====== Psicanálise ====== //DEPRAZ, Natalie. La conscience: approches croisées, des classiques aux sciences cognitives. Paris: A. Colin, 2001.// **Introdução** * 1. As concepções clássicas da consciência dos séculos XVII e XVIII já eram atravessadas por formas de inconsciente, obrigando a própria formulação de uma teoria da consciência a interrogar esse outro íntimo dela, alimentando essas formas de inconsciente boa parte das críticas dirigidas a Descartes, seja indiretamente, por Pascal, Espinosa e Malebranche, que enraízam a consciência no afeto, no corpo ou na passividade do sentimento interior, seja mais diretamente por Cudworth, Leibniz, Locke e Condillac, que acentuam formas de pré-consciência internas à consciência. * Os dois primeiros, inscrevendo-se no quadro metafísico bipolar do divino e do animal, traçam contornos inconscientes, animais e divinos, da consciência humana; os dois últimos, naturalizadores de toda metafísica, situam essa gradação do pré-consciente ao sobreconsciente no contexto de psicologia dos modos atencionais e de estudo da memória e da vigília, cuja permeabilidade ao esquecimento Bergson mostrará no início do século XX. * 2. A psicanálise deve situar-se em perspectiva de consideração do não consciente bem mais antiga que ela própria, encontrando-se já em Cudworth a possibilidade naturalista de um espírito inconsciente e em Locke, com seu conceito de uneasiness e a noção de power, antecipação do sentido ambivalente da pulsão freudiana, não possuindo, contudo, o inconsciente freudiano o mesmo caráter dessas modalidades clássicas: distingue-se por ser psíquico, e não afetivo ou corporal, e por ser inconsciente efetivo, dotado de poder e autonomia, não mera modalização fraca ou forte da consciência. * O inconsciente deixa assim de ser o que não é ou já não é consciente, tornando-se força psíquica ativa, com regras e lógica próprias, elemento constitutivo da economia psíquica global, cujo papel proíbe pensar autonomamente o funcionamento da consciência. * 3. Ao conferir estatuto central ao inconsciente, Freud aposta em sua força positiva de novidade, renovando completamente a compreensão tradicional da consciência, adquirindo o inconsciente, marginal nas perspectivas clássicas, o papel de motor ativo único, porém paradoxalmente opaco e inacessível, caracterizando-se por ponto cego originário constitutivo daquilo até então chamado consciência mas por ela irrecuperável, dividindo-se o sujeito psicanalítico em várias instâncias, longe da unidade totalizante da consciência cartesiana. * Freud verá em Schopenhauer, defensor do dualismo, precursor de sua metapsicologia, cuja vontade inconsciente equivaleria às pulsões psíquicas. * 4. Cada sucessor de Freud — Jung, Ferenczi e Lacan — abrirá janela distinta na casa do inconsciente: inconsciente coletivo, regressão matricial e ética da palavra, sendo Freud inovador ao propor teoria do sujeito dividido fundada na noção de inconsciente, posicionando-se menos como filósofo que como cientista, orientada sua démarche por finalidade prática terapêutica, devendo sua descoberta do inconsciente ao estudo dos casos de histeria com Breuer, arrancando o conceito de sintoma da nosologia classificatória e forjando teoria do sujeito histérico. **Da consciência ao psiquismo: a teoria das duas tópicas** * 1. A revolução teórica de Freud reside na substituição da ideia de consciência pela de psiquismo, revelando-se aquela mera superfície de iceberg constituído inteiramente pelo poder do inconsciente, tornando-se a consciência simples componente superficial do psiquismo face à profundidade abissal em que se mantém o inconsciente. * 2. A primeira tópica, exposta em Metapsicologia (1915), particularmente em O inconsciente, propõe compreender o psiquismo como coexistência de sistemas paralelos mas independentes — inconsciente e pré-consciente-consciente —, introduzindo a noção de pré-consciente (Pcs), instância-charneira indicando gradação entre inconsciente (Ics) e consciência (Cs), produzindo o inconsciente efeitos e sintomas que fornecem espaço de inteligibilidade indireta a dados conscientes lacunares. * As produções inconscientes manifestam-se de modo pré-consciente necessariamente deformado pela censura entre Ics e Pcs, sofrendo deslocamentos e condensações, processos psíquicos primários regidos pelo princípio do prazer, testemunhando-o os atos falhos e a análise dos sonhos, bem como sintomas neuróticos como angústia, fobia e obsessão. * 3. A segunda tópica, consignada em 1932, apresenta três novos personagens — id, eu e supereu —, que encenam o conflito entre princípio do prazer (id) e princípio de realidade (supereu), mediando o eu os interesses conflitantes, não sendo o princípio de realidade senão um arranjo do princípio do prazer, situando-se para além dele não a realidade, mas o inarticulável, ligado à morte e à perda. * Procede sua elaboração da constatação, na prática terapêutica, da resistência dos pacientes, sendo o psiquismo jogo de forças opostas e o inconsciente de natureza conflitual, correspondendo o id, inconsciente, aos desejos e pulsões sexuais e de autoconservação; o supereu, também inconsciente, formando-se por interiorização das proibições parentais e sociais, incarnando a censura; e o eu resultando de série de identificações inconscientes, situando-se na charneira dos três sistemas. * 4. Diferem as duas tópicas em dois pontos maiores: a segunda, explorando essencialmente a profundidade do inconsciente, é mais dinâmica e radical, mais ontológica, sendo o id o nome da força energética nos processos primários em que o sujeito se reconhece passivo; e agrava-se, de uma tópica a outra, a reificação dos componentes do psiquismo, instâncias e depois personagens, indicando o próprio termo tópica (de topos, lugar) concepção ainda espacial do psiquismo, sendo esse o descompasso que Lacan apontará entre a teoria ainda cartesiana de Freud e a realidade prática da cura. **O conceito de pulsão: qual ontologia da vida?** * 1. Posto de lado o edifício teórico, encontra-se a realidade mais imediata do sujeito confrontado com suas pulsões (Triebe), enunciando o termo, em plano de ontologia positiva, o que o inconsciente ainda designava em termos de psicologia negativa, procedendo Freud, em Pulsões e destinos da pulsão (1915), a esclarecimento preliminar sobre o estatuto do conceito na ciência, conceito difícil de fixar e posteriormente negado por toda uma linhagem de psicanalistas. * 2. Pulsão vem do latim pulsare, como Trieb corresponde a treiben, empurrar, sendo o sujeito freudiano sujeito pulsional, confrontado com força que o ultrapassa, brinquedo impotente de sua onipotência, permanecendo o inconsciente pulsional totalmente inacessível, núcleo de opacidade que não pode ser objeto de tomada de consciência direta nem completa. * 3. No Compêndio de psicanálise (1938), apresenta Freud as pulsões como causa de toda atividade, forças por trás das necessidades do id que, por deslocamento, mudam de objetivo e substituem-se umas às outras, caracterizando-se por mobilidade essencial, sendo Eros, ou libido, pulsão de vida definida por sua potência de ligação e conservação, correspondendo estruturalmente à pulsionalidade husserliana enquanto dinâmica unitária de encadeamento dos vividos obscuros da consciência, ainda que numa terminologia energética física comum a ambos. * 4. Tal concordância ontológica repousa, contudo, em entendimento limitado das pulsões freudianas: Husserl coloca no mesmo plano campos de experiência privilegiados — fome, sede, sexualidade, mas também prazer estético ou intelectual, busca de valores —, ao passo que Freud considera a pulsão sexual a única verdadeira, relegando a autoconservação nutricional e vendo pulsões estéticas, intelectuais ou éticas como sublimações da sexual; e distingue Freud, mais fundamentalmente, pulsão de vida e pulsão de morte, esta de caráter destruidor e assimilador, complementar e associada à primeira. * 5. Desde 1920, apresenta Freud tal aspecto como tendência à repetição e restauração determinista de antigos habitats, defendendo concepção determinista do psiquismo, opondo-se a essa ontologia da mecanicidade pulsional a concepção husserliana da pulsionalidade como dinâmica de recriação e renovação sem constrangimento objetal finalizado, relevando o maquinal, para Husserl, de passividade secundária sedimentada e reativável, não de mecanicidade originária. * Por isso o inconsciente não possui o mesmo sentido para um e outro: Husserl compreende-o como pré-consciente, irrefletido sempre suscetível de tornar-se pré-refletido, permitindo acesso possível às zonas inconscientes por reativação; Freud vê nele núcleo de opacidade irredutível, relevando de determinismo mecânico fundamental em nós. * 6. Coloca assim Freud forte descontinuidade entre o nó pulsional, lugar do inconsciente, e todo processo de tomada de consciência, descrita essa força obscura em termos empiristas de mecanicidade ou animalidade, explicando isso a tradução precoce de Trieb por instinto por V. Jankélévitch, confirmada pela possível assimilação entre necessidade e pulsão, marcada a pulsão freudiana por ambivalência originária entre mecanicismo determinista e ética da liberdade, recebendo, já em O inconsciente (1915), definição equívoca como traços psíquicos de excitação somática e fixação de nó recalcado entre representações e afetos. **A realidade prática da cura: a transferência** * 1. Ao lado dessa tendência cientificista, delineia-se compreensão menos mecanicista, mais ética, da pulsão, testemunhando a realidade concreta da cura analítica trabalho possível do homem sobre ela e, portanto, esperança de afrancamento, ainda que parcial, em relação à pulsionalidade que nos habita, apontando para tal parte de liberdade a tradução mais recente de Trieb por desejo, e não instinto ou pulsão. * 2. Sendo a psicanálise trabalho prático de finalidade terapêutica, não especulativa, instaura-se a relação entre paciente e analista sobre a base de um pacto de confiança e sinceridade de um lado, escuta e discrição de outro, consistindo a regra fundamental em dizer o que não se sabe conscientemente, permitindo ao analista adivinhar os elementos recalcados. * A transferência, fenômeno determinante mas ambivalente de que depende o êxito da cura, corresponde a atitude afetiva de apego e identificação que reproduz sentimentos experimentados em relação aos pais, criando, ao afrancar-se desse apego neurótico inicial mediante novo apego ao analista, nova neurose artificial que será preciso, por sua vez, superar. **Além de Freud** * 1. Entre as três figuras escolhidas como continuadoras originais da perspectiva freudiana há assimetria decorrente da relação específica de cada uma com o fundador: Jung e Ferenczi, discípulos diretos formados por Freud, quase vinte anos mais jovens; Lacan, de geração ainda mais jovem, intervindo no contexto francês entre o fim dos anos 1930 e 1960. **Jung, uma independência precoce** * 1. O distanciamento recíproco de Freud e Jung, em 1914, ocorre sobre fundo de diferença radical de opção analítica: centra-se Freud na estrutura neurótica do psiquismo, ao passo que Jung se interessa cada vez mais pelas psicoses e tendências psicóticas em sujeitos normais, decorrendo daí decisão teórica — a libido não teria caráter exclusivamente sexual, remetendo antes a energia primordial e universal — e consequência prática — insuficiência da história pessoal do indivíduo, exigindo remontar à história coletiva e filogenética. * 2. A libido junguiana, energia vital não exclusivamente sexual, expressa-se em dois tipos psicológicos fundamentais, introvertido e extrovertido, ligando Jung intimamente desenvolvimento espiritual e sexual, propondo em Metamorfoses da alma e seus símbolos (1912) que os desejos incestuosos do filho pela mãe sejam mais espirituais que biológicos, precisando essa diferença com Freud em Tipos psicológicos (1921) e formulando sua teoria da libido em A energética psíquica (1928). * 3. Extrai Jung, dessa hipótese, o inconsciente coletivo, distinguindo-se de Freud, centrado na sexualidade infantil e nos complexos de Édipo e Electra, ao interessar-se pelas lentas mutações da espécie e pela formação de mitos e símbolos, constituindo tal fundo comum da humanidade estrutura de arquétipos, animus e anima, esquemas eternos expressos em símbolos coletivos, mitológicos, religiosos, populares, artísticos e neuróticos, buscando a psicologia analítica atingir esse fundo comum que unifica indivíduo, espécie e cosmos. **Ferenczi, o discípulo fiel** * 1. Toda a obra de Ferenczi coloca-se sob o signo de apego fiel a Freud, desde considerações sobre o homoerotismo (1911) até projeto comum com Rank por volta de 1924, dando origem a O trauma do nascimento e Thalassa, e a obra conjunta Perspectivas da psicanálise. * 2. Em Thalassa, ensaio sobre a teoria da genitalidade (1924), obra que Freud considerou a mais brilhante e profunda do pensamento de Ferenczi, aplica-se o ponto de vista psicanalítico à biologia dos processos sexuais e à vida orgânica inteira, apoiando-se em duas decisões: a psicanálise encontra esclarecimento essencial na biologia, mais que na religião ou na linguística; e as fases do desenvolvimento sexual individual elucidam-se pelo paralelo com as etapas da evolução da espécie, retomando a lei biogenética fundamental de Haeckel. * 3. Interpreta Ferenczi a libido, fundamentalmente sexual como para Freud, nos termos de regressão matricial enraizada na constituição do próprio organismo biológico, defendendo que formações psíquicas diversas representam por mesmo símbolo o coito e o nascimento, exprimindo regularmente sensações do coito e da existência intrauterina, correspondendo o orgasmo a novo gozo do bem-estar intrauterino. * Descreve as etapas do ato sexual como repetição condensada de toda a evolução sexual do indivíduo, sendo a regressão materna ontogenética repetição de regressão de tipo talassal na filogênese, culminando ambas no coito. * 4. Enquanto Jung enraíza o inconsciente nas estruturas arcaicas da psique coletiva, mítica e religiosa, Ferenczi o ancora na matriz orgânica da mãe e, mais além, na matriz talassal da espécie inteira, sendo tal gesto radical, situando-se, de certo modo, antecipadamente nos antípodas da decisão lacaniana posterior. **Lacan: a ética da psicanálise** * 1. Ao estudar as psicoses infantis, propõe Lacan, entre 1936 e 1949, em O estádio do espelho como formador da função do eu, análise que evidencia o papel da imagem total do corpo e do corpo próprio na constituição da identidade do sujeito, desempenhando o outro, desde o início, papel determinante na formação narcísica, tendo a palavra parte essencial no reconhecimento do próprio desejo pelo outro, do qual o falo é objeto significante essencial. * A orientação lacaniana, articulando linguagem, intersubjetividade e ética, contribui para redefinição radical do inconsciente e da estrutura da psique, ao retomar de perto a herança freudiana sobre inconsciente, repetição, transferência e pulsão. * 2. Em Ciência e verdade, constata Lacan que a psicanálise aparece em mundo tornado possível pela ciência, supondo o discurso científico de marca cartesiana muito acentuada, sem que a crítica de tal cartesianismo residual, em Do sujeito da certeza, o leve, à maneira de Jung, a substituí-lo por abordagem religiosa e espiritual, situando-se antes o nível apropriado de abordagem do inconsciente, para Lacan, em ordem ética, relendo a Metapsicologia em termos de estruturas e posições na cura para subtraí-la à medicina normalizadora do século XIX e fazer dela ética da palavra. * 3. Enuncia Lacan, nos Quatro conceitos fundamentais da psicanálise, duas ideias-força já presentes em Freud mas às quais confere acuidade inédita: o estatuto do inconsciente é ético; e o inconsciente é estruturado como uma linguagem, retomando ética do descentramento do sujeito, dividido e clivado desde a origem, acentuando-se a importância da falta, da hiância, do tropeço, da falha, da vacilação e da fenda pelos quais o inconsciente vem a ser nomeado, reformulada como a esquize do sujeito. * 4. Destituindo o sujeito de suas prerrogativas de soberano senhor de si, faz Lacan descobrir que o outro talvez saiba mais sobre mim do que eu mesmo, dele derivando a função, essencial na transferência, do sujeito suposto saber, remetendo a transferência à tomada de consciência radical daquilo que nos divide, nos torna incompletos, nos aliena, habitando em nós como alteridade radical, o desejo, consistindo a posição ética do analista, por neutralidade de escuta, em espécie de epoché diante da loucura do desejo do outro. * Forja Lacan, em Ainda, a noção de amoralidade, ética do inconsciente, não da alma, ocupando-se a ética analítica essencialmente do desejo, irrepresentável irremediavelmente insatisfeito, situando-se ao centro dessa ética o quadrilátero da lei moral e sua transgressão, do desejo e do recalque, opondo referências contrastantes a Kant e a Sade. * 5. Soma-se a isso a importância conferida à linguagem, podendo-se encontrar no inconsciente as próprias estruturas da linguagem, interpretando-se os sintomas neuróticos em termos de metáfora (recalque) e metonímia (deslocamento), tendo a cura analítica por objetivo fazer o sujeito reencontrar a parte do discurso que lhe falta, restabelecendo a continuidade de seu discurso consciente, dando-se assim o inconsciente, para Lacan, como o fato constitutivo da própria condição de sujeito falante. **Um antepassado subestimado, Schopenhauer** * 1. Reconhece Freud em Schopenhauer precursor de peso, tanto por sua filosofia fundada em dualismo originário, o da representação e da vontade, quanto por sua consideração precoce do instinto sexual como impulsão decisiva de nossos afetos e ações, convergindo ambos os traços na recusa de todo pensamento especulativo que desconheça a realidade concreta da consciência animal e humana e faça abstração da realidade corporal do ser humano, concordando também nesses dois pontos, profundamente, o fundador da fenomenologia, Edmund Husserl. * 2. A fenomenologia husserliana busca prioritariamente tomar a experiência como fio condutor de toda elaboração conceitual, desconfiando de construções unificadoras abstratas e reinscrevendo suas análises no contexto concreto de um sujeito individual agindo com seu corpo, não sendo estranho, desse ponto de vista, que Husserl e Freud, embora não se tenham conhecido pessoalmente, tenham tido, além de Brentano, Schopenhauer como referência comum, partilhando fenomenologia e psicanálise idêntica prova de verdade na apreensão da realidade incontornável do corpo vivido, a carne (Leib) como realidade pulsional (Trieb), sendo consciência e corpo, para ambos, inseparáveis, dois lados de uma mesma realidade fenomenal de tipo pulsional. * 3. Como Espinosa, possui Schopenhauer intuição aguda quanto ao caráter originário do corpo, à ontologia do desejo e à relação entre físico e metafísico, dois pontos de vista paralelos sobre o mesmo fenômeno, oferecendo, aos trinta anos, em 1818, análises psicopatológicas extremamente precoces da loucura psíquica e física, além de reflexão metodológica sobre a relação entre filosofia e ciências empíricas cuja pertinência as ciências cognitivas contemporâneas não desmentem. **Freud, leitor de Schopenhauer** * 1. Evoca Freud, em 1925, as amplas concordâncias com a filosofia de Schopenhauer, considerando-as, contudo, não deriváveis de sua familiaridade com a doutrina, citando mais precisa e literalmente o schopenhaueriano E. von Hartmann, autor de impressionante Filosofia do inconsciente (1869), não se conciliando, contudo, o vitalismo monista e a tendência moralizante deste com as teses freudianas sobre sexualidade e recalque, sendo antes na filosofia da vontade de Schopenhauer, sobretudo nos Suplementos, que Freud encontra por antecipação sua própria concepção do inconsciente. * 2. No capítulo XIX dos Suplementos, Do primado da vontade na consciência de nós mesmos, afirma Schopenhauer que a vontade como coisa em si constitui a essência íntima, verdadeira e indiscutível, mas em si mesma sem consciência, sendo notável, nos capítulos XLII e XLIV, a acuidade da intuição pré-freudiana quanto a uma sexualidade originária e generalizada, fundamento de toda ação séria, substância da vontade de viver, sendo o homem instinto sexual que tomou corpo. * 3. Certas observações de Schopenhauer parecem tão precisas que Freud parece ter apenas retomado, séculos depois, o que aquele formulara com conceitos próprios, como no caso do conflito psíquico testemunho do processo de recalque, descrito no capítulo XXXII (Da loucura), e da fusão progressiva dos autoerotismos em amor de objeto genital na idade adulta, descrita no capítulo XXXI (Do gênio). **A metafísica da vontade inconsciente** * 1. Ocupa Schopenhauer lugar extremamente atípico na filosofia alemã do século XIX, familiarizado com a biologia por sua formação em medicina, desconfiando dos grandes sistemas especulativos, inclusive do idealismo cartesiano, sem poupar críticas ao materialismo pós-hegeliano, indiferente à realidade do sofrimento humano, indo suas referências privilegiadas à filosofia francesa do século XVIII e aos fisiologistas Bichat e Cabanis. * 2. Recusando subordinar, como fará Schelling, o comentário fisiológico ao filosófico, coloca Schopenhauer as duas abordagens em espelho, vendo na distinção de Bichat entre vida animal e vida orgânica correspondência estreita com sua própria distinção entre fenômeno e coisa em si, harmonizando-se, diz ele, como duas vozes num dueto. * 3. Colocam Bichat e Cabanis radicalmente em questão o dualismo cartesiano sem cair em monismo especulativo, interessando isso de perto a Schopenhauer, que aí vislumbra antecipações de sua própria distinção entre consciência intelectual e organismo inconsciente, formando a vontade a ponte entre os dois pela extensão de seu sentido: por um lado, o regime fisiológico dos viventes, relevando da vontade orgânica inconsciente; por outro, o regime cerebral dos animais, correspondente à percepção motriz e aos afetos, ao desenvolvimento da vontade consciente. * Cabanis, nos Rapports du physique et du moral, desenvolve continuidade gradual entre as formas inconscientes orgânicas mais elementares e as formações intelectuais complexas, mostrando a inteligência em ação desde o início. * 4. Há, portanto, parte essencialmente inconsciente atuando na Vontade em sentido schopenhaueriano, conferindo a esse Fenômeno único estatuto global que reúne os dois polos da consciência subjetiva e do corpo orgânico, havendo identidade entre corpo e vontade, sendo aquele a objetivação desta, não sendo o ato voluntário e a ação do corpo dois fenômenos objetivos distintos ligados pela causalidade, mas um único fato dado de duas maneiras diferentes: imediatamente e como representação sensível. **Conclusão: a influência de Schopenhauer sobre a fenomenologia** * 1. O que Schopenhauer chama Vontade, ao mesmo tempo consciente (ato voluntário) e inconsciente (ação orgânica), Husserl rebatizará Leib, retomando o termo do autor de Sobre a vontade na natureza e conferindo-lhe estatuto de unidade psico-orgânica. * 2. Enquanto Freud pôde redescobrir nos Suplementos o núcleo de sua concepção do inconsciente pulsional e do instinto sexual, fez Husserl sua, de modo extremamente preciso, a concepção schopenhaueriana do Leib como Willensorgan, exposta integralmente no Livro II, tendo Husserl adquirido as Obras Completas de Schopenhauer já em 1880 e lecionado a obra de 1818 desde 1892-93. * 3. Já no § 6 do Livro I, apresenta Schopenhauer o papel do corpo (Leib) como objeto imediato, ponto de partida do sujeito no conhecimento, correspondendo-lhe, no Livro II, o segundo ponto de vista, o da vontade (Wille), sendo o corpo a única objetivação de fenômeno único, literalmente a objetidade (Objektität) da vontade, distanciando-se assim Schopenhauer da concepção kantiana do corpo como caos de sensações ou a priori formal, aproximando-se da apreensão fenomenológica da corporeidade. * 4. Além da abordagem geral do corpo como objetivação da vontade, anunciando a problemática husserliana da autoconstituição da consciência no corpo orgânico, e da crítica radical ao puro sujeito conhecente, testemunho da exigência de enraizar o conhecimento na corporeidade agente de um sujeito concreto, é notável, no § 18, a apresentação das duas modalidades de aparição do corpo: como representação no conhecimento fenomenal, objeto entre objetos submetido a suas leis, e como princípio imediatamente conhecido por cada um, designado pela palavra Vontade, retomando Husserl exatamente essa aparição uni-dual do corpo, dado a mim seja como corpo-objeto (Körper), seja como corpo-sujeito (Leib). {{tag>Depraz consciência psicanálise}}