====== 16 Heidegger ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Subjetividad radical y descomposicíon del ser: Una aproximación a la ontología de Martin Heidegger. México: Plaza y Valdés, 2007.// **§ 16. Heidegger "e" Heidegger** 1. Compreender o caminho filosófico de Heidegger não é tarefa simples, e a pesquisa heideggeriana divide-se entre interpretações evolucionistas, como as de Gadamer e Figal, que veem na obra um desenvolvimento ascendente ou descendente, e interpretações pluralistas, como as de Pöggeler e Kisiel, que a pensam em etapas e fases, ambas concordando em dividi-la em três partes, as lições anteriores a Ser e tempo, a ontologia fundamental e o pensar ontohistórico do ser como Ereignis, e discutindo qual delas é determinante, a ponto de Gadamer considerar Ser e tempo uma improvisação recaída na concepção transcendental husserliana e interpretar a Kehre como um retorno às primeiras lições. 2. Reduzir a Kehre a um mero retorno implicaria dar preeminência indiscutível às primeiras lições, como se o pensar histórico do ser apenas recuperasse o caminho correto iniciado em 1919 e desviado em 1927, interpretação que dificilmente reflete as intenções e modificações operadas ao longo da obra e que talvez permaneça distante do núcleo da problemática heideggeriana. 3. A publicação da Edição Integral e das correspondências mostra que Heidegger aprendia consigo mesmo ao exercer crítica sobre o já escrito, como indica a carta de 1932 a Elisabeth Blochmann, na qual a releitura dos próprios manuscritos se revela mais fecunda, em sentido positivo e negativo, do que outras leituras. 4. Numa espécie de testamento encontrado após a publicação dos Aportes e incluído em Meditação, afirma-se que os novos arranques não pretendem liquidar Ser e tempo, mas manter de modo mais originário a totalidade do questionamento e situá-lo num horizonte correspondente, conforme um plano delineado desde 1932 que encontra sua primeira figura no projeto Do evento, em cujo âmbito se dá também a discussão com Ser e tempo. 5. No mesmo anexo a Meditação, os Aportes à filosofia são apresentados como um novo arranque destinado a tornar visível a amplitude da pergunta pelo ser, sem se perder na explicação particular, ainda que não tenham alcançado a forma exigida para uma obra publicada, pois deveriam anunciar o novo estilo do pensar como retenção na verdade do ser, dizer do silenciar e amadurecimento para a essencialidade do simples. 6. Ambas as passagens, de 1937-1938, mostram que os Aportes não foram considerados uma obra em sentido estrito, que seu centro reside no termo Ereignis e que devem ser vistos em sua confrontação com Ser e tempo, como autointerpretação da ontologia fundamental. 7. A tematização de Ser e tempo moveu-se em torno da diferença ontológica, mostrando, a partir da mundanidade do mundo, que no comportamento cotidiano se executa a diferença entre a abertura do caráter ontológico do mundo e a descoberta dos entes, isto é, um poder diferenciar cujo fundamento possibilitador deve ser buscado no fundamento do poder-ser existente, de modo que a vida fática ou Dasein tem a raiz de sua possibilidade na transcendência como ultrapassamento. 8. O Dasein, em seu poder diferenciar e em seu existir compreensivo e afetivo do ser, já é ultrapassador, pois ultrapassa o ente em direção à abertura do ser e retorna dessa abertura lançada e projetada aos entes, e só quando esse movimento transcendental se realiza em sua totalidade o ente pode ser encontrado e descoberto como ente. 9. O ultrapassamento do transcender pode ser apreendido formalmente numa relação tripolar de, para e algo, em que o de designa o que ultrapassa, o transcendental, isto é, o próprio Dasein, o para designa aquilo a que se dirige o ultrapassamento, a abertura do ser, e o algo ultrapassado é o ente, ainda não como ente, pois só no retorno pertencente à transcendência ele é descoberto como tal. 10. Os análises de Ser e tempo e das lições que o circundam conduzem à conclusão de que descobrir o ente como ente no trato da ocupação requer tanto a abertura do ser desse ente, o horizonte, quanto o movimento ultrapassador do existir, a transcendência, conceitos com os quais se pensa, numa primeira tentativa ontológico-fundamental, o fundamento não metafísico da essência do Dasein, de modo que o horizonte transcendental é o fundamento ontológico-fundamental dessa essência. 11. No horizonte transcendental pensa-se a copertença ontológico-fundamental entre Dasein e ser, mostrando o horizonte a relação da verdade do ser com a existência do Dasein e a transcendência o comportamento essencial da existência com a verdade do ser. 12. As dificuldades interpretativas do pensar ontohistórico conduziram a leituras baseadas em fases ou mudanças de tema e também a leituras que veem nele uma nova tentativa que anula por completo a anterior, sem continuidade alguma, como se houvesse apenas duas propostas isoladas em que o pensar ontohistórico exigiria o abandono da ontologia fundamental. 13. Uma interpretação mais minuciosa, vertical e horizontal, do caminho heideggeriano exige não um abandono unilateral, mas a investigação explícita de ambas as perspectivas da pergunta pelo ser, revelando que não se abandona a ontologia fundamental em geral, mas apenas a interpretação horizontal-transcendental da compreensão do ser, conservando-se as análises da essência do Dasein e abandonando-se somente a elaboração de seu fundamento não metafísico, o horizonte transcendental. 14. O próprio Heidegger autoriza essa interpretação ao indicar expressamente que o abandonado no pensar ontohistórico foi o horizonte transcendental, ao afirmar nos Aportes que, sustentando o Dasein originariamente o aberto do ocultamento, não se pode falar rigorosamente de uma transcendência do Dasein, que o caminho transcendental vale apenas provisoriamente para preparar a mudança súbita e o salto, e ao anotar em Ser e tempo a superação do horizonte enquanto tal e a reversão à origem. 15. As estruturas do Dasein desdobradas em torno da pergunta por sua essência não desaparecem com o abandono do horizonte transcendental, mas são reinterpretadas a partir do fundamento da essência na perspectiva ontohistórica, de modo que, se na ontologia fundamental esse fundamento residia na transcendência e no horizonte, no pensar ontohistórico revela-se seu fundamento eventual e acontecente, explicitando-se a verdade do ser, experimentada historicamente como lance eventual, em relação ao Dasein compreensor do ser, entendido como lançado e acontecido. 16. O questionamento da perspectiva transcendental-horizontal conduz a falar do caráter histórico do ser, pois, se em Ser e tempo a pergunta pelo sentido do ser se mostrou como pergunta pelo tempo originário, unidade da temporalidade do Dasein e de seu horizonte temporal, a ser tematizada em Tempo e ser, no pensar ontohistórico enfatiza-se a proveniência desse tempo originário a partir da verdade do ser, cujo modo de dar-se é sua história ou destino, sendo a história do ser o próprio dar-se do ser, cuja retenção possibilita as épocas. 17. A virada dos anos 1930, em que o ser passa a ser tematizado como Ereignis, expressa as consequências do primeiro planejamento ontológico-fundamental de Ser e tempo, sem sugerir uma nova época mítica que abandone a tradição, pois não há uma época histórica do Ereignis, mas revela-se o caráter epocal do próprio ser, aparecendo a história do ser precisamente como história, nome da tentativa de recolocar a verdade do ser como acontecimento na palavra do pensar. 18. O que as primeiras lições e Ser e tempo tematizam remete à essência da vida fática ou Dasein, e não expressamente ao fundamento dessa essência, cuja tematização pertencia à terceira seção de Ser e tempo e é abandonada no pensar histórico do ser, enquanto as estruturas essenciais da existência não são abandonadas, mas reinterpretadas originariamente ao experimentar-se o estar-lançado do Dasein em sua origem a partir do lance acontecente. 19. Para além da autointerpretação que sempre situou a pergunta pelo ser como guia do caminho filosófico, pode-se falar efetivamente de certa continuidade a partir de análises centrais tanto da ontologia fundamental quanto do pensar ontohistórico. 20. Sendo a pergunta pelo ser o guia do pensar heideggeriano, apropriar-se dela sem recair em repetições ou fórmulas petrificadas exige, no modo de ver fenomenológico, partir não do ser, mas do próprio perguntar, em cujas consequências talvez se encontre outro acesso ao que é o ser humano e ao que a tradição tematizou como ser. {{tag>Xolocotzi subjetividade conhecimento compreensão intuição}}