====== 3 Emoção ====== //Le sujet de la surprise: Un sujet cardial. Zeta Books, Bucarest, 2018// **Estrutura segunda: a emoção** * A atenção e a surpresa são palavras correntes sem carga filosófica evidente e não fazem parte de uma história da filosofia, o que não ocorre com a emoção, que marca diferença nesse ponto. * Ainda que apareça sob outro nome na história e tenha sido batizada como emoção apenas no contexto recente das ciências cognitivas, sua presença na filosofia é correlativa à afirmação da razão através do logos antigo, da ratio cartesiana, do entendimento kantiano e do espírito hegeliano, constituindo a alteridade do racional sob os nomes de pathos, paixão, afeto, sentimento, afecção ou afetividade, antinomia da razão que ora abre espaço para assumi-la ora opera por seu poder de perturbação para desconstruí-la, ambivalência que se repete hoje nas ciências sob o binômio cognição/emoção. **1. O lugar da surpresa nas teorias das emoções** **1.1. A surpresa: uma emoção a mais ou pedra angular das emoções?** * A relação entre emoção e surpresa revive a ambivalência do emocional frente à razão, entre desordem e potencialização, sendo a surpresa tanto o choque que desestabiliza quanto a abertura que gera o novo, configurando duplo valor e ambivalência. * Tanto na literatura científica quanto na filosófica reaparecem duas proposições: por um lado sustenta-se que a surpresa é uma emoção primária entre outras, firmemente oposta ao polo racional; por outro lado a surpresa, primum inter pares, aparece como pedra angular das emoções e por isso não seria uma emoção como qualquer outra, ou sequer uma emoção, abrindo antes uma brecha no processo cognitivo capaz de colocá-lo em crise. * Segundo a primeira hipótese, a surpresa é uma espécie do gênero emoção e mais concretamente do subgênero emoção primária, ao lado de medo, ira, asco, tristeza e alegria, resultado experimental obtido por Ekman e Friesen em estudo sociopsicológico de 1971 que, a partir de fotografias de expressões faciais em diferentes culturas, chegou à universalidade dessas seis emoções primárias, especificando a surpresa pela expressão fisiológica de campo visual ampliado e olhos bem abertos, vinculando assim o emocional a seu ancoramento orgânico segundo Darwin, ainda que Ekman tenha enfrentado dificuldade em distinguir surpresa e medo na expressão facial, o que pode ter limitado a universalidade dessas duas emoções. * Em 1980, Plutchik desenvolveu sua roda das emoções composta de oito emoções primárias e oito emoções mais complexas, cada uma resultante da combinação de duas emoções primárias. * As oito emoções primárias apresentam-se em estrutura de oposição entre alegria e tristeza, medo e ira, confiança e asco, surpresa e antecipação, sendo que o critério de oposição às vezes segue a polaridade positivo/negativo, como no par alegria/tristeza, mas não no par medo/ira, ambos negativos, nem nos pares confiança/asco e surpresa/antecipação, que não se regem por simples oposição de valores; além disso as duas emoções que Plutchik acrescentou às seis de Ekman chamam atenção por serem primárias apenas de nome, já que confiança e antecipação, ao contrário de asco, medo, ira, alegria e tristeza, mal apresentam expressão corporal reconhecível, sendo a oposição entre asco e confiança ancorada numa dimensão orgânica ou ética conforme se situe no eixo da relação com os outros, enquanto o par surpresa/antecipação permanece neutro quanto à valência, o que leva a questionar se de fato se trata de emoções e não de processos temporais. * Cabe perguntar o que Plutchik efetivamente aporta e segundo quais critérios essas emoções são emparelhadas, já que o valor positivo/negativo não desempenha papel homogêneo, sendo evidente que ele busca romper com as classificações cartesianas binárias e estáticas das emoções, introduzindo um critério dinâmico numa rede flexível e sistêmica. * Assim, para o par medo/ira o critério é a interação causal motriz de defesa passiva versus reação ativa, enquanto para o par antecipação/surpresa o critério é de ordem temporal, sendo a antecipação o horizonte da expectativa que a surpresa revela; além disso surpresa e antecipação situam-se no mesmo eixo da roda que os pares distração/atenção e vigilância/interesse, o que demonstra a correlação entre surpresa e atenção nas modalidades de alerta, interesse e distração, apoiando o vínculo intrínseco entre expectativa e atenção, sendo a surpresa claramente um processo dotado de duração, o que permite compreender a antecipação como atividade pré-consciente análoga à protenção husserliana, sendo notável que Plutchik, sem filiação histórica a Husserl ou Ricœur, tenha identificado essa conexão original entre surpresa e antecipação. * Oito emoções complexas resultam da combinação de pares de emoções primárias, como o desprezo da ira com o asco ou o amor da confiança com a alegria, sendo a ansiedade resultado da surpresa com o medo e a decepção resultado da surpresa com a tristeza, o que mostra que o modelo dinâmico de Plutchik não se reduz a pares opostos e que, ao contrário de Ekman, a surpresa recebe especificidade cognitiva ligada à antecipação e à atenção, associando-se a emoções como medo e tristeza sob os nomes de ansiedade e decepção conforme seu tônus anticipatório ou sua marca emocional negativa. * Já em 1977, Izard havia assinalado que a surpresa não é uma emoção no mesmo sentido que a alegria ou a tristeza, não possuindo as características de todas as demais emoções mas cumprindo funções úteis, sendo descrita de forma objetiva, neurológica e comportamental; conforme estudo experimental de Izard, a surpresa associa-se a alto grau de prazer, ao contrário da visão geral negativa de Plutchik, ainda que as emoções mais frequentemente associadas a ela sejam o medo e a vergonha, o que coloca o sujeito em posição de passividade, sendo sua dimensão subjetiva mencionada apenas através de um sentimento extremamente transitório e fugaz que evidencia a mente em branco no momento da surpresa e uma sensação de incerteza sobre como reagir. * Segundo Izard, a função da surpresa é ajudar o indivíduo a se preparar para enfrentar um acontecimento novo e repentino e suas consequências, argumento que poderia surpreender já que a surpresa engendra estado de instabilidade e desordem, mas que se explica, em sentido herdado da adaptação darwiniana, pelo fato de que a confrontação regular com eventos surpreendentes cria gradualmente um hábito de autorregulação que forja equilíbrio vital segundo dinâmica contínua de integração da mudança, liberando o sistema nervoso para se adaptar a mudanças e abrindo caminho ao novo, enquanto a inadaptabilidade pode levar a crise, lesão ou morte, coincidindo essa qualidade adaptativa com a hipótese da estrutura de atenção em sua forma temporal de expectativa e antecipação implícita como condição experiencial da surpresa. * A comparação entre as posições de Ekman, Izard e Plutchik esclarece a situação cartesiana, já que Descartes, como Ekman, identifica seis paixões primitivas, admiração-surpresa, tristeza, alegria, amor, ódio e desejo, substituindo porém ira, medo e asco pelos três últimos; ao limitar-se à definição estrita da admiração como súbita surpresa da alma, surpresa e admiração tornam-se sinônimos, sendo a admiração a primeira paixão, sem contrário como o desejo, e sendo definida indiretamente através da surpresa, muito embora Descartes não formule definição própria de surpresa, apenas de admiração como súbita surpresa da alma que leva a considerar com atenção objetos raros e extraordinários. * Descartes descreve a admiração em cinco microssequências: um objeto atrai, é julgado novo, experimenta-se surpresa repentina, sente-se admiração como primeiro efeito e considera-se o objeto com atenção como segundo efeito, processo já anunciado parcialmente no parágrafo 53 das Paixões da Alma, resultando a surpresa do primeiro encontro com um objeto avaliado como novo, tendo como efeitos imediatos admiração e atenção, sendo a admiração não idêntica à surpresa mas seu efeito emocional imediato, enquanto a atenção se apresenta como seu possível efeito cognitivo e não como sua estrutura antecipatória de expectativa, de modo que a surpresa cartesiana cria emoção e atenção, remetendo em nosso modelo à fase de contragolpe geradora de emoção e atenção. * Por essas razões, Descartes confere à surpresa lugar que a torna irredutível a simples emoção, descentrando-a do regime emocional estrito e atribuindo-lhe componentes cognitivos, judicativos e atencionais, sendo esse ponto de partida que cognitivistas contemporâneos como Davidson ou Dennett levarão adiante ao extrair a surpresa das emoções e atribuir-lhe valor sobretudo ou mesmo exclusivamente cognitivo. **1.2. O lado fenomenológico: sobredeterminação da emoção, a quase ausência da surpresa** * A surpresa não é apenas mais uma emoção nem sua pedra angular, mal se sabendo onde situá-la, sendo natural que ela lute por encontrar seu lugar entre as diversas fenomenologias da emoção, já que os fenomenólogos que atribuem papel crucial à afetividade não consideraram necessário incluí-la, forte indicador negativo que coloca em questão a possibilidade de reconstruir a surpresa em campo distinto do emocional. **1.2.1. Scheler, Heidegger, Sartre: centralidade da afetividade e fraca tematização da surpresa** * A emoção desempenha papel central seja na obra de Scheler sobre a vida afetiva, na análise heideggeriana das tonalidades afetivas fundamentais ou, já nos anos 30, no jovem Sartre. * A afetividade scheleriana situa-se no terreno intersubjetivo, social, histórico e moral, partindo da simpatia como centro de todas as tendências emocionais e do amor como expressão suprema da simpatia pura, abordando outros afetos morais como vergonha, culpabilidade, espera-esperança, sofrimento e desespero, voltando-se para problemas éticos cristalizados no valor da vida humana, o que explica por que a surpresa, entendida como reação orgânica vivida, dificilmente encontra lugar nesse esquema, não havendo em Scheler espaço sequer para surpresas coletivas no plano social e ético que lhe corresponderia. * A ontologia heideggeriana do acontecimento poderia oferecer lugar mais evidente para a surpresa a partir da questão da ruptura da continuidade temporal, já que o autor de Ser e Tempo trouxe à luz nova concepção do tempo caracterizada pelo ser-para-a-morte aberto ao futuro e enraizado na angústia; contudo a surpresa incorpora mais que a dimensão temporal, sobretudo em virtude de seus componentes corporais e intersubjetivos, não podendo reduzir-se a acontecimento individual e descarnado, e a antropologia descontinuísta de Heidegger o leva a situar a surpresa no animal, excluindo-a da autêntica humanidade capaz apenas de assombro, de modo que sua compreensão da surpresa não a alcança, seja por limitá-la a simples estupor animal, seja por transformá-la em assombro sinônimo do despertar do espírito, seja ainda por pensá-la implicitamente no horizonte histórico do acontecimento. * O tratamento sartreano da surpresa está indiretamente ligado à análise da consciência comovida como consciência mágica no Esquisse d'une théorie des émotions, compartilhando com a emoção o modo de ser mágico oposto aos modos pragmáticos ou racionais, ainda que Sartre não explore essa possibilidade de a surpresa ser transformação mágica que irrealiza acontecimentos e situações, recuperando antes a emoção por seu paroxismo passional e tendência patológica à desordem e à inquietude. * Em suma, os três fenomenólogos não abordam cuidadosamente a surpresa, assumindo-a como rápido choque orgânico comum a seres vivos humanos e animais, enfatizando antes emoções relacionais, éticas ou sociais em Scheler, existenciais em Heidegger, ou situacionais e irrealizantes em Sartre, sem incluir a surpresa como dimensão central ativa em crise social, política ou ética, nem como acontecimento existencial ou alavanca relacional intersubjetiva. **1.2.2. Da decepção, o nome husserliano do efeito surpresa** * O interesse de Husserl por uma microdescrição granular da vida corporal interna do sujeito poderia abrir a possibilidade de situar a surpresa como microrruptura orgânica, e embora não tenha construído fenomenologia da emoção stricto sensu, é possível identificar vários planos em que a surpresa surge indiretamente: primeiro, na descrição das tendências e impulsos corporais primários, aparecendo objetivamente como reação orgânica pré-consciente de resistência a algo novo e subjetivamente como tensão interna que experimenta momento de liberação, retomando a divisão subjetiva-objetiva já mencionada a propósito de Aristóteles e Heidegger, agora pensada em sua articulação dinâmica. * Em segundo lugar, no curso de uma atividade perceptiva, o sujeito é afetado por objeto, pessoa ou situação inesperada surgida sobre o fundo de suas próprias expectativas, identificada como surpresa, tomando-se por exemplo esperar um amigo e ver chegar outra pessoa, sendo essa tomada de consciência de conteúdo principalmente cognitivo denominada por Husserl desengano mais que decepção, à qual se associa rapidamente uma emoção como a tristeza. * Em terceiro lugar, no plano mais elaborado do conhecimento de um objeto, a dinâmica da atenção desenvolve-se quando algo chama a atenção que antes não fora notado, apresentando-se a surpresa como fenômeno de duas faces, objetiva e subjetiva: a que golpeia pondo em tensão e ganha relevo no lado objetivo, e a que conduz a um relaxamento combinando emoção e certa falta de vontade no lado subjetivo, podendo o momento associado de emoção involuntária ser positivo ou negativo. * Assim, embora Husserl mal tenha tematizado a surpresa, diversas análises podem ser atribuídas a uma fenomenologia da surpresa, que quando nomeada aparece mais como sentimento correspondente a estado passivo do sujeito obstaculizado, com dimensão quase física de golpe ou choque explosivo localizado no órgão do coração, sendo o fato passivo e sofrido quando descrita microfenomenologicamente, mas convertendo-se em processo integrado corporal, cognitivo e emocional de tensão e relaxamento quando recomposta numa filosofia fenomenológica intencional. * Em conclusão, para cada um desses fenomenólogos a surpresa se reconstrói através de outros conceitos e não é tema descrito diretamente, sendo interessante constatar que eles constroem macroconceitos como o assombro, o acontecimento ou o desengano para pensá-la filosoficamente, como se o fato bruto de o sujeito ser surpreendido escapasse à discursividade filosófica. **1.3. O lado psicológico da forma: surpresa e valência** * Ao passar ao campo dos enfoques científicos que valorizam abordagem sistêmica das emoções e abandonam a preocupação com classificação binária, encontra-se rapidamente um termo relevante para caracterizar a relação entre surpresa e emoção: a noção de valência. * Já se compreendeu que a surpresa não é simples emoção entre outras, nem pode se converter em meta-emoção, nem pode dissociar-se do campo afetivo, permanecendo pouco claro o que fazer com a emoção no que respeita à surpresa, já que os três modos de relação descritos até então, surpresa como emoção primária, como condição das emoções, ou como não-emoção, mostraram-se insatisfatórios, tendo o termo valência a vantagem de fornecer critério transversal comum à surpresa e à emoção baseado na não neutralidade da polaridade dos valores, já que qualquer surpresa, como qualquer emoção, é positiva ou negativa, boa ou má. * A primeira aparição do termo valência deve-se a Kurt Lewin, psicólogo social germano-estadunidense ativo nos anos 20-30, que após tese sob orientação de Carl Stumpf e trabalho inicial no campo do condutismo entrou em contato com psicólogos da teoria da Gestalt, fundando o princípio da análise do campo de forças que examina fatores de apoio ou de obstáculo influentes numa situação social, termo que entrou na psicologia de língua inglesa em 1935 com a tradução de suas obras, sendo a valência entendida como dinâmica de forças opostas de atração e repulsão que estimula a aprendizagem do indivíduo ao impulsioná-lo a desenvolver novas capacidades diante do conflito. * Além de seu significado no âmbito da aprendizagem, a valência é considerada conceito operativo que define a dinâmica das emoções em psicologia, significando a atração como valência positiva ou a adversidade como valência negativa de um evento, sendo também usada para caracterizar emoções específicas, como a ira ou o medo com valência negativa e a alegria com valência positiva, e para dar conta da qualidade hedônica ou anedônica de sentimentos, afetos e comportamentos, podendo ainda, entendida como ambivalência, converter-se em conflito interno do indivíduo. * Podem-se distinguir dois significados principais da noção de valência: ou se refere a uma dinâmica resultante da oposição entre dois valores, ou é o próprio valor positivo ou negativo de uma emoção específica, correspondendo no primeiro caso a um conceito global aplicável às emoções sem caracterizá-las e no segundo a uma característica das próprias emoções, variando conforme essa escolha o sentido atribuído à surpresa. * Se a valência for entendida no segundo sentido, como traço invariável das emoções que constitui o valor positivo ou negativo de uma emoção específica, a surpresa estaria desprovida de valência, não vinculada intrinsecamente a valor algum, descrevendo-se então como salto associado a estado cognitivo de ruptura do fluxo temporal produzido por erro de predição, permanecendo desconectada da valência enquanto processo corporal e cognitivo neutro. * Como contra-hipótese, entendendo-se a valência no primeiro sentido, como a própria dinâmica dos valores opostos, um conceito global aplicável às emoções mas que não as caracteriza por si mesmas, pode-se compartilhar tal dinâmica com a surpresa na medida em que ambas estão estruturadas por uma polaridade, possuindo a surpresa valor como estrutura dinâmica interna que se modula segundo o grau de valência, do neutro ao extremo, sendo a valência inerente à surpresa como um cursor que a modaliza, o que não ocorre com a emoção, categoria genérica distribuída em positivo ou negativo. * Enquanto as primeiras opções mencionadas, a surpresa como emoção primária ou como processo cognitivo neutro, permanecem unilaterais, a opção que articula surpresa e valência é mais complexa, permitindo que a surpresa não seja subsumida pela emoção nem pela cognição, já que a valência define antes a dinâmica da surpresa do que a própria emoção, associada a ela posteriormente através de emoções constituídas como medo, alegria e asco, permitindo assim replantear a relação surpresa-emoção mediante mudança de enquadramento. * Compreende-se então por que a surpresa não pode se reduzir a acontecimento neutro inserido numa dinâmica temporal sem qualidade emocional, já que tem origem em processo temporal que inclui a qualidade emocional de uma tensão, mesmo implícita, vinculada a um prazer anticipatório satisfeito ou não cumprido e a suas contrapartes imediatas de alívio ou peso, sendo a surpresa boa ou má, agradável ou dolorosa, ou não é surpresa; um acontecimento pode ser crítico, histórico, físico ou matemático sem estar intrinsecamente constituído por valência, podendo tornar-se forma de surpresa histórica e coletiva com dimensões corporais, afetivas e relacionais, mas jamais substituindo a surpresa nem sendo o gênero do qual ela seria espécie, sendo essa distinção pelo critério da valência a condição para afinar a relação entre surpresa e emoção. **2. O lugar das emoções na teoria da surpresa** * Revistas as três principais teorias das emoções em que o lugar da surpresa varia, a filosofia clássica racional e a psicologia classificatória, com sua dupla condição de emoção primária ou pedra angular, a quase ausência nas fenomenologias da emoção, e a compreensão metacognitiva na filosofia da mente aliada à psicologia cognitiva e à neurobiologia, cabe agora situar a proposta apoiada na condição de valência anteriormente identificada. * A surpresa inclui componente emocional, mas é fenômeno circular global que implica primeiramente o tempo, mas também o corpo, a linguagem, a cognição, a imaginação, a intersubjetividade, a volição, as normas morais e os transtornos patológicos. **2.1. Dinâmica da surpresa: duração** * O presente enfoque é integrador, definindo-se a surpresa sobre a base de cinco invariantes, a dinâmica temporal, o corpo vivo em ação, a linguagem expressiva e descritiva, os processos cognitivos e as flutuações emocionais, além de cinco variáveis ainda exploratórias, a imaginação, a intersubjetividade, a volição, as normas morais e os transtornos patológicos, derivadas de análise cruzada entre categorias de terceira pessoa e categorias experienciais em primeira pessoa obtidas de entrevistas explicativas. * Quanto às cinco invariantes, identifica-se duplo movimento na construção do fenômeno da surpresa: primeiramente um processo negativo desconstrutivo pelo qual se abre significado alternativo, mostrando que a surpresa não é apenas instante de choque, sobressalto fisiológico, silêncio-exclamação, emoção cognitiva ou emoção primária. * O segundo movimento reinverte positivamente essas invariantes de forma dinâmica e circular, mostrando que a surpresa é também duração, cascata corporal recursiva, verbalização indireta, expectativa atencional e associação emocional. * O tempo é o fio condutor desse redesenho da surpresa, o que faz dela não simples choque instantâneo mas processo inscrito numa duração, informando o tempo todos os demais componentes experienciais, a cascata de eventos corporais, o processo múltiplo de verbalização, a dinâmica de expectativa-atenção e o movimento emocional associativo. * Diferentemente da visão comum que equipara a surpresa a acontecimento inesperado que interrompe o fluxo temporal, a proposta afirma que, se a surpresa é experimentada espontaneamente como ruptura no fluxo contínuo do tempo, ela está ligada tanto ao que se experimentou antes da ruptura, a protenção, quanto ao que se experimenta imediatamente depois e que persiste, a retenção, definindo-se assim a surpresa como processo microtemporal que se desdobra em várias fases, estando o momento da crise diretamente relacionado à sua antecipação implícita e à sua ressonância remanescente. * Essa hipótese encontra aliados em certos filósofos: Husserl define o presente vivo como estrutura da experiência do momento presente que inclui seu horizonte de expectativa e sua dinâmica de abertura, de modo que uma ruptura nesse presente vivo pode gerar irritação ou alegria conforme o caso, manifestando-se esse instante de ruptura sobre o fundo de uma tensão corporal pré-consciente correspondente à qualidade da presença na atividade em curso; Ricœur, convergentemente, considera que a surpresa não é redutível a estímulo-reflexo, mas contém duração interna que é a experiência vivida do corpo que se amplifica e a consciência estendida do ser-surpreendido. * Indicações extraídas de entrevistas de explicitação microfenomenológica atestam diferentes ritmos de aparição da surpresa enquanto modos de sua duração: um estudante, ao ver quadro de Soutine, sente asco e exclama interiormente, sendo a surpresa primeiro corporal-emocional e depois expressa em discurso interno, com duração bimodal gustativa e exclamativa; uma estudante, ao ver escultura de Louise Bourgeois, sente satisfação imediata e depois decepção ao descobrir que não se trata de uma escultura, configurando dinâmica de duplo dobramento com dois valores; uma terceira estudante, vendo quadro de Gustave Doré, sente-se atraída pelo efeito túnel da imagem, depois percebe sombras não vistas inicialmente e finalmente descobre anjos ao redor do sol, experimentando em cada etapa uma surpresa específica visomotora, focal ou periférica, correspondente a processo generativo de cascata de surpresas. * Esses três indícios atestam duração interna da surpresa e participam, junto às posições filosóficas husserliana e ricœuriana, da validação cruzada dessa hipótese em primeira e terceira pessoa. **2.2. A emoção: a segunda estrutura da teoria da surpresa** * A surpresa não é momento pontual mas se desenvolve segundo duração interna, incluindo vários componentes emocionais sem ser ela própria uma emoção como alegria, medo ou tristeza, cabendo perguntar qual é o lugar das emoções na dinâmica temporal da surpresa. * Defende-se a ideia de que a emoção é a segunda estrutura da surpresa, não no sentido de secundária ou de valor menor, mas junto com a atenção como uma das duas primo-estruturas da surpresa, sendo secundária no sentido de que secunda a surpresa, apoiando-a, do mesmo modo que um segundo em comando numa pequena empresa exerce responsabilidade real ao tomar decisões na ausência do chefe; em resumo, a emoção deriva, como estrutura, da estrutura primária de atenção que é condição da surpresa, desempenhando papel não de condição mas de implicação, sendo necessário compreender como a emoção, ao secundar a surpresa, acompanha seu processo intervindo em diferentes momentos segundo distribuição que responde a funções específicas. * Declinando as características dessa segunda estrutura, a emoção é uma emergência que acompanha o processo de surpresa em suas três fases, distribuindo-se especificamente entre elas: intervém em maior medida na fase de reação sob forma de ressonância, desempenha papel menor na fase de antecipação, sobretudo atencional, e adquire significado especial na fase de crise, onde a surpresa como choque-sobressalto se associa a uma emoção que é seu efeito direto, constituindo a microdinâmica da crise. **2.2.1. O ritmo emocional geral da surpresa** * As entrevistas explicativas microfenomenológicas permitiram, melhor do que as análises filosóficas ou fenomenológicas isoladamente, precisar as diferentes ocorrências emocionais e sua especificidade ao longo do processo de surpresa, aparecendo o componente emocional em vários momentos e de múltiplas formas nas três fases da dinâmica. * Conforme a fase, a emoção não tem a mesma importância, sendo maior na fase de reação e menor na de antecipação, nem a mesma função, sendo modulação nas fases de antecipação e reação e associação na fase de crise, configurando-se assim uma tabela de ritmos emocionais: na fase de expectativa há tensão com emoção duradoura de valência esperança ou ansiedade; na fase de crise há choque com vazio emocional seguido de emoção associada como alegria, ira, horror, asco, decepção ou tristeza; na fase de reação há relaxamento com emoção duradoura-acompanhante de valência alívio-satisfação ou mal-estar-ruminação. **2.2.2. O lugar da emoção nas diferentes fases** **Fase de crise: o efeito emocional por associação** * A fase de crise é o coração da dinâmica da surpresa, procedendo a força emocional do choque do impacto perceptivo, visual ou auditivo, combinado com frequente reação corporal motriz de sobressalto, desempenhando a emoção papel especial nessa fase em que a surpresa stricto sensu, o choque-sobressalto, entra em associação com uma emoção que é seu efeito direto, recebendo essa emoção intensa valência negativa como horror ou positiva como assombro, ao passo que no mesmo momento da aparição do estímulo enfrenta-se um vazio emocional que na percepção visual toma forma cognitiva de estupor ou assombro. **Fase de reação: o principal modo de ressonância** * A fase de reação gera, sob a figura emocional genérica da ressonância, qualidades situadas sob o signo temporal da duração, acompanhando o processo de liberação de modo mais duradouro, como ruminação-mal-estar ou alívio-euforia, ou mais pontual, como decepção ou satisfação, conforme o conteúdo da crise, persistindo e ressoando na mente dependendo da tensão emocional das emoções já associadas ao choque da crise. **Fase de antecipação: o modo menor de tensão** * Na fase de expectativa experimenta-se certo grau de tensão, geralmente despercebida, segundo a abertura e o caráter indeterminado da expectativa, intervindo a emoção em menor medida nessa fase, sobretudo atencional, sem estar ausente. * Essa tensão é literalmente uma pró-tensão orientada para o que ainda não é, daí sua abertura e indeterminação, constituindo base contínua de unidade orgânica e psíquica da vitalidade do vivo, situando-se abaixo da valência numa neutralidade de fundo que, conforme a estrutura de personalidade do indivíduo ou o tipo de crise, pode especificar-se como valor positivo de esperança-expectativa ou negativo de apreensão-ansiedade. **2.3. A condição estrutural da valência** * O modelo multivetorial de surpresa, composto por essas três fases, incluindo além da crise seu tempo de espera-tensão e suas sequelas duradouras, considera que a valência opera em cada fase de forma bifacial: expectação como ansiedade/esperança, choque como horror/maravilha e ressonância como incômodo/alívio. * Sendo estrutura polar transversal, a valência declina-se em vários níveis: forças orgânicas no plano neurofisiológico e comportamental, emoções constituídas no plano psicológico, ou, no plano ético, no reino da ambivalência das normas e valores. * No campo da neurologia, vários estudos estabeleceram o papel dominante da amígdala no armazenamento e modulação da valência de um evento sensorial, valor inscrito no tempo na medida em que o evento carregado de valor está vinculado a sua dinâmica de antecipação e de ressonância, atribuindo-se a cada fase uma valência expressa como prazer anticipatório, consumatório e perseverante ou, em termos negativos, como ansiedade, desgosto e decepção-mal-estar. * Exemplificando o valor em jogo em cada fase, uma mulher que espera com ilusão uma noite fabulosa com o marido, ao chegar cedo em casa para surpreendê-lo e encontrá-lo com a amante, sofre choque expresso em estupefação seguido possivelmente de depressão; enquanto um marido apreensivo por não saber como agradar a esposa acaba passando velada agradável com ela e terá sonhos eróticos. * O que se experimenta no plano corporal visceral em termos de prazer e desprazer e reverbera no sistema límbico também pode se expressar em termos de emoções morais: a mulher que deseja velada agradável sentirá esperança convertida em ciúme ao descobrir o engano e depois em melancolia; a ansiedade do marido inseguro pode referir-se a forma moral de culpa, enquanto o prazer subsequente corresponderá a orgulho e depois júbilo durante a fase onírica. * Essas emoções morais têm respostas corporais-emocionais evidentes: ansiedade-culpabilidade ou alegria criam tensão orgânica e aceleração cardíaca ou respiratória, enquanto melancolia ou júbilo posteriores geram recolhimento ou alívio e desaceleração cardíaca afetiva, sendo que o que se identifica neurofisiologicamente como desaceleração cardíaca só adquire sentido preciso através da descrição microfenomenológica que precisa o conteúdo experiencial correspondente; por fim, durante a crise, o choque da descoberta da traição ou da revelação do prazer dá lugar, após breve desaceleração cardíaca ligada à tomada de consciência visual e cognitiva, a choque emocional de horror ou assombro que leva a forte aceleração do ritmo cardíaco. * A valência é categoria dinâmica que se desdobra segundo duplo modo emocional positivo/negativo, aparecendo em diferentes momentos do processo multimodal da surpresa segundo um continuum neuro-fisiológico-ético. **2.4. Um primeiro modelo integrador da surpresa: a Escola de Bielefeld** * O modelo de surpresa proposto é algo novo em virtude de seu alcance sistêmico situado na encruzilhada generativa entre primeira e terceira pessoa, mas não é caso isolado, inscrevendo-se numa filiação a outro modelo forjado vinte anos antes na Alemanha por um grupo de psicólogos de Bielefeld em torno de Wulf-Uwe Meyer, Rainer Reisenzein e Achim Schützwohl, com o objetivo de reforçar sua validade e precisar sua especificidade à luz dessa tentativa pioneira. * Um primeiro artigo publicado em 1996 pelos três psicólogos destaca a dimensão multimodal do modelo processual da surpresa no contexto de estudo das reações emocionais a acontecimentos surpreendentes, não definindo esse modelo unilateralmente a surpresa como sobressalto, emoção primária, expressão ou ruptura de crenças anteriores, mas reunindo esses diferentes parâmetros em visão unificada. * A hipótese geral do artigo é compreender melhor o surgimento, a função e a natureza das emoções mediante estudo sistemático da surpresa e das reações emocionais que ela gera, apreciando-se o alcance integrador do modelo através de seis proposições iniciais: a surpresa tem qualidade fenomenológica própria variável em intensidade; é intencionada ou dirigida a um objeto; é causada por processos de apreciação cognitiva; associa-se a expressão não verbal característica e a reações fisiológicas menos típicas; tem provavelmente origem filogenética antiga; e possui função plausível correspondente a solução de um problema, oferecendo seu estudo vantagens metodológicas como produção fiável em laboratório, indicadores objetivos diversos além do relato verbal, e facilidade em evitar problemas éticos. * Reisenzein e seus colegas consideram múltiplos componentes da surpresa, cognitivos, fisiológicos, evolucionistas, linguísticos, psicológicos e metodológicos, mas também, curiosamente, um componente fenomenológico mencionado em primeiro lugar, sendo essa menção da fenomenologia suficientemente rara na ciência para despertar interesse, colocando o artigo em evidência um enfoque multimodal de grande amplitude, maior até que o dos artigos citados em sua bibliografia, limitados a visão mais estreita em termos fisiológicos, cognitivos e psicoevolutivos. * Um artigo posterior de Reisenzein, de 2000, intitulado "The subjective experience of surprise", testemunha interesse especial pelo aspecto subjetivo e consciente da surpresa, destacando que o senso comum parece identificar a surpresa com a experiência subjetiva da surpresa, e ressaltando duas características pertencentes a qualquer estado consciente: seu caráter fenomênico e sua consciência imediata conhecida de maneira pré-reflexiva, sendo o objetivo geral do artigo compreender com maior precisão a natureza, a causa e a função da experiência subjetiva da surpresa, reabilitando a psicologia da introspecção. * De forma mais geral e consensual, o objetivo de Reisenzein é tomar a surpresa como princípio reitor ou paradigma capaz de dar conta das emoções em geral, baseando-se no fato de que ela compartilha características estruturais com o medo e a ira, como intencionalidade objetiva, expressão facial, função biológica e adaptativa, origem filogenética antiga e avaliação cognitiva, além de possuir vantagem metodológica relacionada à imediatez de acesso. * A surpresa, embora entendida de forma inovadora por Reisenzein como experiência subjetiva, permanece inserida em modelo cognitivo e psico-evolutivo que fornece o quadro epistemológico geral, sendo passo importante rumo à consideração da dimensão consciente e introspectiva do sentimento de surpresa no contexto de um processo cognitivo e biológico em terceira pessoa, havendo porém poucas indicações sobre o método específico para recolher esses aspectos subjetivos conscientes, não bastando entender a surpresa como estado consciente se essa dimensão é logo absorvida por processo essencialmente cognitivo de avaliação e verificação do caráter inesperado de um acontecimento. * Mais concretamente, Reisenzein equipara o mecanismo filogeneticamente antigo da surpresa à detecção de uma discrepância seguida de realocação de recursos, esquema que, embora não seja errôneo, é limitado, podendo fornecer mecanismo de início mas exigindo desenvolvimento fenomenológico mais fino através de descrição mais detalhada de seus traços experienciais, sendo justamente isso que pretende o modelo microfenomenológico multivetorial da surpresa, evidenciando micromecanismo viso-motor-emocional na emergência da imagem, além de mecanismos complexos ligados à tensão atencional antecipatória e à ressonância emocional, nos quais intervêm em paralelo o corpo, a linguagem, a volição, os outros, as imagens internas e a dimensão moral. * A surpresa não pode ser mero efeito causado pela consciência nem um efeito interno adicional, tratando-se antes da alavanca experiencial da consciência, entendida como dinâmica de emergência, o que implica apelar a metodologia rigorosa em primeira pessoa, como a técnica da explicitação microfenomenológica, que permite recolher os microaspectos síncronos ou entrelaçados da experiência e explicitar uma rítmica temporal finamente sequenciada, em lugar de simples autorrelatos em forma de questionários próprios da psicologia experimental, cabendo ainda destacar que o modelo da Escola de Bielefeld não toma a temporalidade como fio condutor principal em sua rítmica de expectativa-protenção e ressonância-retenção, nem coloca em primeiro plano o significado moral e volitivo da surpresa, duas dimensões centrais no modelo aqui proposto. {{tag>Depraz surpresa emoção}}