===== FORMA DA OUSIA ===== //MARX, Werner. Heidegger and the tradition. Theodore Kisiel. Evanston: Northwestern Univ. Pr, 1971.// * A forma de ousia como constituição essencial do ente particular na esfera sublunar é reconduzida ao modo como Aristóteles a pensou ao interrogar, a partir do ente particular mantido em vista, a sua constituição essencial. * Esfera sublunar como âmbito do ente particular. * Pergunta orientada do ente particular para sua constituição essencial. * ousia como eixo da determinação do que constitui essencialmente o ente. * No tratado Categorias distingue-se entre “primeira ousia” e “segunda ousia”, sendo gênero e espécie exemplos de segunda ousia e base do conceito de universal pelo qual a Escolástica determinou a quidditas ou “o-que-é” do ente em exemplos como homem, jarro e ponte. * Segunda ousia exemplificada por gênero e espécie. * Universal como base da quidditas na tradição escolástica. * Homem: gênero “ser vivo” e espécie “ser vivo bípede”. * Jarro: gênero “recipiente” e espécie “jarro” com variações de uso. * Ponte: espécie que abrange passagens sobre água em modalidades técnicas e locais. * A quidditas ou essentia como conceito universal é indicada como fundamento do conceito corrente de essência, determinando compreensão cotidiana e científica mesmo sem dedução silogística, enquanto sua insuficiência aparece por valer indiferentemente para todas as coisas e por suscitar a expectativa de uma essência mais profunda na primeira ousia. * Universal aplicável indiferentemente como limite das determinações de essência. * Determinação do entendimento cotidiano e científico por essa concepção. * Expectativa de aprofundamento da essência a partir da primeira ousia. * A orientação filosófica busca uma essência em sentido pros hen, ao apreender uma physis certa que determina os modos de dizer relativos ao ente e as categorias referidas a essa physis, na qual ousia aparece como arche ou primeiro fundamento do ser do ente, unificando tode ti, o ser do ente e o ti estin, até o ti en einai, como poder que torna possível “este homem” ou “este cavalo” como particularidades significativas. * pros hen como modo relacional de apreender essência. * physis como poder habilitador e determinante das categorias. * ousia como arche e aition prōton tou einai. * Unidade misteriosa entre tode ti, ser do ente, ti estin e ti en einai. * Exemplos de primeira ousia: “este homem”, “este cavalo” como physis habilitadora. * A presença de physis como hyparchein funda a possibilidade de um ente significativo, pois somente a partir do haploun ou asyntheton que determina o “algo” em seu ser e em seu “que-é” a primeira ousia pode ser dita um todo, entendido como unidade que, do núcleo central para fora, possibilita o ente particular significativo. * hyparchein como condição de sentido. * haploun e asyntheton como simplicidade determinante do ente. * Primeira ousia como “todo” em sentido de unidade habilitadora. * “Do interior para fora” como modo de possibilitação do ente significativo. * Torna-se decisivo para a história do problema que esse todo-physis seja compreendido como hypokeimenon, tornando pensável a autossubsistência e independência dos entes sensíveis, de modo que a primeira ousia é o que subjaz ao contingente, ao possível e ao acidental, suportando predicações sem jamais ser predicado, como portador de atributos e núcleo do ente particular. * hypokeimenon como o que está-a-base. * Entes sensíveis como unidades autossubsistentes e independentes. * Predicados atribuídos ao hypokeimenon sem reciprocidade predicativa. * Núcleo do ente como suporte do alterável e do acidental. * A capacidade de suportar atributos e de ser núcleo do ente é compreendida por Aristóteles como relação referencial de máxima mobilidade, enquanto traduções posteriores por substare e subicere e a influência cartesiana fixam “substância” e “sujeito” como res rígidas, intensificando a reificação do homem e de suas coisas e motivando, em Sein und Zeit, a tentativa de superar tais compreensões a partir de um nível mais originário. * Relação referencial móvel como sentido aristotélico do hypokeisthai. * substare e subicere como vetores de tradução histórica. * Cartesiano: “substância” e “sujeito” rigidificados como res. * Reificação estendida a coisas, arte, viventes e essência do homem. * Sein und Zeit como esforço de superação da reificação no sentido do ser. * As formas fundamentais de ousia mostram, porém, que Aristóteles a concebe como poder altamente móvel, de modo que a impressão de um sentido reificado do hypokeimenon é contrariada pela compreensão de ousia como mobilidade intensa. * Ousia como poder e não como fixidez. * Contraste entre leitura reificante e concepção móvel. * Mobilidade como traço decisivo das formas fundamentais de ousia. * O modo pelo qual a primeira ousia habilita o ser essencial é determinado de múltiplos pontos de vista como expressão de um movimento supremo, no qual até a determinação eidos-(morphē)-hylē, frequentemente lida estaticamente, significa movimento porque a forma forma a matéria ao emergir como morphē e ao mostrar-se como eidos do que é, como no exemplo da serra. * Movimento supremo não reduzido a kinēsis em sentido estreito. * eidos, morphē e hylē como estrutura dinâmica. * Forma formando matéria como emergência de figura e aparência. * Exemplo: serra como morphē e eidos emergentes em matéria apropriada. * O crescer-conjunto de forma e matéria em um synholon não culmina em ser estático, pois a matéria individual mantém perecibilidade e alterabilidade e a forma presente permanece referida à forma ausente de que surgiu e a que pode retornar, tensão reforçada entre eidos e sterēsis e explicitada pela determinação de eidos como energeia e hylē como dynamis. * synholon como unidade perecível por hylē individual. * Forma presente em relação à forma ausente e ao retorno possível. * Exemplo relacional: quente presente e frio ausente como origem e destino. * sterēsis como privação que acentua mobilidade. * energeia e dynamis como chaves da mobilidade. * No âmbito deste esboço, a primeira ousia como energeia engendra a unidade do ser-particular e do que-é e atualiza dynamis no jogo livre de possibilidades, sendo ainda concebida como entelecheia que contém telē como potências renovadas que conduzem a atualizações renovadas, o que autoriza falar de ousia em modo mais verbal que nominal. * energeia como engendramento efetivo e atual da unidade. * dynamis como potencialidades, potências e forças no jogo de possibilidades. * entelecheia como movimento que retém produtos (telē) e renova potências. * Reiteração de atualizações como estrutura interna da ousia. * Verbalidade sugerida pela intensidade do mover-se de ousia. * O curso particular do movimento interno da primeira ousia é determinado como telos, no qual fases realizadas cumprem capacidades naturais em forma cíclica e atualizam o arche pelo fim, como história de uma relação que retorna a si mesma, preparando a determinação posterior dos traços fundamentais de ousia. * telos como forma do curso interno do movimento. * Cumprimento (Voll-endung) como realização por fases. * Ciclicidade como retorno ao início mediante o fim. * História relacional como figura do retorno a si. * A forma da primeira ousia do synholon é delineada como poder habilitador e todo unitário do ser do ente e do que-é, como independência que subjaz e está presente para determinações e acidentes, e como forma que se move em si mesma unindo presença e ausência de forma, energeia e dynamis, entelecheia e telos ao longo de fases. * Poder habilitador como condição do ente particular significativo. * Todo unitário do ser do ente e do que-é como núcleo. * Independência como subjazente e presente-para (Zugrundeliegendes und Vorliegendes). * Forma ausente e presente ligada à matéria própria. * Unidade móvel de energeia/dynamis e de entelecheia/telos. * A motilidade interna de ousia evidencia-se ainda porque tais determinações se desdobram essencialmente na gênese de ousia, razão pela qual forma, matéria e cumprimento aparecem como aitiai que, isoladas ou com a causa efficiens como arche tēs metabolēs, determinam que e como um ente particular real emerge. * Gênese como lugar de desdobramento essencial das determinações. * Forma, matéria e telos como aitiai. * causa efficiens como arche tēs metabolēs no emergir do ente. * Emergência do ente particular como problema genético de ousia. * O interesse aristotélico na gênese de ousia permite compreender múltiplos aspectos do ente singular e torna especialmente relevante o esquematismo das categorias em Categorias, no qual a primeira ousia como primeira categoria subjaz às demais no edifício lógico do ente, ao mesmo tempo em que a predominância genética pode explicar a insuficiente tematização do ser do ente depois de constituído e a ausência do problema da determinação do ente a partir da totalidade como physis, kosmos ou mundo. * Gênese como motor da amplitude da análise do ente singular. * Esquematismo das categorias como fundamento da tradição. * Primeira ousia como categoria primeira na construção lógica. * Possível lacuna: o ser do ente após vir-a-ser. * Totalidade envolvente e subjacente como physis, kosmos, mundo. * Nos comentários publicados sobre Aristóteles não se assinala essa lacuna, enquanto a determinação do ente enquanto “coisa” é buscada a partir de um mundo que o envolve, e em seguida são anunciados quatro traços fundamentais de ousia como introdução histórica à problemática em Heidegger, restringindo-se a análise à ousia do synholon no âmbito sublunar e privilegiando ti en einai em relação a hypokeimenon, com a exclusão de discussões sobre prōtē ousia em geral e sobre ousia imóvel ou não-gerada. * Comentários publicados sem explicitação da falta do aspecto da totalidade. * “Coisa” determinada desde um mundo envolvente como orientação posterior. * Quatro traços fundamentais como recorte introdutório. * Restrição ao synholon no âmbito sublunar. * Priorização de ti en einai sobre hypokeimenon. * Exclusão de prōtē ousia em geral e de ousia imóvel ou não-gerada. {{tag>"Werner Marx"}}