===== §46. "Animal é pobre de mundo" X "homem é configurador de mundo" ===== **§46. A tese "o animal é pobre de mundo" em relação à tese "o homem é configurador de mundo". A relação entre pobreza de mundo e configuração de mundo não é uma hierarquia depreciativa. Pobreza de mundo como privação de mundo** * A caracterização ontológica fundamental do animal como pobre de mundo ([[lx>termos:w:weltarm|weltarm]]) em face do homem como configurador de mundo ([[lx>termos:w:weltbildend|weltbildend]]) exige a desconstrução crítica de qualquer hierarquia axiológica ou escala quantitativa de perfeição[cite: 1], explicitando que a pobreza ([[lx>termos:a:armut|Armut]]) constitui originariamente uma privação ([[lx>termos:e:entbehren|Entbehren]]) do ente que pertence ao horizonte da existência e não um mero déficit empírico de objetos acessíveis. * A confrontação da tese da pobreza de mundo do animal com as pesquisas da biologia contemporânea, mormente as investigações de Jakob von Uexküll acerca do meio ambiente circundante ([[lx>termos:u:umwelt|Umwelt]]), demonstra que a proposição filosófica não contraria a investigação científica positiva, mas a compele a uma meditação de base ontológica sobre o vivente, ainda que o foco central não recaia sobre uma metafísica temática da vida vegetal e animal. * A relação entre a segunda e a terceira tese aparenta, à primeira vista, uma distinção imediata entre a escassez e a abundância, em que a pobreza seria o menos diante do mais relativo ao âmbito de entes acessíveis, tratáveis e com os quais o ente vivente pode entrar em relação em sua lida cotidiana[cite: 1]. * O domínio circundante de animais específicos, a exemplo da abelha, do sapo ou do tentilhão, exibe uma restrição estrita não apenas em extensão territorial e material, mas sobretudo na modalidade de penetração nas coisas acessíveis, visto que a abelha trabalhadora conhece a flor, seu perfume e sua cor, porém não apreende os estames enquanto estames, não acessa as raízes nem a determinação numérica dos órgãos vegetais. * O mundo humano revela-se inversamente como riqueza inesgotável, ampliado de modo constante não somente pela mera adição quantitativa de novos entes, mas pela capacidade contínua de penetração mais profunda naquilo a que o Dasein se relaciona, o que legitima formalmente a designação do homem como ente configurador de mundo (weltbildend). * O desdobramento inicial dessa antítese induz ao equívoco ordinário de conceber o mundo ([[lx>termos:w:welt|Welt]]) como simples somatório empírico dos entes disponíveis e a pobreza de mundo como degrau inferior de perfeição em uma escala de graus axiológicos, conferindo uma clareza suspeita e autoevidente a conceitos que apenas disfarçariam fatos triviais mediante termos técnicos como mundo (Welt) e meio circundante (Umwelt). * A suposição de uma gradação de perfeição na acessibilidade ao ente desmorona empiricamente ao se confrontar capacidades orgânicas específicas, tais como a acuidade visual do olho do falcão ou a potência olfativa do cão frente às faculdades humanas, além do fato de que a corrupção e a queda moral só são ontologicamente possíveis ao homem, jamais ao animal. * A hierarquização revela-se igualmente ilegítima no interior do próprio reino animal, sendo errôneo considerar protozoários como amebas e infusórios seres menos perfeitos do que elefantes ou símios, posto que cada animal e espécie atinge plenitude própria e acabada dentro de sua conformação essencial determinada. * A determinação rigorosa de pobreza (Armut) afasta a redução ao quantum e ao ter menos quantitativo, delimitando a essência do empobrecimento como privação (Entbehren), isto é, a falta, o não comparecimento ou a carência daquilo que de direito poderia e deveria estar presente no horizonte originário do ente. * O conceito de pobreza desdobra-se entre uma acepção desgastada, que indica insuficiência e escassez material factual (como no leito de um rio pobre de águas), e a acepção existencial originária de ânimo empobrecido (armmütig), na qual a privação se transmuta em postura ontológica de transparência e liberdade interior para o Dasein. * A pobreza de mundo (Weltarmut) do animal não pode ser esclarecida mediante meras distinções linguísticas, requerendo a interrogação direta sobre a animalidade da besta e confirmando em definitivo que o fenômeno do mundo (Welt) não equivale à soma, totalidade quantitativa ou grau de acessibilidade dos entes existentes. {{tag>GA29-30 pobre-de-mundo animal]]