====== 20 Dasein como compreensão afetiva ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Subjetividad radical y descomposicíon del ser: Una aproximación a la ontología de Martin Heidegger. México: Plaza y Valdés, 2007.// **§ 20. O Dasein como compreensão afetiva de possibilidades temperadas** 1. No § 4 de Ser e tempo, o Dasein recebe cinco determinações fundamentais: não é apenas um ente entre outros, a ele vai em seu ser este mesmo ser, tem em seu ser uma relação de ser com seu ser, compreende-se em seu ser de algum modo e com algum grau de explicitude e está aberto para si mesmo com e por seu ser, sendo a compreensão do ser uma determinação de ser do Dasein e consistindo sua peculiaridade ôntica em ser ontológico. 2. O Dasein destaca-se entre os demais entes por um modo de ser específico, cujo acesso não pode dar-se pela universalidade suprema que absorve o diferente no já conhecido nem por um método escolar que nega toda tematização originária, sendo antifenomenológico considerá-lo um ente que se apresenta entre outros, pois a ele vai seu ser, cuida de seu ser, justamente por não ser um universal aplicado nem um ente fechado, de modo que, sendo pergunta, vê seu ser como tarefa e pergunta porque seu ser não lhe está dado, mas comparece diante dele. 3. Ir-lhe seu ser implica uma relação de ser com seu ser, um comportar-se que indica portar ser, o próprio e o de outros entes, portar-se a si mesmo por não lhe ser indiferente seu ser e com-portar-se com outros portadores de ser, de modo que o Dasein se compreende em seu ser com algum grau de explicitude, numa relação que não é representação neutra, mas compreensão heterogênea do próprio estar sendo, e está aberto com e por seu ser, isto é, entregue ou lançado a seu ser e abrindo-o ao projetá-lo, projeto lançado que no § 9 recebe o nome de existência. 4. A existência consiste no Zu-sein, ter-que-ser, cujo zu indica tanto obrigatoriedade, a obrigação de ser, quanto direcionalidade, o dirigir-se por meio de seu ser, mantendo-se o Dasein aberto para si mesmo, razão pela qual existência deve ser entendida como estar-fora, não a partir de uma interioridade predeterminada, mas como abertura total, de modo que dizer que o Dasein é ontológico remete a essa relação de ser que o determina, afastando-se interpretações exotéricas ou esotéricas do ser humano ao mostrar que em sua base está simplesmente a existência. 5. No ter-que-ser, comporta-se com o próprio ser de tal modo que, projetando ou compreendendo ser, se está aberto a esse ser, abertura chamada Da no Dasein, que não significa primariamente o advérbio de lugar aí, mas o estar aberto da existência, como no jogo infantil em que se pergunta ao lobo se ele está aí, não para localizá-lo, mas para saber se está pronto para devorar, ou quando se pergunta se as crianças estão aí no teatro de bonecos, ou quando se diz não estar inteiramente aí por ter a mente em outro lugar. 6. O Da indica a abertura em que se encontra a existência, o que remete à diferença terminológica entre Dasein e existência, pois a existência está no Dasein enquanto este indica o caráter de abertura de ser do ente determinado pelo existir, sem que isso implique isolamento ontológico em relação aos entes não determinados com e por seu ser. 7. Utensílios e coisas simplesmente presentes não são determinados por uma relação de ser com e por seu ser, sendo o ser do utensílio determinado pela cadeia referencial em que se insere, cujo quê é a conjuntura e cujo como é o estar à mão, de modo que em sentido estrito não há um utensílio isolado, pois todo utensílio é para algo, enquanto a coisa-objeto simplesmente presente recebe seu ser de fora, por determinação genérica, analógica, ideal ou substancial, sendo conjuntura e presença modos de abertura do ser não existente em que intervém a existência, e consistindo a preeminência do Dasein em que só nele, por ter a existência como modo de ser, se dá a possibilidade de radicalização rumo à pergunta pelo ser. 8. O ponto de partida fenomenológico é a indiferença da cotidianidade, em que a ocupação com os entes é indiferente para que o Dasein tenha seu primeiro encontro com as coisas ao deixar-se absorver pela relação com o circundante, aparecendo como mera relação de ser abridora de mundo, o que derruba a ideia moderna de uma base representacional sobre a qual se edificam os atos da consciência e, com ela, seu caráter afetivamente neutro, que levou a uma interpretação sóbria e intelectual da consciência e subordinou a afetividade à clareza da representação, restrição em parte visada pelas críticas radicais anteriormente examinadas. 9. Desde o semestre de emergência de guerra e em Ser e tempo percebe-se que no trato ocupado com o circundante já se apresenta uma segurança específica com o tratado, isto é, uma tonalidade afetiva em relação às coisas, como a segurança de não cair ao sentar-se numa cadeira, a confiança no chão ao caminhar ou a esperança nos resultados de um experimento científico. 10. A cotidianidade, como modo indeterminado de comportamento do Dasein, impregna todo trato com utensílios e coisas presentes, e a tonalidade afetiva revela-se nela como monotonia, pois, sendo vivida afetivamente, torna familiar o que se encontra e não surpreende a cada trato, não por lidar sempre com as mesmas coisas, mas porque o modo de abrir a relação com elas protege afetivamente pela familiaridade, sendo a monotonia não uma tonalidade determinada, mas o caráter afetivo do conhecimento dos entes, já que o desconhecido se torna conhecido quando o que tinha outro tom passa a ser mono-tonal. 11. Sentar-se numa cadeira torna-se monótono ao fazer uso dela, não estando em jogo a ação de um sujeito em contato com um objeto, mas a realização da compreensão do ser num comportamento que abre mundo e possibilita descobrir a conjuntura que determina o que se chama cadeira, de modo que o descoberto não é um conteúdo quiditativo determinado, mas algo apreensível apenas na imersão pré-teorética na vivência do circundante, apreensão sui generis do utensílio que implica sua descoberta afetiva, pois a cadeira é descoberta em sua segurança específica, incluindo a confiança de não cair. 12. O indeterminado da tonalidade afetiva em relação à cadeira não depende de suas determinações, como a materialidade, mas da totalidade referencial em que se está, sentindo-se segurança porque a cadeira está afinada referencialmente e seu para quê responde de modo temperado à cadeia de referências, segurança referencial que difere da segurança determinada fornecida pela substancialidade ou pela ideia, a qual separou o ser como digno de absoluta confiança do tempo como aquilo que passa, e que não pode ser afetivamente neutra, como sugeriu a interpretação moderna da representação, porque o Dasein tem como modo de ser a existência, isto é, projeto lançado ou compreensão afetiva. 13. O fenomenologicamente central do Dasein é seu modo de ser como existência, determinado pela relação em que lhe vai seu ser por e com seu ser, relação indeterminada desdobrável quanto ao por e quanto ao com, que o capítulo V da primeira seção de Ser e tempo analisa como os dois modos de abertura do ser, abrindo-se o que vai ao Dasein por seu ser na compreensão do ser e o com seu ser na disposição afetiva, que executa o estar-lançado do Dasein. 14. Compreender algo não tem primariamente conotação intelectual, mas designa uma capacidade, devendo o verstehen ser entendido como vorstehen, pré-estar, no sentido de poder fazer frente a algo e estar à altura do que se enfrenta, correspondendo-lhe, o que constitui um acesso radicalmente diferente ao mundo e aos entes intramundanos em relação à tradição metafísica, sobretudo moderna, que não via esse pré-estar originário e propunha os entes, num vor-stellen, re-presentação que se tornou o modo determinante de conhecer porque lhe correspondia o simplesmente presente, sendo mundo, entes e o próprio ser humano vistos como presença acessível pela representação. 15. Sendo o modo de ser do Dasein apenas a existência, relação em que lhe vai seu ser por e com seu ser, a compreensão, o por, terá de ser pensada a partir da disposição afetiva, o com, já que ambos os modos de abertura são constitutivos e cooriginários, embora muitas leituras tenham identificado a disposição afetiva com sentimentalismo ou irracionalidade e destacado apenas a compreensão como âmbito estritamente hermenêutico ou filosófico. 16. Pensar a hermenêutica apenas a partir da compreensão implica uma visão unilateral do Dasein em sua existência, que não alcança a magnitude do planejamento heideggeriano por descobrir não a existência enquanto tal, mas apenas uma versão modificada da subjetividade, razão pela qual as leituras subjetivistas ou antropológicas da analítica existencial não percebem a ruptura radical com a representação em jogo. 17. A hermenêutica heideggeriana sempre foi uma hermenêutica disposicional ou, como chamada nas primeiras lições, hermenêutica da facticidade, pois a compreensão indica o que vai ao Dasein por seu ser, mas isso só é possível pelo modo como lhe vai, com seu ser, mediante a disposição afetiva. 18. A disposição afetiva, enquanto indica como se está e como se vai, é o modo de abertura que constitui o Dasein quanto ao como se abre aquilo que lhe vai, o ser, sendo o ser apreendido na compreensão e o modo como ele vai ao Dasein apreendido na disposição afetiva, sem esquecer que o apreendido não é um ente, mas aquilo que dele se diferencia e o possibilita, de modo que também o como da abertura do ser não tem caráter ôntico, mas ontológico. 19. Essa diferença exprime-se terminologicamente ao distinguir a compreensão daquilo que nela se abre já compreendido, as possibilidades, e a disposição afetiva daquilo que nela se abre, as tonalidades afetivas, havendo entre compreensão e possibilidade, assim como entre disposição e tonalidade, uma diferença ontológica análoga à que há entre ser e ente, de modo que o Dasein é, em seu estar sendo, possibilidade temperada e, ontologicamente diferenciado, compreensão afetiva, não havendo uma sem a outra, o que constitui a ruptura radical com a herança moderna, pois a existência como relação de ser por e com seu ser abandona o ponto de partida representacional e o âmbito da consciência, já que o Dasein não pode ser pensado estritamente como subjetividade, sendo apenas compreensão afetiva de possibilidades temperadas. 20. Vista em sua cooriginariedade com a compreensão, a dimensão disposicional-afetiva mostra que o estar sendo do Dasein não pode ser entendido a partir de uma derivação externa e geral sobre o ser, mas apenas de seu próprio caráter ontológico-existencial, no qual a afetividade não é um acréscimo, mas um traço essencial da existência. 21. Pela intensidade, volatilidade, indiferença e fugacidade das tonalidades afetivas, grande parte da tradição julgou-as indignas de análise filosófica, mas a obra heideggeriana consiste em grande medida em destacar o que a tradição ignorou, como o mundo como significatividade, a cotidianidade e a afetividade, partindo o § 29 do reconhecimento de que as tonalidades não são um nada, como pareciam medidas pelo algo determinado, e afirmando não haver direito ontológico-existencial de rebaixar a evidência da disposição afetiva pela certeza apodíctica do conhecimento teórico do simplesmente presente, pois o determinado, fruto de uma interpretação representacional, é apenas um modo de apreender as coisas e não esgota as possibilidades de tematização ontológica. 22. A correspondência entre compreensão e afetividade no Dasein não faz da compreensão o determinante e da afetividade sua contraparte, mas é indeterminada pelo caráter ontológico constitutivo desse ente, o que gera uma dupla problemática, pois, sendo o mais próprio do Dasein, é o mais difícil de ver, dificuldade que a tradição limitou ao considerar acessível apenas o determinado ou determinável, cedendo o pensar além do determinado à poesia, à religião ou à mística e abrindo caminho a pensamentos determinacionais como a modernidade cartesiana, que situa a tematização filosófica na proposta teórico-cognoscitiva guiada pela representação e lhe atribui o primeiro acesso ao mundo, quando essa possibilidade cognoscitiva é em sentido estrito uma derivação do modo cotidiano em que a existência acontece. 23. A fenomenologia hermenêutica da facticidade pensa o Dasein como compreensão afetiva de possibilidades temperadas, ponto de partida radical para o filosofar que não é mera tradução de uma representação intelectual que sente, mas vai além ao descobrir o âmbito em que deitam raízes todas as propostas determinacionais teórico-cognoscitivas, como as modernas apoiadas na representação. 24. Não se trata apenas de apontar um esquecimento na tradição filosófica, mas de um convite, confirmado pela constelação filosófica contemporânea, a um modo radicalmente diferente de fazer filosofia, que abre sempre novas possibilidades de filosofar e conserva o traço da fenomenologia heideggeriana que já impressionara Hannah Arendt, um pensar apaixonado em que confluem o pensar e o estar vivo. {{tag>Xolocotzi subjetividade Dasein Seinsverständnis Befindlichkeit}}