====== Sol e Morte ====== //SLOTERDIJK, Peter; HEINRICHS, Hans-Jürgen. Die Sonne und der Tod: Dialogische Untersuchungen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2001.// **Filósofo enquanto médico da cultura** Nossa história só pode ser contada se realmente levarmos a sério o fato de termos sido privados de toda ingenuidade diante de coisas como a mãe, as igrejas ou o cosmos. Na medida em que somos homens modernos, já não podemos desfrutar diretamente dos privilégios que o projeto Alma do Mundo oferecia à sua clientela. Se ainda pudéssemos dizer, com Tales, que “tudo está repleto de deuses”; se ainda pudéssemos definir, com Platão, o cosmos como um enorme ser vivo percorrido pelo pulsar de uma única aura de sentido; se ainda, além disso, pudéssemos idealizar a Natureza como uma boa mãe, então continuaríamos, como antes, situados no terreno da metafísica clássica ou de seus descendentes religiosos na era moderna. Todas as cosmovisões que ainda conseguem enxergar a extensão do animado até os limites do existente nada mais são do que metafísica clássica ou seus derivados. Algo que vale especialmente para os neoholistas e outros iniciados, mas que também pode se estender a alguns neomesiânicos que se aquecem ao abrigo de sua própria generosidade. No que me diz respeito, porém, munido da teoria e da vanguarda do desengano do nosso século, não tenho outra escolha a não ser partir da constatação de que o projeto Alma do Mundo fracassou, bem como do fato de que devemos nos contentar se conseguirmos cultivar pequenas ilhas de animação. Uma vez que compreendamos melhor o caráter construído e insular das zonas habitáveis pelo homem, lidaremos de forma mais inteligente com recursos tão escassos quanto a simpatia, a iniciativa ou a atmosfera. No mundo moderno, os homens podem esfriar de maneira monstruosa, podem contrair uma gripe ontológica incurável ou experimentar a solidão e o desamparo, a depressão e a perda de sentido — situações para as quais, muitas vezes, já não existem remédios disponíveis. Conscientes dessa situação, poderemos interpretar essa bolha de oxigênio a que chamamos cultura — e na qual existimos —, por um lado, de maneira mais cuidadosa e, por outro, mais técnica do que costumamos fazer. Essa é a situação inicial radicalmente moderna que tomo como pressuposto ao longo de minhas pesquisas. Quem não quer pensar à margem da ilusão do mundo da vida, quem não deseja levantar questões técnicas, quem não tem nenhum interesse em participar de análises do tipo “como é possível um espaço que responda às motivações”, esse é, aos meus olhos, um mero passageiro, um simples consumidor das produções culturais, e não um teórico da cultura. Infelizmente, a maioria dos professores de filosofia se encaixa nesse perfil de passageiro. Ou seja, parto de um cuidado generalizado, de natureza terapêutica. Apresento a seguinte reflexão: se o filósofo, seguindo a definição nietzschiana do médico da cultura, quiser estar à altura das circunstâncias, não pode deixar de impulsionar um debate em torno do espaço humano que seja digno de ser habitável; ele precisa se tornar um imunologista da cultura e enfrentar a questão de como essa estufa humana pode ser instalada e climatizada. Ele se ocupará dos sentimentos de integridade humana desestabilizados que sofreram e sobreviveram à modernização e, ao mesmo tempo, se perguntará o que deve fazer para impulsioná-los. Esferas deve ser compreendido a partir dessa abordagem filosófica da “medicação cultural”. É por isso que, no primeiro volume, ele deu tanta ênfase à importância de radicalizar esse conceito ingênuo — ao mesmo tempo belicoso e evocativo — que é a solidariedade, e investigá-lo teoricamente à luz de seus pressupostos fundamentais. Um termo marcado por uma história bastante romanesca: aquela que vai da direita francesa — onde se referia à responsabilidade mútua entre companheiros —, passando pelo saint-simonismo e pelo primeiro socialismo, até chegar às modernas seguridades sociais anônimas. Hoje surge o fantasma de uma solidariedade com os estranhos e a provocação de uma solidariedade entre os diferentes, motivo a mais para refletir novamente sobre os alicerces necessários para criar um poder recíproco, responsável e comum entre os homens, em um espaço sentimental e valorativo compartilhado. Por outro lado, já aplico o apelido de “médico da cultura” a Platão e afirmo que ele foi o imunologista-chefe da era do mundo metafísico. Ele foi o primeiro a explicar o universo como tal, o cosmos, como uma forma de imunidade. Talvez seja essa a razão pela qual as antigas doutrinas de sabedoria ainda hoje frequentemente pairam sobre nós com uma aura tão atraente: elas tratam, em certa medida, de solidariedades cósmicas e da não indiferença recíproca entre estrelas, animais, plantas, pedras e seres humanos. O mesmo se aplica à teologia clássica, que nada mais é do que a doutrina das razões e formas de relação de solidariedade entre Deus e a alma. Nesse contexto, surge para nós esta pergunta: como podemos nos imunizar, mesmo que já não disponhamos de uma forma de solidariedade ou proteção tão poderosa quanto aquela que Platão chamou certa vez de “cosmos” ou aquela que, entre os cristãos, era chamada de “Deus”? {{tag>Sloterdijk história}}