===== CAMINHO NA FENOMENOLOGIA ===== //Resumo em tópicos// ** Meu caminho na fenomenologia ** 1. O percurso universitário iniciado no inverno de 1909–1910 na Faculdade de Teologia da Universidade de Friburgo permitiu que, paralelamente aos estudos teológicos, se abrisse desde o primeiro semestre um espaço decisivo para a filosofia, marcado pela presença constante dos dois volumes das Investigações Lógicas de Edmund Husserl e pela questão ainda obscura acerca da razão pela qual aquela obra, pouco procurada pelos estudantes e aparentemente estranha ao ambiente teológico, se tornara objeto de atenção privilegiada. 2. O primeiro acesso à fenomenologia ocorreu pela conexão entre Husserl e Franz Brentano, cuja dissertação sobre a múltipla significação do ente ([[lx>termos:s:seiendes|Seiendes]]) em Aristóteles orientara desde 1907 as primeiras tentativas de penetrar filosoficamente na pergunta pelo significado fundamental do ente e, portanto, pela significação do ser ([[lx>termos:s:sein|Sein]]), questão reforçada ainda no último ano do liceu pela leitura da obra de Carl Braig sobre o ser e pela tradição ontológica de Aristóteles, Tomás de Aquino e Suárez. * A influência atribuída a Brentano sobre Husserl tornou as Investigações Lógicas uma possível via para aprofundar a interrogação acerca da multiplicidade dos sentidos do ente (Seiendes). * A pergunta decisiva já assumia a forma de uma busca pelo significado condutor capaz de unificar os múltiplos sentidos do ente: o que significa ser (Sein)? * A obra de Carl Braig, Do Ser: Compêndio de Ontologia, oferecia simultaneamente referências históricas e etimológicas aos conceitos fundamentais da ontologia. 3. A expectativa de encontrar nas Investigações Lógicas um esclarecimento decisivo para as questões abertas por Brentano permaneceu inicialmente frustrada, porque a procura ainda se orientava numa direção inadequada, embora o fascínio persistente pela obra de Husserl levasse a repetidas leituras durante anos e fizesse com que tanto o nome da editora Max Niemeyer quanto o ainda hesitante título de “Fenomenologia” adquirissem uma força enigmática cuja conexão somente mais tarde se tornaria compreensível. * A dificuldade inicial não consistia em falta de interesse, mas na incapacidade de compreender suficientemente aquilo que exercia tamanha atração na obra. * O próprio aspecto material dos volumes e a presença conjunta dos nomes “Max Niemeyer” e “Fenomenologia” integravam essa experiência inicial de fascínio. * A posterior história intelectual mostraria que a ligação entre a editora Niemeyer e a fenomenologia não era meramente circunstancial. 4. O abandono dos estudos de teologia após quatro semestres e a dedicação integral à filosofia não eliminaram o interesse pela teologia especulativa, alimentado pelas aulas de Carl Braig e pelo conhecimento da importância de Schelling e Hegel em contraste com a escolástica, de modo que se delineou no horizonte da investigação a tensão entre ontologia e teologia especulativa como constituição fundamental da metafísica. * O curso posterior de Dogmática ministrado por Braig manteve vivo o vínculo com a problemática teológica. * A forma penetrante de pensamento de Braig mostrou a relevância filosófica de Schelling e Hegel para uma teologia que não se restringisse ao sistema doutrinal escolástico. * A relação entre ontologia, teologia especulativa e metafísica tornou-se, assim, um problema de fundo. 5. A problemática da relação entre ontologia e teologia especulativa foi temporariamente deslocada pelo seminário de Heinrich Rickert dedicado às obras de Emil Lask, nas quais a reelaboração da filosofia transcendental e da doutrina das categorias manifestava claramente a influência das Investigações Lógicas de Husserl. 6. O reencontro com Husserl provocado pela leitura de Lask tornou inevitável uma investigação mais aprofundada das Investigações Lógicas, mas a dificuldade fundamental permanecia concentrada na pergunta sobre como prosseguir efetivamente no procedimento de pensamento denominado fenomenologia, cuja natureza aparecia inicialmente marcada por uma desconcertante ambiguidade. 7. A aparente contradição entre o primeiro volume das Investigações Lógicas, que refutava o psicologismo ao negar que a teoria do pensamento e do conhecimento pudesse fundamentar-se na psicologia, e o segundo volume, dedicado à descrição dos atos de consciência, fazia surgir a questão de saber se a fenomenologia recaía justamente na posição psicologista que havia combatido ou se constituía uma disciplina filosófica inteiramente nova, irredutível tanto à lógica quanto à psicologia. * A descrição fenomenológica dos atos de consciência parecia, à primeira vista, reassumir o terreno dos “fenômenos psíquicos” delimitado por Brentano. * A hipótese de um simples retorno ao psicologismo parecia incompatível com a exigência filosófica da obra de Husserl. * Tornava-se necessário determinar o próprio da fenomenologia e esclarecer se nela se inaugurava um campo filosófico dotado de autonomia e primazia próprias. 8. Naquele momento ainda não era possível encontrar uma solução adequada para essas questões nem formulá-las com a precisão que sua posterior elaboração filosófica tornaria possível. 9. A publicação, em 1913, do primeiro volume do Anuário de Filosofia e de Investigação Fenomenológica pela editora Max Niemeyer, aberto pelas Ideias relativas a uma fenomenologia pura e a uma filosofia fenomenológica de Husserl, ofereceu pela primeira vez uma resposta sistemática acerca das características e do alcance pretendidos pela fenomenologia. 10. A fenomenologia pura passou a apresentar-se como ciência fundamental da filosofia em sentido transcendental, tomando a subjetividade transcendental como campo originário e universal e conservando as vivências da consciência como âmbito temático, agora submetidas a uma investigação sistemática tanto da estrutura dos atos vividos quanto da objetualidade dos objetos neles experienciados. * “Puro” significava aqui “transcendental”, vinculando a fenomenologia à problemática moderna da subjetividade. * A subjetividade transcendental deveria ser determinada de modo mais originário e universal do que na tradição filosófica precedente. * A investigação fenomenológica voltava-se simultaneamente aos atos da consciência e aos objetos tal como se dão nesses atos. 11. O projeto universal de uma filosofia fenomenológica apresentado nas Ideias permitiu conferir às Investigações Lógicas um lugar sistemático que anteriormente permanecera filosoficamente indeterminado, ao mesmo tempo que a segunda edição de 1913, as profundas reelaborações de várias investigações, a retenção da decisiva sexta investigação e a necessidade de fundamentar suficientemente o programa exposto em A Filosofia como ciência rigorosa mostravam que o desenvolvimento da fenomenologia ainda estava em curso. 12. A publicação, também em 1913 pela Max Niemeyer, da investigação de Max Scheler sobre a fenomenologia dos sentimentos de simpatia, do amor e do ódio ampliou significativamente o campo de desenvolvimento da orientação fenomenológica. 13. A concentração dessas publicações conferiu à editora Niemeyer uma posição de destaque na filosofia e favoreceu a interpretação corrente segundo a qual a fenomenologia constituía uma nova tendência no interior da filosofia europeia. 14. A classificação puramente histórica da fenomenologia como uma nova corrente filosófica deixava, porém, inexplorado aquilo que efetivamente se realizara nas próprias Investigações Lógicas, enquanto as declarações programáticas e metodológicas de Husserl alimentavam o equívoco de que a fenomenologia pretendesse instaurar um começo absolutamente novo da filosofia mediante a rejeição de todo pensamento precedente. 15. Mesmo após a publicação das Ideias, permanecia intacto o fascínio exercido pelas Investigações Lógicas, acompanhado por uma inquietação cuja origem ainda não podia ser claramente determinada e que revelava a insuficiência da simples leitura de literatura filosófica para alcançar uma compreensão efetiva do modo de pensar denominado fenomenologia. 16. A perplexidade começou lentamente a desfazer-se somente quando o encontro pessoal com Husserl em seu gabinete tornou possível uma aproximação direta à prática fenomenológica. 17. A chegada de Husserl a Friburgo, em 1916, como sucessor de Heinrich Rickert, tornou suas aulas uma aprendizagem gradual da visão fenomenológica, entendida como exercício que exigia a suspensão do emprego automático de conhecimentos filosóficos e da invocação da autoridade dos grandes pensadores, embora a ligação persistente com Aristóteles e os gregos mostrasse progressivamente que a familiaridade com o olhar fenomenológico poderia justamente favorecer uma nova interpretação de Aristóteles. * O exercício fenomenológico requeria libertação diante de conhecimentos herdados e autoridades filosóficas utilizadas como respostas previamente disponíveis. * A permanência da relação com Aristóteles não se mostrou incompatível com a fenomenologia, mas recebeu dela novas possibilidades interpretativas. * As consequências decisivas dessa nova aproximação a Aristóteles ainda não podiam então ser antecipadas. 18. A partir de 1919, o exercício simultâneo do ensino, da aprendizagem junto a Husserl, da visão fenomenológica e de uma leitura renovada de Aristóteles conduziu novamente à sexta das Investigações Lógicas, cuja distinção entre intuição sensível e intuição categorial se revelou capaz de esclarecer a multiplicidade de sentidos do ente (Seiendes). 19. A importância adquirida pela sexta Investigação Lógica levou amigos e alunos a solicitar repetidamente sua republicação, realizada pela editora Niemeyer em 1922, enquanto Husserl, já orientado pelo projeto sistemático das Ideias, reconhecia implicitamente a distância que o separava de sua obra anterior e concentrava sua atividade intelectual e docente nas diretrizes gerais e na construção do sistema fenomenológico. * A republicação preservou a sexta investigação em sua forma antiga, tornando novamente acessível um texto então de difícil obtenção. * A expressão husserliana “amigos da presente obra” indicava a iniciativa daqueles que ainda encontravam nas Investigações Lógicas uma fecundidade filosófica própria. * O desenvolvimento posterior de Husserl orientava-se cada vez mais para a sistematização da fenomenologia transcendental. 20. O estudo semanal das Investigações Lógicas com grupos avançados de seminário, embora recebido por Husserl com uma reserva crítica, tornou-se decisivo para compreender que aquilo que a fenomenologia apreendia como manifestação do fenômeno havia sido pensado de maneira mais originária pelos gregos como desvelamento ([[lx>termos:u:unverborgenheit|Unverborgenheit]]) do que está presente, fazendo aparecer a [[lx>termos:a:aletheia|alétheia]] como traço fundamental do pensamento grego e talvez da própria filosofia. * A preparação dos seminários mostrou-se filosoficamente fecunda sobretudo para a própria elaboração da problemática. * O manifestar-se fenomenológico revelou uma afinidade mais originária com a experiência grega da alétheia do que com uma simples teoria moderna dos atos de consciência. * O desvelamento (Unverborgenheit), compreendido como mostrar-se do presente, passou a indicar uma dimensão fundamental do pensar filosófico. 21. À medida que se tornava mais clara a conexão entre manifestação fenomenológica e desvelamento (Unverborgenheit), impunha-se com maior força a pergunta pela origem e determinação daquilo que, segundo o princípio fenomenológico, deve ser experimentado como a coisa mesma ([[lx>termos:z:zu-den-sachen-selbst|die Sache selbst]]), tornando-se decisivo saber se essa coisa é a consciência e sua objetualidade ou o ser (Sein) do ente (Seiendes) em seu desvelamento (Unverborgenheit) e velamento ([[lx>termos:v:verborgenheit|Verborgenheit]]). 22. A atitude fenomenológica conduziu, assim, novamente ao caminho da pergunta pelo ser (Seinsfrage), agora em sentido renovado e distinto daquele que surgira inicialmente a partir de Brentano, embora esse caminho se revelasse longo, marcado por pausas, rodeios e desvios, e apenas indiretamente reconhecível nas primeiras aulas de Friburgo e posteriormente nas de Marburgo. 23. A exigência institucional de publicar rapidamente um trabalho no semestre de inverno de 1925–1926 surgiu quando a Faculdade de Filosofia de Marburgo propôs a nomeação para a cátedra deixada por Nicolai Hartmann, mas o Ministério de Berlim devolveu a proposta alegando a ausência de publicações nos dez anos anteriores. 24. A necessidade de publicação levou à retomada de um trabalho guardado havia muito tempo, e a mediação de Husserl possibilitou que a editora Max Niemeyer aceitasse imprimir imediatamente os quinze primeiros fascículos destinados ao Anuário de Husserl, exemplares que a Faculdade encaminhou ao Ministério como comprovação da produção filosófica apresentada. 25. A classificação ministerial inicial desses fascículos como “insuficiente” foi superada após a publicação integral de Ser e Tempo (Sein und Zeit), em fevereiro de 1927, no oitavo volume do Anuário e em edição separada, circunstância que levou, seis meses depois, à revogação do parecer negativo e à ratificação da nomeação. 26. A publicação de Ser e Tempo (Sein und Zeit) estabeleceu a primeira relação direta com a editora Max Niemeyer e transformou aquele nome, anteriormente conhecido apenas pela folha de rosto das obras de Husserl, numa experiência concreta de cuidado, confiabilidade, generosidade e simplicidade do trabalho editorial. 27. A preparação, no verão de 1928, do volume de homenagem pelo septuagésimo aniversário de Husserl coincidiu com a morte de Max Scheler e recolocou em evidência sua investigação O formalismo na Ética e a ética material dos valores, cuja importância, ao lado das Ideias de Husserl, confirmou a capacidade editorial da Niemeyer de reconhecer trabalhos destinados a exercer influência filosófica duradoura. 28. A homenagem a Edmund Husserl foi publicada pontualmente no aniversário do filósofo e entregue pessoalmente a ele em 8 de abril de 1929, na presença de seu círculo de discípulos e amigos. 29. Após uma década sem publicações importantes, a editora Niemeyer assumiu, em 1941, o risco de publicar a interpretação do hino de Hölderlin “Como quando em dia de festa...”, oriunda de uma conferência proferida na Universidade de Leipzig e cuja publicação fora discutida diretamente com Hermann Niemeyer após a exposição pública. 30. Doze anos mais tarde, ao decidir publicar algumas conferências anteriormente proferidas, a escolha voltou a recair sobre a editora Niemeyer, então reconstruída em Tübingen após grandes perdas e dificuldades pessoais enfrentadas por seu proprietário. 31. A história da editora Niemeyer remonta também ao período em que Husserl ensinava em Halle an der Saale e concebia as Investigações Lógicas, cuja publicação por uma casa editorial disposta a acolher uma extensa obra de um professor pouco conhecido e orientado por caminhos incomuns contribuiu para transformar tanto a filosofia contemporânea quanto a própria identidade da editora, posteriormente ligada de modo indissociável à fenomenologia. * Husserl recordava em Friburgo, com gratidão e admiração, a disposição da Niemeyer para publicar sua obra no início do século. * As Investigações Lógicas inicialmente chocaram a filosofia contemporânea antes de terem sua importância reconhecida por Wilhelm Dilthey. * A editora não poderia prever que seu nome se tornaria associado à fenomenologia e, por intermédio dela, a uma orientação capaz de marcar amplamente o espírito da época. 32. Embora a filosofia fenomenológica possa hoje parecer encerrada e reduzida historicamente a uma tendência entre outras, aquilo que lhe é mais próprio não pertence à forma de uma corrente filosófica, mas à possibilidade do pensar que, transformando-se historicamente, permanece capaz de corresponder ao que exige ser pensado, de modo que o próprio nome “fenomenologia” pode desaparecer em favor da coisa do pensar (Sache des Denkens), cujo estar-desvelado continua envolto em mistério. * A permanência da fenomenologia não depende da conservação de seu título histórico ou de sua institucionalização como escola. * Sua essência reside na possibilidade de um pensar que se transforma para corresponder àquilo que há de ser pensado. * A coisa do pensar ([[lx>termos:s:sache-des-denkens|Sache des Denkens]]) permanece caracterizada por uma abertura cujo próprio desvelamento não elimina o mistério. ** Apêndice de 1969 ** 33. A formulação de Ser e Tempo (Sein und Zeit) segundo a qual a essência da fenomenologia não reside em sua realização histórica como “corrente” filosófica, mas na primazia da possibilidade sobre a realidade, confirma que a compreensão da fenomenologia depende exclusivamente de sua apreensão como possibilidade do pensar. {{tag>GA14 Sache Fenomenologia Husserl}}