====== APRENDER O SI É ESQUECER O SI (1990) ====== //STAMBAUGH, Joan. Impermanence is Buddha-nature: Dōgen’s understanding of temporality. Honolulu: University of Hawaii Press, 1990.// * No fascículo Genjōkōan do Shōbōgenzō, Dōgen afirma que praticar e confirmar todas as coisas conduzindo-lhes o próprio si é ilusão, ao passo que permitir que todas as coisas avancem e pratiquem e confirmem o si é iluminação, o que desloca a primazia do eu para a natureza de Buda como aquilo que deve ser preservado e indica que iniciar a partir do si, se entendido de modo estreito, conduz ao aprisionamento no próprio si, ainda que seja necessário começar pelo si como acesso à realidade para então atravessá-lo e deixá-lo para trás. * Prioridade da natureza de Buda sobre o si. * Risco de permanecer preso no si ao partir dele de modo forçado. * Necessidade de iniciar pelo si como via de acesso à realidade. * Variedade de concepções do si, do ego estreito ao verdadeiro Si. * Dōgen formula no Genjōkōan que aprender o caminho de Buda é aprender o próprio si, aprender o si é esquecer o si, esquecer o si é ser confirmado por todos os dharmas, e ser confirmado por todos os dharmas implica abandonar corpo e mente próprios e alheios, fazendo desaparecer todos os vestígios de iluminação e perpetuando indefinidamente uma iluminação sem traços. * Aprender o si como condição do caminho. * Esquecer o si como momento decisivo. * Confirmação pelo conjunto dos dharmas. * Abandono de corpo e mente. * Continuidade de uma iluminação sem vestígios. * A busca da natureza de Buda não pode ser realizada fora de si, e a expressão de Dōgen no Fukanzazengi sobre voltar a luz para si mesmo não designa a descoberta de uma subjetividade cartesiana ou husserliana nem a exploração idealista da consciência, pois Dōgen não se insere no idealismo nem centra sua investigação na consciência enquanto tal. * Impossibilidade de procurar a natureza de Buda externamente. * Diferença em relação ao cogito cartesiano e husserliano. * Distanciamento do idealismo mahayana. * Deslocamento do foco para além da consciência enquanto objeto. * A frase aprender o si é esquecer o si afasta Dōgen de qualquer forma de misticismo tradicional, pois a aprendizagem culmina no esquecimento, o que dissolve a própria questão fundamental em vez de fornecer-lhe uma resposta conceitual, de modo semelhante à observação de Wittgenstein no Tractatus acerca do desaparecimento do problema da vida quando sua solução é realizada. * Esquecer como culminação do aprender. * Distanciamento do misticismo tradicional. * Dissolução da questão em vez de solução discursiva. * Referência a Wittgenstein e ao desaparecimento do problema. * A reflexão sobre a impossibilidade de responder verbalmente às questões fundamentais evidencia a inadequação das expressões linguísticas para apreender o que é vivido como decisivo, ilustrada pelo exemplo trivial da exclamação “Belo!” diante de uma paisagem, que nada exprime da experiência efetiva. * Limites da linguagem diante de certas experiências. * Exemplo da paisagem e da palavra vazia. * Insuficiência das fórmulas convencionais. * As questões fundamentais não são propriamente resolvidas, mas dissolvidas, como sugere a anedota de Gertrude Stein sobre a resposta e a pergunta, deslocando a atenção da busca de respostas para a própria origem e legitimidade da pergunta. * Dissolução em vez de solução. * Referência a Gertrude Stein. * Questionamento da própria pergunta. * A questão central de Dōgen acerca da necessidade de prática se todos possuem inerentemente a natureza de Buda, questão que engloba também a identidade de samsara e nirvana, orienta toda sua trajetória até a viagem à China e a descoberta de sua iluminação originária. * Problema da prática diante da natureza de Buda inata. * Inclusão da identidade de samsara e nirvana. * Viagem à China como consequência dessa inquietação. * As perguntas, mesmo sem respostas conceituais, são decisivas, e em certos casos a forma interrogativa constitui o modo mais adequado de expressar o inexprimível. * Centralidade da pergunta. * Valor expressivo da forma interrogativa. * A interrogação “De onde vens?” ultrapassa o nível ordinário e, como em muitas tradições zen, indica a realidade última para além da linguagem por meio de interrogativos ou de negativas como nada e vazio, pois o “que” ou “de onde” não pode ser objetificado, definido ou apropriado, sendo ilimitado e adequado para expressar a natureza de Buda, como na questão “o que é que assim vem?”. * Uso zen de interrogativos e negativas. * Caráter inobjetificável do “que” e do “de onde”. * Adequação da interrogação para exprimir a natureza de Buda. * Além da via negativa conhecida em diversas tradições, apresenta-se uma via interrogativa que expressa sem afirmar, exigindo contudo que se faça um enunciado, como ressalta Dōgen ao interpretar a afirmação de Po-chang de que tanto dizer que os seres têm natureza de Buda quanto dizer que não a têm implica depreciar os três tesouros, mas ainda assim é inevitável proferir uma enunciação. * Via interrogativa como modo de expressão. * Referência a Po-chang. * Tensão entre afirmação e negação sobre a natureza de Buda. * Necessidade de enunciar apesar da inadequação. * Embora toda afirmação falhe o alvo, a enunciação é parte integrante da experiência humana, pois o ser humano deve responder ao que se manifesta, como também sugere Meister Eckhart ao afirmar que, mesmo sem ouvintes, teria de pregar ao cofre das esmolas, enfatizando a resposta mais do que a mera comunicação. * Falibilidade de toda afirmação. * Necessidade de resposta ao que se manifesta. * Referência a Meister Eckhart. * Ênfase na resposta existencial. {{tag>Stambaugh}}