====== 6 Dasein e corpo ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.// **VI. Dasein, corpo e diferença ontológica** 1. A consideração da corporalidade do Dasein como objeto material inanimado ou máquina complexa é possível mesmo durante a vida, mas essa perspectiva perde de vista precisamente aquilo que constitui a essência do corporal. 2. A presença de Eros como impulso fundamental do filosofar contrasta com sua escassa tematização explícita na obra heideggeriana, sugerindo que sua ausência conceitual pode corresponder ao retraimento daquilo que atua, em vez de indicar uma separação simples entre vida e pensamento. 3. O retraimento daquilo que atua possui dignidade fenomenológica própria, pois o fenômeno não se reduz ao que aparece imediatamente, abrangendo também aquilo que se mostra a partir de si mediante modos de manifestação que não assumem a forma da presença dos entes. 4. A pergunta pelo ser dirige-se ao fenômeno cujo aparecer consiste em retrair-se, questionando a metafísica fundada na positividade da presença e compreendendo, mediante a diferença ontológica, o ser como alteridade do ente, em vez de concebê-lo como entidade suprema ou fundamento igualmente entitativo. 5. A necessidade de pensar a alteridade do ente somente se torna perceptível quando se rompe com a suficiência atribuída pela metafísica à presença positiva, pois a própria tradição ocidental restringiu a possibilidade de reconhecer uma exigência ontológica diferente daquela que orienta a determinação dos entes. 6. A investigação da alteridade ontológica desenvolve-se no confronto com Husserl e Aristóteles, alcançando uma primeira configuração na fenomenologia hermenêutica da facticidade e, em Ser e tempo, no questionamento do sentido do ser e na destruição da ontologia tradicional. 7. A transformação heideggeriana do conceito de fenômeno permite reconhecer como ontológico aquilo que permanece oculto no que habitualmente se mostra e, ao mesmo tempo, lhe pertence essencialmente, de maneira que ser designa diferentes modos de retraimento que possibilitam a manifestação dos entes. 8. A diferença ontológica orienta a investigação de Ser e tempo mesmo quando não é explicitamente nomeada, permitindo reconhecer elementos operantes na obra que não receberam desenvolvimento temático na parte publicada, sem que isso exija atribuir-lhe uma organização arquitetônica integralmente realizada. 9. A ausência de uma tematização explícita não significa abandono conceitual, como mostram as indicações formais e a diferença ontológica, que permanecem pressupostas no desenvolvimento de Ser e tempo, embora não sejam apresentadas de maneira sistemática. **CORPO E DIFERENÇA ONTOLÓGICA** 1. A diferença ontológica distingue o ente daquilo que não se manifesta em sua entidade e recebe o nome de ser, permitindo compreender a multiplicidade dos modos de dizer o ser a partir de um traço comum de retraimento que os diferencia das determinações dos entes. 2. A descrição da vida fáctica na cotidianidade constitui o ponto de partida efetivo de Ser e tempo e conduz à primeira articulação da diferença ontológica como distinção entre abertura de ser e descoberta dos entes, substituindo a referência husserliana à atitude natural pela análise da indiferença cotidiana. 3. A estrutura unitária do ser-no-mundo caracteriza o ente que descobre outros entes enquanto permanece aberto em seu próprio ser, e seu desdobramento exige pares conceituais capazes de nomear a diferença ontológica sem necessariamente designá-la de forma expressa. 4. A análise dos modos de abertura distingue a compreensão ontológica das possibilidades onticamente compreendidas e a disposição afetiva dos estados de ânimo, desenvolvendo a investigação da existência mediante o contraste entre abertura de ser e descoberta dos entes. 5. A diferença entre ser e ente implica uma correlação indissociável, pois o ser é sempre ser de um ente e o ente sempre se encontra em seu ser, não autorizando a separação dessas dimensões em regiões independentes ou autônomas. 6. A relação entre fundamentação ôntica e investigação ontológica é explicitada na correspondência de Heidegger com Karl Löwith, na qual a dependência da ontologia em relação ao ôntico recebe uma determinação própria. 7. A ontologia somente pode ser fundada onticamente quando o ente que fornece seu fundamento é compreendido segundo seu modo próprio de ser, sem que essa fundamentação se reduza ao recurso arbitrário a qualquer fato ou realidade particular. 8. A indissociabilidade entre determinações ontológicas e dados ônticos também se evidencia nos diálogos de Heidegger com Medard Boss, nos quais a descrição dos fenômenos concretos permanece vinculada ao esclarecimento de seu ser. 9. Os traços ontológicos de uma coisa somente se tornam acessíveis por meio de dados onticamente descritíveis, enquanto os fatos ônticos se encontram fundados em determinações ontológicas, de maneira que ambas as dimensões permanecem entrelaçadas e não podem ser encontradas isoladamente. 10. A relação ôntico-ontológica atravessa todas as possibilidades de ser do Dasein e, por isso, precisa orientar também a compreensão do corpo, cuja investigação não pode ser excluída do âmbito da diferença ontológica. 11. A crítica ao suposto esquecimento heideggeriano do corpo perde precisão quando identifica a corporalidade ao lado exclusivamente ôntico do Dasein, pois corpo e existência não constituem dimensões separadas, devendo a corporalidade ser compreendida no entrelaçamento ôntico-ontológico próprio do existir. 12. A investigação do corpo exige reconhecê-lo a partir do modo de ser do ente que compreende afetivamente o ser, distinguindo o corpo descoberto como fenômeno ôntico da corporalidade ontológica que participa da própria abertura da existência. 13. A corporalidade ontológica requer um acesso diferente daquele pelo qual se descobrem os entes, pois seu caráter de ser se manifesta no retraimento e não na apresentação de um objeto corporal determinado. 14. A radicalidade do pensamento heideggeriano depende do reconhecimento de um acesso próprio aos fenômenos ontológicos, cuja compreensão permanece bloqueada quando se pressupõe que tudo deve aparecer segundo a positividade dos entes descobertos. 15. O esquecimento do corpo reproduz o esquecimento do ser quando sua manifestação é limitada à extensão simplesmente presente, pois o corpo existencial não corresponde apenas a algo que se possui, mas à corporalidade que se é. 16. A dificuldade de acesso à corporalidade ontológica explica a reserva de Heidegger diante do tema e sua resposta à crítica de Sartre, segundo a qual o corporal constitui uma das questões mais difíceis e ainda não podia receber um desenvolvimento suficiente na época de Ser e tempo. 17. O silêncio sobre a abertura corporal remete ao retraimento de seu caráter ontológico, embora a distinção fenomenológica entre corpo próprio (Leib) e corpo material ou objetivo (Körper), desenvolvida por Husserl e Merleau-Ponty, ofereça uma possibilidade de explicitar a questão. 18. Os Seminários de Zollikon retomam essa diferenciação para investigar as dificuldades de compreender ontologicamente o corpo a partir da existência, evitando subordiná-lo ao modo de ser da simples presença. **LEIB, KÖRPER E CORPORAR** 1. O existir caracteriza-se pelo descentramento e pela permanência extática do Dasein fora de si, permitindo compreender a corporalidade a partir do entrelaçamento ôntico-ontológico do ser-no-mundo e distinguir o corpo extático da interpretação exclusivamente extensa do corpo. 2. Os limites do corpo material (Körper) não coincidem com os do corpo vivido (Leib), pois a existência corporal ultrapassa continuamente a delimitação espacial de um objeto extenso e permanece aberta às relações que constituem sua situação. 3. O gesto de apontar não termina na extremidade do dedo, porque o corporar se estende ao horizonte de ser em que a existência permanece, de maneira que seus limites se modificam conforme o alcance variável da relação extática com o mundo. 4. A leitura de uma exposição diante de um público constitui um acontecimento corporal de ser-no-mundo, no qual postura, manejo das páginas, fala, escuta e orientação para os interlocutores se articulam segundo a situação compartilhada, evidenciando que a linguagem pertence à corporalidade e não pode ser reduzida à produção mecânica de sons. 5. O falar e o escutar realizam-se corporalmente em uma presença que é simultaneamente estar aqui e estar junto àquilo ou àquele a que se dirige, pois o modo de ser extático permite que o corpo ultrapasse sua localização física sem deixar de permanecer situado. 6. A corporalidade compreendida a partir da existência difere da positividade de um corpo simplesmente presente, pois constitui uma relação de ser fora de si, codeterminada pela permanência humana em meio aos entes manifestos. **CONCLUSÃO** 1. A interpretação do corporar à luz da diferença ontológica permite compreender a investigação heideggeriana como ressignificação existencial da corporalidade, pois todas as dimensões corporais, inclusive as musculares e hormonais, pertencem ao existir e não podem ser adequadamente determinadas apenas pelas categorias da presença e da extensão. 2. O corpo enquanto corpo é, a cada vez, meu corpo extático, cujo corporar se determina pelo modo de ser do Dasein, deslocando a investigação da centralidade do corpo próprio para sua constituição a partir da estrutura do ser-no-mundo. 3. A compreensão ontológica do corpo permanece um problema aberto, e a conquista filosófica inicial consiste em torná-lo efetivamente visível como questão, em vez de pressupor sua clareza ou anunciar prematuramente uma solução definitiva. {{tag>Xolocotzi Dasein corpo}}