====== 2ª e 3ª transformações do pensamento mítico ====== //Marc Richir, "O que é um deus?", em SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.// * A segunda transformação: a ausência dos homens nos relatos mitológicos em comparação com os relatos míticos * Os homens são praticamente ausentes nos relatos mitológicos * Intervêm apenas por alusão furtiva (ex.: no início da Teogonia de Hesíodo, a propósito de Eros) * Só são implicados pelo que se passa no termo do relato de fundação * O que concerne os homens é retomado nos relatos épicos ou nas "lendas", paralelos aos relatos mitológicos de fundação * O que é posto em cena nesses relatos é considerado meta-humano ou sobre-humano * Os deuses são imortais e engendrados (como já assinalava Platão no Timeu, 41 a-b) * O paradoxo dos deuses condensa o paradoxo de toda instituição simbólica: parece engendrada e imortal * Nos relatos mitológicos, não há mais "metamorfoses" ou passagens constantes do natural ao sobrenatural * O sobrenatural está na distância do invisível; os passagens ocorrem na epopeia ou na "lenda" * Algo do "maravilhoso" mítico perdeu-se na austeridade das intrigas entre os deuses * Isso deu à mitologia a aparência de um "progresso" na "abstração" * A terceira transformação: o princípio de não-contradição e a estrutura genealógica * Há um princípio de não-contradição implícito ligado à identidade simbólica dos deuses * A imaginação mítica desprende-se das transformações sedimentadas para se repor mais "puramente" nos encadeamentos regrados da intriga * Isso constitui uma espécie de logos que toma lugar preponderante * As "metamorfoses" de deuses em outros deuses são doravante interditas * O elemento genético do relato é representado por duas formas de engendramento: * Por cissiparidade partenogenética (geralmente de uma deusa para outros deuses e deusas) * Por união sexual de um deus e uma deusa * Isso dá lugar a genealogias divinas, cujo espírito é congruente com os problemas de legitimidade da instituição simbólica da realeza * Essas genealogias são ao mesmo tempo espécies de dinastias, testemunhando que é a instituição simbólica como um todo que é interrogada quanto a seu sentido * A pensamento genealógico coloca novos problemas à pensamento: * O problema da partenogênese * A transgressão constante da proibição do incesto * O interdição do matricídio e do parricídio * A divisão sexual entre deuses e deusas * Isso fará dizer, nomeadamente aos filósofos na Grécia, que os relatos mitológicos são em realidade bárbaros e ímpios * A condensação e separação simbólica nos relatos mitológicos * A condensação simbólica na identidade de um "personagem" divino permite "dividir" e "analisar" os poderes, caracteres ou atributos simbólicos ao longo das genealogias * A intriga simbólica do relato mitológico é também a intriga de sua separação progressiva a partir de uma "mistura" originário ou de uma massa ainda incoativa * Essa intriga é extraordinariamente rica em correspondências harmônicas de segundo grau em relação ao fio manifesto da intriga * O novo traz sempre o antigo em eco, de múltiplas formas, tornando o "deciframento" do relato quase infinito * Nada se perde, mas o todo se explicita por codificações e recodificações nas codificações * O relato exibe um equilíbrio harmônico entre todos os "poderes", "caracteres" e "atributos" recenseados * Se há um logos na mito-logia, é um logos harmônico, no sentido que H. Maldiney destacou * O "cratilismo" não está ausente desse logos * A dificuldade imensa é que os jogos de palavras ou sobre etimologias são regrados pelo logos harmônico da mitologia * É extremamente difícil "reencontrar" sem já as ter compreendido as supostas intenções dos "redatores" dos relatos mitológicos {{tag>Richir Schelling mitologia}}