====== 19 Cotidianidade ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Subjetividad radical y descomposicíon del ser: Una aproximación a la ontología de Martin Heidegger. México: Plaza y Valdés, 2007.// **§ 19. Preconceito e cotidianidade** 1. O terceiro preconceito, a obviedade do ser, situa-se num nível diferente de acesso, pois essa obviedade só existe enquanto se faz uso do ser, vivido numa compreensibilidade mediana e não como conceito instalado num esquema genérico ou analógico nem como tranquilidade metódica decorrente da indefinibilidade lógica, de modo que, não sendo determinado por um esquema externo nem pela apropriação metódica de poucos, mas tornando-se temático a partir da experiência de cada um ao fazer uso dele, pode ser chamado autotérico. 2. O acesso vulgar ao ser o considera universal e supremo, a indefinibilidade já não é assunto da massa metafísica, mas de poucos que, na escola e na academia, chegam por um método a essa conclusão, e o terceiro preconceito rompe de certo modo com a derivação, ainda que por oposição, do preconceito esotérico a partir do exotérico, indicando outra forma de estar pressuposto. 3. O preconceito exotérico foi apreendido na tradição como conceito, referindo-se a universalidade do ser ao conceito de ser, o que não leva a propor uma filosofia sem conceitos, mas a questionar a obviedade oculta na associação entre conceito e universalidade. 4. Desde os primeiros cursos de Friburgo, o âmbito correlacional da fenomenologia oferece a possibilidade de pensar radicalmente a definição e o conceito, problemática detectada nas interpretações de Aristóteles de 1921-1922 ao tematizar a desvalorização da filosofia, que considera supérfluo falar de seu conceito, seja por apego a uma ideia de ciência, seja por apelar à mera vivência de algo mais profundo, e sua supervalorização, que busca ora uma definição geral capaz de abranger toda figura histórica, ora uma definição estrita e própria. 5. Ambas as perspectivas têm algo positivo, pois a supervalorização busca uma orientação principal e a desvalorização indica a necessidade de um filosofar concreto, mas o acesso fenomenológico consiste em reconhecer o objeto da filosofia, já que a norma usual de definição só tem sentido para regiões de objetos completamente determinadas, e a filosofia, embora formalmente seja um objeto, não o é à maneira de uma rosa ou de uma coisa. 6. A fenomenologia escapa a essa norma, não havendo na filosofia definições no sentido usual, mas um modo de ser genuinamente tido, pois a cada objeto corresponde um modo determinado de acesso, de manter-se e de perder-se, o que leva a pensar a definição e o conceito de forma não derivada da universalidade, devendo a definição brotar do próprio fenômeno e não de uma forma hegemônica predeterminada de acesso, possibilidade aberta pelos indicadores formais. 7. No terceiro preconceito rompe-se de algum modo com a apreensão externa do ser ou com sua impossibilidade, pois nele o ser é pressuposto ao fazer-se uso dele, numa compreensibilidade mediana que não é a da generalidade, mas a de cada um, e na qual a compreensão do ser se executa, como quando qualquer um compreende que o céu é azul ou que se está feliz, sendo essa compreensibilidade executante o âmbito que permite pensar a pergunta pelo ser como radicalização da tendência do Dasein a compreender aquilo em que se encontra, conforme o § 5 exige que o modo de acesso deixe o ente mostrar-se em si mesmo e a partir de si mesmo e o § 7 denomina método fenomenológico esse fazer ver o que se mostra tal como se mostra. 8. O modo de ver fenomenológico consiste em aceder ao objeto não a partir de um conteúdo pressuposto nem de um método pré-desenhado, mas a partir do modo de ser do ente que se anuncia e que oferece correlativamente seu modo de acesso. 9. O método como técnica distingue-se do método fenomenológico, pois na técnica o aceder e o acedido são independentes, enquanto o caráter intencional do acesso fenomenológico indica a copertença entre ambos, de modo que a tematização não pode ser determinada unilateralmente, recaindo-se no primeiro preconceito se a determinação parte do objeto e no segundo se parte de uma pro-posição do método, devendo o acesso corresponder ao acedido e o Dasein mostrar em seu estar sendo o acesso tematizador cuja gradação na transparência conduz à pergunta pelo ser. 10. A ruptura com uma tematização determinadora realiza-se ao partir de um âmbito que faça ver a coisa a partir de si mesma, para além dos esquemas exotéricos e esotéricos da tradição, caminho régio encontrado no preconceito da obviedade do ser, em que se faz uso do ser de modo evidente e indiferente, fazendo essa obviedade parte da indeterminação da vida fática e recebendo nos §§ 5 e 9 os nomes de cotidianidade, imediatidade e regularidade indiferentes ou medianidade, fenômeno ignorado pela tradição que designa um como da existência que domina o Dasein durante toda a vida. 11. A ênfase na cotidianidade como ponto de partida retoma o início das lições de Friburgo, em que a vivência ateorética do mundo circundante é a regra e a atitude teórica a exceção, de modo que partir da obviedade do ser, por mover-se sempre numa compreensão do ser, é partir do próprio acesso ao ser e da defasagem entre saber e não-saber que constitui o Dasein como pergunta, só podendo o quê da pergunta realizar-se fenomenologicamente em relação ao seu como, razão pela qual elaborar a pergunta pelo ser significa tornar transparente em seu ser aquele que pergunta, transparência que é o trânsito do posto em questão ao perguntado. 12. A transparência que acompanha a reformulação da pergunta pelo ser só é possível a partir de já se estar fazendo uso do ser, e reconhecê-lo é reconhecer o factum em que se encontra o ente que pergunta, copertença que se expressa nos dois modos de abertura do Dasein. {{tag>Xolocotzi subjetividade cotidianidade}}