguntar da πρώτη φιλοσοφία** No estágio do filosofar antigo em que atinge seu ponto culminante, em Aristóteles, as duas direções fundamentais do perguntar contidas na unidade da φύσις são reunidas explicitamente. O filosofar propriamente dito é o perguntar pela φύσις nessa dupla significação. As ciências ([[lx>termos:e:episteme|ἐπιστῆμαι]]) surgem do filosofar como modos e maneiras do perguntar; a filosofia não é uma ciência. A ἐπιστήμη φυσική (física) tem por objeto as coisas que pertencem à φύσις no primeiro sentido (φύσει ὄντα) e pergunta, em última instância, pelo primeiro motor (θεῖον, o divino). * A segunda significação de φύσις, como essência ([[lx>termos:o:ousia|οὐσία]]), pergunta pelo que faz o ente ser ente, pelo ser do ente. * Aristóteles designa o perguntar que reúne essas duas direções – pelo ente no todo e pelo ser do ente – como [[lx>termos:p:prote-philosophia|πρώτη φιλοσοφία]] (Filosofia Primeira), o filosofar propriamente dito. * Aristóteles não esclarece, ou não foi transmitido, como ele pensa a unidade dessas duas direções de perguntar em sua unidade; essa questão permanece em aberto até hoje. **10. A formação das disciplinas escolares Lógica, Física, Ética como decadência do filosofar propriamente dito** Com Aristóteles, a filosofia antiga atinge seu auge e, com ele, começa seu declínio e decadência real. O perguntar vivo morre, a efetiva comoção do perguntar filosófico deixa de ocorrer. O que foi dito e transmitido torna-se resultado manipulável e utilizável. A filosofia platônico-aristotélica torna-se filosofia escolar. A conexão originária é substituída pela ordem dentro de disciplinas e matérias escolares. * A partir das principais temáticas – φύσις (natureza) e [[lx>termos:e:ethos|ἦθος]] (comportamento humano) e do λόγος (discurso) como o primeiro para todo ensino – surgem as três disciplinas escolares: Lógica (ἐπιστήμη λογική), Física (ἐπιστήμη φυσική) e Ética (ἐπιστήμη ἠθική). * Esse processo de formação escolar e decadência do filosofar propriamente dito já se inicia na Academia de Platão e é fundamentado por Xenócrates, sendo assumido pelo Peripato e pelos Estóicos. Essa divisão predetermina a concepção de filosofia e de perguntar filosófico para todo o período subsequente. **11. A inversão da significação técnica do μετά na palavra “Metafísica” para uma significação de conteúdo** Após a morte de Aristóteles, quando, no século I a.C., os compiladores das obras de Aristóteles quiseram ordenar seu material, depararam-se com a dificuldade de que os escritos da Filosofia Primeira (πρώτη φιλοσοφία) não podiam ser alocados em nenhuma das três disciplinas escolares existentes (Lógica, Física, Ética). * A designação técnica μετὰ τὰ φυσικά (ta meta ta physika = aquilo que vem depois dos escritos sobre a física) surgiu de um embaraço ([[lx>termos:v:verlegenheit|Verlegenheit]]). Trata-se de um título técnico que indica apenas o lugar dos escritos na ordenação externa, sem dizer nada sobre o conteúdo. * Esse título técnico permaneceu por muito tempo, até que, em uma época desconhecida, recebeu uma significação de conteúdo ([[lx>termos:i:inhaltliche-bedeutung|inhaltliche Bedeutung]]). A palavra grega μετά ([[lx>termos:m:meta|metá]]) pode significar “depois” (post) e também “para além de” (trans). * A significação de conteúdo interpreta o μετά como “para além de” (trans). Metafísica torna-se, assim, o título para a ciência do suprassensível ([[lx>termos:ü:ubersinnliche|Übersinnlichen]]). O título técnico se transforma em uma designação de conteúdo da Filosofia Primeira, determinando uma interpretação específica do filosofar propriamente dito. A metafísica passa a ser uma disciplina ao lado das outras, e a inversão do título carrega o destino da filosofia propriamente dita no Ocidente. **12. As inconveniências internas do conceito tradicional de metafísica** Apesar de usar o título “Metafísica”, não se pode assumir sua significação de conteúdo tradicional (conhecimento do suprassensível). O conceito tradicional de metafísica é caracterizado por três inconveniências: é externalizado (veräußerlicht), é confuso em si mesmo (in sich verworren) e é despreocupado com o problema propriamente dito (problemlos). **a) A externalização do conceito tradicional de metafísica: o metafísico (Deus, alma imortal) como um ente dado, embora superior** O conceito popular de metafísica como conhecimento do suprassensível (o que está além da experiência sensível) é externalizado. O suprassensível é tomado como um ente (embora superior) entre outros, um objeto dado, e a metafísica nivela-se ao conhecimento cotidiano de entes. O μετά torna-se mero indicador de um lugar do ente (o suprassensível), sem revelar a atitude peculiar de inversão ([[lx>termos:u:umwendung|Umwendung]]) que o filosofar propriamente implica. * Essa externalização é reforçada pela interpretação cristã, que toma Deus e a imortalidade da alma como os objetos primários (o metafísico propriamente dito). A teologia cristã sistematizou seu conteúdo com base na filosofia antiga, especialmente a de Aristóteles, transformando a primeira filosofia em prova da existência de Deus e da imortalidade da alma. * A existência de provas de Deus documenta essa atitude externalizada, na qual o filosofar deixa de ser uma atitude fundamental autônoma e se torna um conhecimento de um ente superior. **b) A confusão do conceito tradicional de metafísica: a conexão dos dois tipos distintos de transcendência (μετά) do ente suprassensível e dos caracteres não-sensíveis do ente** O conceito tradicional de metafísica é confuso porque, junto com a teologia (conhecimento do ente suprassensível, como Deus), mantém também a outra direção de perguntar da Filosofia Primeira: a pergunta pelo ente enquanto ente ([[lx>termos:o:o-he-on|ὄν ᾖ ὄν]]), que investiga as determinações gerais que convêm a todo ente (unidade, pluralidade, diferença, etc.). Essas duas direções de perguntar são simplesmente acopladas, sem se questionar o que significa μετά em cada caso. * O “transcender” em direção a Deus (suprassensível) é fundamentalmente diferente do “transcender” em direção às determinações gerais (não-sensíveis, mas não suprassensíveis). A confusão ignora a diferença entre o suprassensível ([[lx>termos:ü:ubersinnliches|Übersinnliches]]) e o não-sensível ([[lx>termos:u:unsinnliches|Unsinnliches]]) e sua relação com o sensível. **c) A falta de problematização do conceito tradicional de metafísica** Devido à externalização e à confusão interna, o conceito tradicional de metafísica jamais se torna, ele mesmo, um problema. O que em Aristóteles era um problema latente (a unidade das duas direções de perguntar) é assumido como verdade fixa, e a falta de problematização é elevada a princípio. Apenas Kant, pela primeira vez, tentou fazer da própria metafísica um problema, em uma determinada direção. **13. O conceito de metafísica de Tomás de Aquino como comprovação histórica dos três momentos do conceito tradicional de metafísica** O conceito de metafísica de Tomás de Aquino (Santo Tomás) serve como exemplo histórico para os três momentos (externalização, confusão, falta de problematização). Tomás identifica a prima philosophia, a metaphysica e a theologia (scientia divina). A justificativa para essa identificação baseia-se no conceito de “maxime intelligibile” (o mais cognoscível), que é distinguido de três maneiras: 1. ex ordine intelligendi (pela ordem do conhecimento): o mais cognoscível é o que se refere à causa primeira (Deus como criador) – originando a prima philosophia. 2. ex comparatione intellectus ad sensum (pela comparação do intelecto com o sentido): o mais cognoscível é o que é universal (as determinações que convêm a todo ente, como uno, múltiplo, potência, ato). Tomás chama essas determinações de transphysica, e a elas atribui o nome metaphysica, no sentido de ontologia (ens qua ens). 3. ex ipsa cognitione intellectus (pela natureza do conhecimento do intelecto): o mais cognoscível é o que está separado da matéria, como as substâncias separadas (Deus e as inteligências) – originando a scientia divina ou theologia. * Tomás, por meio de uma interpretação hábil, reúne as três tradições em uma única scientia regulatrix (ciência que tudo regula). No entanto, a problemática interna dessa unidade não é apreendida; as três direções são mantidas juntas por uma sistematização determinada pela fé, e não pela problemática interna. A conexão é feita por meio do vago conceito de “geral” e ignora a diferença fundamental entre as questões. **14. O conceito de metafísica de Francisco Suárez e o caráter fundamental da metafísica moderna** O teólogo e filósofo espanhol Francisco Suárez (1548-1617) exerceu uma influência decisiva sobre a metafísica moderna. Em suas “Disputationes metaphysicae” (1597), ele sistematizou a problemática metafísica de forma autônoma, visando à teologia natural, e influenciou decisivamente Descartes, que estudou em colégio jesuíta. Suárez define a metafísica como o conhecimento que trata das coisas que vêm depois (post) das coisas naturais, interpretando o μετά tanto em sentido técnico (post, na ordem da aquisição do conhecimento) quanto em sentido de conteúdo (o que está além do físico). * O caráter fundamental da metafísica moderna é determinado pela ideia de uma nova ciência, representada pela ciência matemática da natureza. Isso coloca a metafísica sob a tarefa de se tornar um conhecimento absolutamente certo, elevando-se a uma ciência absoluta. O problema da certeza absoluta torna-se o problema fundamental da filosofia moderna. * O “eu”, a consciência, a pessoa tornam-se o fundamento seguro e indubitável da metafísica moderna. O perguntar abrangente inclui o questionador, mas de modo negativo: o eu não é colocado em questão, mas torna-se o fundamento para todo perguntar posterior. Isso mostra a peculiaridade da metafísica moderna: ela esquece a pergunta pelo ser-aí questionador. **15. Metafísica como título para o problema fundamental da própria metafísica. O resultado da consideração preliminar e a exigência de começar, a partir da comoção de um perguntar metafísico, com o agir na metafísica** A consideração preliminar sobre o título “Metafísica” não trouxe clareza sobre o que ela é, mas terminou com uma questão. A conclusão é que o título “Metafísica” não pode ser tomado na significação tradicional, mas como título para um problema – o problema fundamental da própria metafísica: “O que é a metafísica?” ou “O que é o filosofar?”. Essa questão é inseparável da filosofia. * Ficou claro que, embora se tenha falado sobre a filosofia, não se falou a partir dela. Falar a partir da filosofia só é possível se, antes, já se estiver em um movimento de perguntar metafísico. O que não ocorreu. A tentativa de falar da filosofia tornou-se vítima de uma ambiguidade. * É preciso sair do “tratar sobre” e começar com o “agir” na metafísica, ou seja, perguntar efetivamente. As questões a serem perguntadas – “O que é o mundo?”, “O que é a finitude?”, “O que é o isolamento?” – não devem ser desenvolvidas teoricamente para depois acrescentar uma disposição anímica. Ao contrário, é preciso primeiro despertar uma disposição fundamental ([[termos:g:grundstimmung|Grundstimmung]]) do filosofar, para que essas questões surjam de sua necessidade e possibilidade. Essa é a tarefa fundamental da preleção e o início de um filosofar vivo e real. {{tag>GA29-30 metafísica}}