===== SENTIDO DE INTELIGIBILIDADE DA OUSIA ===== //MARX, Werner. Heidegger and the tradition. Theodore Kisiel. Evanston: Northwestern Univ. Pr, 1971.// * Somente aquilo que se apresenta no temporal e no transitório como eterno, que no seu curso é predeterminado pelo fim como necessário e que em toda mudança permanece consigo mesmo como idêntico a si, é totalmente cognoscível e inteligível, de modo que o quarto traço básico de ousia depende dos três anteriores e, assim como eles, repousa na visão aristotélica do mundo como “ordem movente”. * Eternidade como apresentação no temporal. * Necessidade como determinação pelo fim. * Mesmidade como permanência na mudança. * Inteligibilidade como consequência dos três traços. * Ordem cósmica movente como fundamento comum. * Os gregos conceberam desde cedo a cognoscibilidade como logos, significando ao mesmo tempo a ordem e o conhecer da ordem, e embora hoje o “lógico” ainda indique o cognoscível e o ordenado, seu sentido deslocou-se do cosmos grego para a ratio racional, contra a qual o pensamento de Heidegger se dirige ao rastrear sua origem no logos aristotélico e buscar, desde Ser e Tempo, destruir essa história de sentidos em favor de outro sentido de ser e essência. * Logos como ordem e conhecimento da ordem. * Lógico como cognoscível e ordenado. * Deslocamento histórico para a ratio racional. * Crítica heideggeriana ao racional. * Destruição da história dos sentidos desde Aristóteles. * Busca de outro sentido de ser e essência. * Para acompanhar a alteridade do sentido de ser e essência desenvolvido por Heidegger, convém retomar como, para Aristóteles, o ser e a essência do ente singular eram incondicional e desimpedidamente inteligíveis, pois se pressupunha a soberania absoluta do princípio da transparência completa, denominado noûs e afirmado por Aristóteles, em referência a Anaxágoras, como princípio governante. * Inteligibilidade incondicional do ente singular. * Soberania da transparência completa. * Noûs como princípio. * Referência a Anaxágoras. * Noûs como governante. * Aristóteles concebeu a soberania do noûs à semelhança da luz, pois a energeia do noûs poietikos atua como o brilho que confere transparência a tudo e atualiza cores potenciais, de modo que, no todo do ente singular, ousia é luminosa, transparente e noética, sendo pensável e apta ao pensamento humano pela noesis intuitiva. * Luz como imagem do noûs. * energeia do noûs poietikos. * Atualização do potencial no atual. * Ousia como luminosa e transparente. * Noeticidade como pensabilidade. * Noesis como apreensão intuitiva. * A partir dessa estrutura, a gnosiologia segue a ontologia, pois a inteligibilidade de ousia fundamenta sua pensabilidade pelo pensamento humano, enquanto a filosofia transcendental posterior inverte o percurso ao partir do sujeito e conceber os objetos como plenamente cognoscíveis, acessíveis e verdadeiros, consolidando a metafísica ocidental como metafísica da luz sob o princípio omne ens verum est. * Prioridade ontológica sobre a gnosiologia. * Inteligibilidade como fundamento da pensabilidade. * Inversão transcendental moderna. * Objeto como correlato do sujeito. * Metafísica da luz. * Princípio omne ens verum est. * Em Aristóteles, a inteligibilidade de ousia vincula-se ainda à verdade como alētheia, pois na noesis do simples não há lugar para erro ou aparência, já que a essência deve mostrar-se totalmente desvelada e transparente para ser apreendida por um contato imediato e infalível. * Verdade como alētheia. * Noesis do simples. * Exclusão de erro e aparência. * Transparência total da essência. * Apreensão por contato imediato. * Diferente é o conceito de verdade aplicado ao legein científico, no qual o conhecer e enunciar em forma de juízo pode corresponder verdadeira ou falsamente ao ente por homoiōsis, concepção transmitida à tradição como adaequatio intellectus ad rem e adaequatio rei ad intellectum, permanecendo dominante até Hegel. * Legein como conhecer enunciativo. * Verdade e falsidade como correspondência. * homoiōsis como adequação. * Transmissão escolástica. * Persistência até Hegel. * A possibilidade de erro no legein não invalida a plena inteligibilidade do ente, pois para Aristóteles o ente é epistēton e o erro humano pode ser corrigido, permitindo que o conhecimento alcance o ente tal como ele é. * Erro como possibilidade humana. * epistēton como cognoscível. * Correção do erro. * Conhecimento progressivo do ente. * Com base nessa confiança na inteligibilidade, Aristóteles delineou a imagem do ser humano como zōon logon echon, movido pelo desejo de saber, que se eleva da experiência e da technē à epistēmē e culmina na philosophia como amor à ciência. * Ser humano como zōon logon echon. * Desejo natural de saber. * Superação da experiência. * technē e epistēmē. * philosophia como culminação. * A essência, o alcance e o fim da epistēmē confirmam que ousia, objeto da ciência em sentido amplo, é plenamente inteligível, pois a epistēmē dirige-se aos universais necessários, eternos e idênticos, organizados em uma ordem lógica apreensível por demonstração, silogismo, causa e definição, o que torna o saber universal e necessário. * Ousia como objeto da epistēmē. * Universais necessários e eternos. * Mesmidade como critério. * Ordem lógica regida por leis. * Demonstração, silogismo e definição. * Universalidade e necessidade do saber. * Essa interpretação é retomada porque em Ser e Tempo Heidegger reinscreve a problemática ao compreender logos como articulação reveladora, apophansis que deixa ver o ente, entendendo o legein como desvelamento e verdade como aletheuein, ainda que reconheça também sua capacidade de ocultar. * Logos como articulação. * apophansis como fazer-ver. * Legein como desvelamento. * Verdade como aletheuein. * Possibilidade de ocultamento. * Com essa leitura do logos, Heidegger reconduz a análise à essência originária da verdade como desvelamento por Dasein, para o qual a desocultação do ente exige arrancá-lo do erro e da aparência, razão pela qual a verdade grega se exprime privativamente como a-lētheia. * Verdade como desvelamento originário. * Papel de Dasein. * Arrancar do ocultamento. * Erro e aparência como véus. * Sentido privativo de a-lētheia. * Tal concepção implica a consequência de que o ente nunca é plenamente apreensível pelo legein humano, o que contradiz a interpretação tradicional da inteligibilidade total de ousia e exemplifica a forma como Heidegger retoma problemas clássicos para seus próprios fins. * Limite do legein humano. * Impossibilidade de apreensão total. * Contradição com a tradição. * Reapropriação crítica dos problemas. * Em Ser e Tempo, o objetivo é explicitar a estrutura existencial de Dasein na ambivalência entre desvelamento e ocultamento, autenticidade e queda, entendidas como base originária da ontologia antiga, o que explica a ênfase no legein e a marginalização da noesis na análise. * Estrutura existencial de Dasein. * Ambivalência fundamental. * Autenticidade e Verfallensein. * Prioridade analítica do legein. * Brevidade da noesis. * A preocupação central de Heidegger é conquistar um conceito de verdade oposto ao da tradição metafísica, cuja estrutura começa a modificar-se em Hegel, preparando o terreno para o desenvolvimento posterior dessa transformação. * Busca de outro conceito de verdade. * Oposição à tradição metafísica. * Mudança estrutural em Hegel. * Preparação para superação ulterior. {{tag>"Werner Marx" ousia inteligibilidade noûs}}