====== 3.6 Historicidade ====== //WHITE, Carol J. **Time and Death: Heidegger's Analysis of Being-upon-the-End**. Edited by Mark Ralkowski; foreword by Hubert L. Dreyfus. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2005.// 1. A história do ser-aí está intimamente ligada à história do ser, mas a analítica existencial truncada de Ser e Tempo examina apenas a atividade do ser-aí ao assumir e projetar uma compreensão do ser, focalizando-se aqui a conexão entre temporalidade e historicidade do ser-aí, embora ambas só sejam possibilitadas pela temporaneidade do ser, pois mais fundamental que a historicidade do ser-aí é a história do ser que se manifesta por meio dela, fato não discutido explicitamente na analítica do ser-aí, mas cujo caminho, a viravolta (Kehre) fenomenológica do ser-aí para o ser, exigida para completar a análise da relação entre ser e ser-aí, se vislumbra no horizonte da discussão. 2. A história do ser é tratada mais adiante, e a discussão da historicidade do ser-aí só se completa nesse contexto, permanecendo até lá misteriosa a noção de que o ser se revela, mas convém enfatizar desde o início a conexão entre as duas histórias, dois lados da mesma moeda, para não cair na incompreensão de Husserl a respeito do projeto de Ser e Tempo. * Segundo Heidegger, Husserl entendeu Ser e Tempo como ontologia regional do histórico, que caberia confortavelmente em sua própria concepção das ontologias regionais que investigam a natureza de diversos tipos de coisas. * Tal ontologia regional é precisamente o que resulta quando não se vê a conexão nem a distinção entre a historicidade do ser-aí e a história do ser. * Por não ver isso, Husserl permaneceu alheio à historicidade do pensamento, sobretudo do "pensamento fundador", dependente da história do ser, aceitando uma compreensão particular do ser como dado a-histórico e não percebendo como o pensamento e seu mundo podem mudar. * Husserl supõe que a historicidade do ser humano não afetará o ser das outras regiões do que é, cuja análise poderia ser feita independentemente de qualquer análise da historicidade humana, tendo números, espaço e natureza um modo de ser independente de toda cultura e história, revelável por um método descritivo igualmente independente dessas condições. 3. A conexão entre historicidade do ser-aí e história do ser indica também a peculiaridade da noção heideggeriana de historicidade, pois civilizações que não são veículos da revelação do ser não são históricas em seu sentido, como os antigos egípcios ou os maias, e parece que todas as civilizações não ocidentais são a-históricas nesse sentido, sendo ser-aí "primitivo" que não tem porvir e pode continuar do mesmo modo por séculos ou milênios. 4. A temporalidade é a condição de possibilidade de o ser-aí "acontecer" de modo "histórico", e, embora todo ser-aí "aconteça", o ser-aí da cultura ocidental tem uma temporalidade própria distintiva que o faz acontecer historicamente. * O ser-aí de muitas culturas antigas talvez acontecesse de modo "mitológico", numa realidade articulada pelo logos de seus deuses, e agora, quando segundo Heidegger a história do ser está chegando ao fim, talvez aconteça de modo "tecnológico", nenhum desses rótulos parecendo adequado às culturas orientais. * Não surpreende que Heidegger anuncie que "o ser para a morte próprio — isto é, a finitude da temporalidade — é o fundamento oculto da historicidade do ser-aí". * Se isso surpreende no contexto de Ser e Tempo, é porque Heidegger, como na discussão inicial da morte, desviou retoricamente o leitor para um ramal secundário sem sinalizar claramente o caminho de volta à linha principal, mas, ao falar do nascimento do ser-aí, remete a artefatos culturais. 5. A discussão começa perguntando como o ser-aí pode "estender-se" (Erstreckung) de modo unificado entre seu "nascimento" e sua "morte", o que pode reconduzir a uma interpretação pessoal, como se se perguntasse como uma pessoa nasce, mantém uma personalidade unificada ao longo do tempo e falece. * Ao discutir o passado entre o ser-aí e seu "nascimento", Heidegger não fala de acontecimentos da infância, álbuns pessoais e lembranças, mas de artefatos em museus e ruínas de templos gregos. * Pode-se inferir que o "nascimento" do ser-aí em questão é seu começo na Grécia antiga, e a questão é como a história da civilização ocidental pode exibir continuidade e ao mesmo tempo mudanças profundas. * Esse movimento não é questão de uma efetividade duradoura da substância, mas acontece dentro de um âmbito de possibilidades já traçado, sendo questão de uma "sub-stância" como posição fundamental em relação ao ser, originada com os gregos, que estabeleceu esse âmbito de antemão. 6. A unidade do "estender-se" do ser-aí, a unidade de sua história, é possibilitada pelo fato de a temporalidade própria ser um "vir-em-direção" que "volta", isto é, de a antecipação incluir necessariamente a repetição, não sendo a "história" do ser-aí "o passado" como algo decorrido e acabado, mas o modo como o ser-aí "vem de" seu passado. * Pela interação dos êxtases da temporalidade própria, o ser-aí pode, "transmitindo a si mesmo a possibilidade herdada, assumir seu estar-lançado e ter o instante para 'seu tempo'." * "Só a temporalidade própria, que é ao mesmo tempo finita, torna possível algo como destino (Schicksal), isto é, a historicidade própria." 7. Heidegger descreve a historicidade própria do ser-aí como "destino", termo que não indica nenhum determinismo "fatalista", mas o modo como o ser foi "enviado" ao ser-aí, exigindo o envio bem-sucedido uma recepção bem-sucedida. * A resolução torna manifesta ao ser-aí sua herança (Erbe), um âmbito indeterminado de possibilidades. * A herança não especifica uma única decisão resolutiva, uma única nova compreensão do ser, como a única possível num período, tendo a indeterminação do poder-ser geral do ser-aí. * A "situação" a ser focalizada numa decisão resolutiva não é algo simplesmente dado à espera de ser apreendido, pois "só se abre num resolver livre, que não foi determinado de antemão, mas está aberto à possibilidade de tal determinação". 8. A história do ser-aí e suas sucessivas decisões resolutivas foram determinadas pela contribuição criadora de sua própria apreensão do ser, pois assumir possibilidades do âmbito não articulado oferecido pelo ser nas práticas culturais de fundo envolve resposta ativa, e não determinação passiva, sendo as possibilidades, na historicidade própria, "herdadas e, no entanto, escolhidas", e incluindo sempre a "repetição" uma "réplica" (Widerruf) ao passado, sem o que a compreensão do ser não teria mudado desde a Grécia antiga e não haveria continuidade de um "estender-se" a explicar. 9. A continuidade da existência do ser-aí permite ver a época atual como produto de seu passado, mas a força motriz dessa história não é nada mecânico ou material, e sim o vislumbre criador do ser-aí como veículo da abertura mutável do que é ser, continuidade preparada pelo salto primordial que abriu o ser como questão na Grécia antiga. * Heidegger parece julgar que todas as possibilidades do ser-aí de compreender o ser dentro do horizonte da presença, todas as possibilidades do pensar metafísico, foram traçadas pelo modo como os gregos puseram a questão do ser e pela posição que tomaram diante dela. * "Na resolução reside a constância existenciária que, por sua própria essência, já assumiu de antemão todo instante possível que dela brote." * Abandonar uma decisão resolutiva tomando outra, "revogando" uma compreensão existenciária do ser pela abertura de uma nova, não é processo arbitrário ou fortuito, mas exigido pela "situação" do ser-aí, produto de sua relação com o ser como existência. * As situações são, em última instância, tornadas "possíveis" pelas revelações do ser, embora se tornem efetivas pelo vislumbre criador do ser-aí. 10. Na Introdução à Metafísica, Heidegger aponta exemplos da "construção de mundo" que é "a história em sentido próprio", realizada por "criadores, poetas, pensadores e estadistas", o ser-aí próprio que dá o salto de vislumbre que traz a história do ser-aí a partir de seu porvir, "antecipando" a morte e alcançando o abrigo do ser para desvelar o que "pode ser num tempo" e trazê-lo à luz na clareira. * "Contra o caos avassalador, erguem a barreira de sua obra, e em sua obra capturam o mundo assim aberto." * "Sabemos por Heráclito e Parmênides que o desvelamento do que é não é simplesmente dado. O desvelamento só acontece quando é conquistado pela obra: a obra da palavra na poesia, a obra da pedra no templo e na estátua, a obra da palavra no pensamento, a obra da pólis como morada da história na qual tudo isso é fundado e preservado." 11. No Estado grego, todos esses modos de construir mundo operaram em harmonia para deixar o ser do que é revelar-se de diversos modos, primeiro como chreón, physis e alétheia e depois, na filosofia de Platão e Aristóteles, como idéa e ousía, residindo o "operar da obra" "numa mudança, acontecida a partir da obra, do desvelamento do que é, e isso significa, do ser", de modo que a significatividade não articulada nas práticas culturais entra subitamente em foco no templo grego ou no "dizer" de um pensador e as relações culturais podem começar a tomar nova forma. 12. Ser e Tempo chama "destino comum" (Geschick) o "acontecer como ser-com os outros" do ser-aí, noção suscitada pela constatação de que a historicidade própria acontece numa comunidade e de que os criadores solitários, artistas, poetas, pensadores e estadistas, não podem sozinhos tornar histórico o ser-aí. * "Mas se o ser-aí destinado, como ser-no-mundo, existe essencialmente como ser-com os outros, seu acontecer é um co-acontecer e se determina como destino comum. Assim designamos o acontecer da comunidade, do povo." * "O destino comum não se compõe de destinos individuais, assim como o ser-um-com-o-outro não pode ser concebido como a ocorrência conjunta de vários sujeitos. Os destinos já foram guiados de antemão no ser-um-com-o-outro no mesmo mundo e na resolução por possibilidades determinadas." * "Somente na comunicação e na luta o poder do destino comum se torna livre. O destino comum destinado do ser-aí em e com sua 'geração' constitui o acontecer pleno e próprio do ser-aí." 13. Numa entrevista posterior, Heidegger admite que o conceito de destino comum em Ser e Tempo ficou pouco desenvolvido e que, por isso, o que tentava exprimir em tais passagens não é claro. 14. Algumas conclusões podem ser tiradas de suas escassas observações. * O contraste entre "destino" e o co-acontecer do "destino comum" não indica que o destino seja "pessoal" no sentido de manifestar-se nos acontecimentos da vida pessoal, como estar "destinado" a conhecer certa pessoa ou obter certo emprego, nem que o ser-aí a quem um destino é "enviado" seja apenas um indivíduo. * O destino comum coletivo tampouco é independente do destino. * Heidegger não chama o destino comum de "historicidade própria", título reservado ao destino, mas diz que destino e destino comum juntos constituem o "acontecer próprio" do ser-aí. * O destino como historicidade própria depende de uma comunidade de pessoas afins. 15. A relação entre destino e destino comum pode ser compreendida pelo exemplo do pensador próprio, pois a filosofia está "fundada no misterioso fundamento da liberdade, naquilo que chamamos o salto", envolvendo a repetição do salto primordial grego. * A observação de que "todo questionar filosófico essencial é necessariamente intempestivo" parece contrariar a noção de que o presente próprio envolve um vislumbre do que "pode ser num tempo", mas a ênfase deve recair no "pode", pois o pensar próprio rompe com a concepção atual do impessoal e pode parecer escandalosamente errado a seus contemporâneos. * "A filosofia é essencialmente intempestiva porque está destinada a ser uma daquelas poucas coisas que nunca podem encontrar eco imediato em seu próprio dia." * Como Heidegger considera Nietzsche um pensador próprio, lembra-se o louco que grita "Deus está morto" e encontra zombaria e incredulidade, pois Nietzsche podia ver que as práticas culturais do fim do século XIX eliminavam o lugar de Deus na existência humana e que o drama da vida passara da salvação à aquisição, mas depois do relâmpago leva tempo até o trovão chegar aos ouvidos do homem da rua. 16. O pensar próprio nunca pode fornecer diretamente as energias e criar as oportunidades que produzem a mudança histórica, pois é assunto de poucos criadores, dos transformadores profundos, mas seu vislumbre, se próprio, nem surge num vazio nem é lançado num vazio, devendo ser um vislumbre do que pode ser "num tempo" e tocar uma corda sensível em outros que possam vir a partilhá-lo, razão pela qual o destino como historicidade própria envolve o destino comum como co-acontecer com os outros. * Maquiavel exprimiu uma visão da natureza humana semelhante à concepção moderna comum, nietzschiana, mas ninguém na Itália do século XVI a acolheu. * "Os que salvaguardam uma obra pertencem ao seu ser-criada tão essencialmente quanto seus criadores." * Os salvaguardadores da obra, os que têm ouvidos para sua mensagem, parecem inicialmente merecer o título de "ser-aí próprio" tanto quanto o criador, e sem essa salvaguarda não há criação própria. 17. O ser-aí historicamente próprio não precisa ser uma pessoa individual isolada, pois os artesãos que planejaram e construíram as catedrais góticas trabalharam em grupo para exprimir um novo vislumbre partilhado do que é ser, mas o "destino comum" de Ser e Tempo parece indicar menos essa historicidade própria conjunta do que aquilo que deve ocorrer para que uma compreensão do ser recém-projetada seja assumida pela sociedade em geral. * O vislumbre filosófico "espalha-se apenas indiretamente, por caminhos tortuosos que nunca podem ser traçados de antemão, até que finalmente, num 'quando' indefinido, depois de esquecido como filosofia originária, afunda numa autocompreensão corriqueira". * O "quando" em que o vislumbre do ser deixa de ser próprio e se torna corriqueiro é tão indeterminado quanto o "quando" em que o vislumbre próprio acontece, e o processo intermediário é o co-acontecer do destino comum, que vai do próprio, ou do que salvaguarda o vislumbre próprio enquanto envolve o mesmo questionar fundamental do que é ser, até a impropriedade decaída. * O "acontecer próprio" pleno do ser-aí envolve tanto a historicidade própria, individual ou coletiva, quanto o co-acontecer salvaguardador do destino comum, ambos necessários para que o ser-aí seja o "aí" em que o ser se revela. 18. Que a história do ser-aí seja a de sua compreensão mutável do ser está longe de ser óbvio na parte publicada de Ser e Tempo, exigindo atenção ao que Heidegger pretendia realizar na seção projetada "Tempo e Ser" e na Segunda Parte, ausente, sobre a destruição da história da ontologia, pois o pensamento humano não cria ex nihilo uma compreensão do que é ser, e, assim como um vislumbre do ser não é lançado num vazio, mas "em direção aos futuros salvaguardadores, isto é, a um grupo histórico de homens", tampouco surge num vazio. * Usando "poético" num sentido amplo que abrange todos os modos de abertura própria: "O que é assim projetado, porém, nunca é uma exigência arbitrária. O projeto verdadeiramente poético é a abertura daquilo em que o ser-aí, como histórico, já está lançado." * O ser-aí próprio encontra o ser do que é já revelado de certo modo, descobrindo que as coisas começaram a mostrar-se de novos modos, de modo que uma nova compreensão do ser vem como des-coberta do ser do que é, e não como invenção. * "Que salto curioso, que presumivelmente nos proporciona o vislumbre de que ainda não residimos suficientemente onde propriamente já estamos." * Sem reconhecimento explícito, as práticas culturais já haviam começado a deixar as coisas aparecerem de novos modos, e o criador apenas traz esse ser ao foco, sendo também curioso que, na visão de Heidegger, quando se passa a residir "aí", quando o ser-aí passa a estar "junto" a uma abertura do ser, ele deixa de ser próprio e se torna impróprio. {{tag>White Dasein história}}